20 fev 2013

Fauna Brasileira, mais uma riqueza esquecida do país

Nas minhas andanças, discussões, aulas e palestras sempre procurei chamar a atenção das pessoas que me ouviam, particularmente os meus alunos, sobre a necessidade de conhecermos bem as nossas riquezas naturais, tanto biológica, quanto geológica e mesmo paisagística (cênica).

No meu caso específico, como zoólogo que sou, sempre me preocupei bastante com a fauna brasileira, a qual lamentavelmente sempre foi muito pouco conhecida pelos brasileiros, mas em contra partida é estranhamente conhecida e cobiçada (pelos mais diversos motivos) pelos estrangeiros. Chego mesmo a “brigar” com meus alunos para demonstrar que a fauna brasileira precisa ser mais bem divulgada para ser efetivamente conhecida e, se possível, popularizada no Brasil. Publiquei inúmeros artigos sobre a necessidade de ampliar o conhecimento da fauna brasileira. Além disso, orientei alguns alunos em seus respectivos Trabalhos de Conclusão de Curso, com temas relacionados a essa questão.

Trabalhei tanto esse problema que cheguei ao cúmulo de fazer uma pesquisa de opinião das mais diversas pessoas e colecionar informações durante mais de 25 anos, para ver se o conhecimento sobre a fauna brasileira melhorava no seio da população de nosso país.

Entretanto, parece que tudo tem sido em vão, pois, na verdade, as coisas aparentemente têm andado para trás. Isto é, parece que quanto mais o tempo passa, o número de espécies ameaçadas de extinção só aumenta, a necessidade do conhecimento se amplia e cada vez menos os cidadãos brasileiros adquirem esse conhecimento necessário sobre a fauna nativa do país.

Mais desagradável ainda é que esse presságio se amplia e parece que cada vez menos as pessoas querem conhecer a fauna nacional, até porque isso não aparenta ser algo que tenha efetiva importância para a população. Infelizmente, temo que isso também seja verdade também para outros atributos naturais do Brasil e sinto que estamos, cada vez mais, perdendo a noção dos valores no que se refere ao Patrimônio Natural Brasileiro como um todo, pois estamos deixando esse aspecto para segundo, ou mesmo terceiro plano na nossa ordem de prioridades.

Diferentes níveis de governos e de populações entendem que cuidar da natureza e do Patrimônio Natural não é uma questão significativa e não deve ter nenhuma relevância nacional. Faz algum tempo (ocorreu precisamente no dia 04/12/2012), na Instituição de Ensino Superior onde trabalho, durante a apresentação de um Trabalho de Conclusão de Curso de uma aluna orientanda de outro colega (MONTEIRO & MENDONÇA, 2012), que também é Biólogo e Professor, aconteceu um episódio bastante lastimável que quero aqui relatar e discutir.

No episódio, pude observar que tudo aquilo que tenho acompanhado nos últimos 30 anos sobre a questão do desconhecimento e consequente desinteresse pela fauna brasileira, lamentavelmente, só está piorando e que talvez triste equívoco até já tenha ficado fora do controle.

O Trabalho da jovem tratava sobre os Canídeos e Felídeos Brasileiros e foi desenvolvido através de entrevistas entre estudantes de Ensino Fundamental (6° e 9°anos), Ensino Médio (1° e 3°anos) e Ensino Superior (1° e 3°anos dos Cursos de Pedagogia e Licenciatura Plena em Biologia – cursos que formam Professores e Biólogos), de 10 escolas diferentes das cidades de Campos do Jordão, Guaratinguetá e Lorena.

Um dos objetivos do trabalho era saber se as pessoas (os estudantes entrevistados) seriam capazes de identificar os Canídeos e Felídeos brasileiros dentre vários animais dessas duas famílias de Mamíferos Carnívoros que lhes eram apresentados através de algumas imagens. Achei muito interessante a Metodologia proposta no trabalho e por conta disso mesmo acabei parando para assistir a apresentação.

Embora o trabalho da menina tenha sido muito bem feito e aproveito aqui para parabenizá-la e também o seu Professor Orientador pela iniciativa de tratar de um assunto como esse e pelo resultado assustador da pesquisa desenvolvida. Devo confessar que fiquei estupefato e estarrecido com os absurdos naturais que foram revelados com os resultados obtidos no trabalho. Bem, dentre os vários absurdos encontrados nos resultados obtidos pela aluna, vou aqui destacar alguns que me deixaram estupefato. Imaginem os Senhores, que a grande maioria dos estudantes entrevistados não foi capaz de identificar os animais brasileiros e mais, que dentre os quase 500 estudantes, NINGUÉM, isso mesmo NINGUÉM, identificou o nosso conhecidíssimo “Cachorro-do mato” (Cerdocyon thous), que é um animal ainda relativamente comum e fácil de ser encontrado aqui na região do Vale do Paraíba e também ninguém identificou o “gato-mourisco” (Herpailurus yagouaroundi), que embora seja realmente um animal raro e pouco conhecido, não dá para entender como é possível que NINGUÉM tenha conhecimento de sua existência, principalmente quando se está dentro de instituições de ensino.

Meu Deus! Se as pessoas (estudantes) não reconhecem nem mesmo o “Cachorro-do-mato” como animal da fauna brasileira, então como podem proteger aquilo que não conhecem? E mais, como podem amar aquilo que nem sabem que existe? Isso é muito complicado na minha cabeça e espero que também seja na cabeça dos Senhores leitores.

Mas, pior que isso, foi o fato de que, no mesmo trabalho, foi relatado que alguns dos estudantes não reconheceram o “Leão” (Panthera leo) e o “Tigre” (Panthera tigris), outros não identificaram o “Leão” como sendo um animal exótico e estranho à fauna brasileira, outros ainda não identificaram a nossa “Suçuarana” ou “Onça-parda” (Puma concolor).

Quer dizer, os estudantes brasileiros não reconhecem o “Cachorro-do-mato”, nem a “Suçuarana” que ainda são relativamente comuns no Brasil e acreditam que o “Leão” e o “Tigre”, que são totalmente estranhos, sejam nativos de nosso país. Em suma, infeliz e lamentavelmente a realidade natural e os valores a ela relacionados estão total e radicalmente invertidos em nosso país.

O pior é que há alguns idiotas (inclusive eu), que ainda estão preocupados com a Proteção da Fauna Nativa Brasileira. Caramba! Proteger o quê? Proteger algo que não existe? Sim, eu e outros idiotas estamos preocupados com um “fantasma” que ninguém conhece e que, portanto, parece realmente não existir.

Pois é, como vamos fazer os estudantes e as demais pessoas se importarem com aquilo que não existe? O trabalho da menina demonstrou mais uma coisa muito estranha que foi o seguinte: “aparentemente as pessoas das populações mais pobres não conhecem a fauna brasileira porque não assistem programas sobre fauna na televisão aberta ou assistem pouco”.

Por outro lado, “as pessoas mais ricas também não conhecem a fauna brasileira porque assistem “Discovery”, “Animal Planet”, “National Geography” e outras redes internacionais de TV fechadas”, que divulgam temas interessantes sobre a fauna pelo mundo afora, porém não fazem referência obrigatória ou específica à fauna brasileira em seus documentários, porque não têm nenhum compromisso, nem preocupação com os interesses educacionais do Brasil.

Quer dizer, o meio de comunicação televisivo que poderia ser muito útil para a formação de nossos jovens, mormente nos aspectos relacionados ao nosso Patrimônio Natural, acaba sendo bastante prejudicial, quando não é diretamente orientado à realidade nacional. Assim, ao invés de educar, acaba deseducando mais os jovens estudantes e também as demais pessoas que assistem a programação porque têm interesse no assunto.

Acho que é por isso que nós, aqui no Brasil, temos algumas ONGs fazendo campanhas para defender e proteger o “Panda” ou mesmo o “Coala”, que não ocorrem naturalmente no Brasil, mas não temos campanhas para defender o “Cachorro-do-mato” ou o “Gato-mourisco”, que podem estar no fundo do quintal de nossas casas.

Na verdade o que interessa são as grandes propagandas na mídia de alguns “bichinhos bonitinhos” deliberadamente escolhidos pelo mundo. Há mais de 20 anos, publiquei um artigo onde chamava a atenção para esse fato e vejo, tristemente, que nada mudou. Infelizmente, a maioria de nós, brasileiros, continuamos sendo ludibriados por interesses estrangeiros, além de estarmos investindo alto e fazendo graça para gringo rir e ganhar mais dinheiro. Lamento muito que quase todo bebê brasileiro, ao nascer, ganhe de presente um “ursinho-de-pelúcia”.

Embora eu não tenha absolutamente nada contra o “ursinho-de-pelúcia”, acho até que ele é “bonitinho”. Porém, penso que já passou da hora de começarmos a agir de outra maneira e iniciar a distribuição de “cachorrinhos-do-mato”, “gambazinhos”, “antinhas”, “jaguatiriquinhas”, “lontrinhas”, “oncinhas”, “muriquizinhos” e outros tipos de “animaizinhos brasileiros-de-pelúcia” para os bebês brasileiros e para as nossas crianças em geral.

Dessa maneira, quem sabe nossas crianças comecem a conhecer e identificar os animais da nossa fauna e assim, num futuro próximo, possam amá-los e talvez até queiram protegê-los. Esse quadro de desleixo em relação ao nosso Patrimônio Faunístico, que a maioria dos brasileiros não sabe, mas é a maior diversidade de animais do planeta, está feio e precisa melhorar muito.

A situação de desconhecimento dos brasileiros em relação a quantidade de espécies de animais aqui encontrados é ultrajante e tem me incomodado bastante. Não dá para admitir, que em pleno século XXI ainda tenha brasileiro achando que precisa ir para qualquer outro lugar para observar animais, se aqui no Brasil tem o maior conjunto de animais da Terra.

Fico particularmente aborrecido, quando vejo vários estudantes de um Curso de Graduação em Biologia, aqui no Vale do Paraíba, que não sabem, por exemplo, o que é ou quem é o “Muriqui” (Brachyteles arachnoides), sendo esse animal o maior macaco das Américas. Uma espécie de Primata que pode alcançar mais de 1,20 metros de altura e que é exclusivo da Mata Atlântica do Leste do Brasil, ou seja, que ocorre aqui da nossa Região Vale-paraibana.

Tudo bem, que hoje se trata de uma espécie rara, bastante ameaçada de extinção e por isso mesmo muito difícil de ser encontrada, mas ainda assim, não justifica o desconhecimento total de um animal de grande porte, conspícuo, da mesma ordem de mamíferos que a nossa e por isso mesmo de notória importância.

Aliás, quero crer que deveríamos exatamente aproveitar a raridade e a importância dessa espécie para fazer a sua propaganda e a sua divulgação popular, a fim de que as pessoas pudessem efetivamente conhecê-la melhor e assim trabalhar na sua preservação. Até, porque a principal causa da quase extinção da mesma, além da degradação e diminuição quase total do seu habitat natural, foi ter servido exaustivamente de caça para ser utilizado como alimento aos humanos no passado. Isto é, nós humanos somos realmente os principais responsáveis pela quase extinção dessa magnífica espécie animal, porque destruímos o seu habitat, caçamos os indivíduos significativamente e nos alimentamos diretamente dela. Alguma coisa está efetivamente muito errada e precisa ser corrigida urgentemente.

A fala não condiz com a ação, pois estamos falando tanto em Educação Ambiental, em Sustentabilidade, em Preservação da Natureza e da Biodiversidade, em Proteção da Fauna, mas o que estamos fazendo de fato sobre essas questões não passa nada perto da realidade que estamos vivendo. Afinal de contas, qual o nosso verdadeiro compromisso com o Patrimônio Natural da “Terra Brasilis” em geral e com a fauna brasileira em particular?

Referência Bibliográfica

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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04 fev 2013

A docência, a discência e a indecência

Enquanto alguns professores (docentes) e alunos (discentes) trabalham e lutam arduamente para tentar garantir escolas boas e ensino de qualidade, formando alunos dentro dos padrões esperados pela sociedade, de acordo com a decência, com a moralidade e com a ética das instituições escolares, visando a melhoria da qualidade das pessoas e garantindo um futuro próspero para o Brasil. Por outro lado, alguns professores e alunos fazem exatamente ao contrário e somam com o governo brasileiro nesse descalabro indecente que emperra no cenário educacional do país.

O Governo Brasileiro garante que está tudo bem, pois estamos melhorando nossos índices na área da Educação. Eu queria entender que índices são esses que terminantemente não condizem com a realidade daquilo que se observa diretamente nas escolas. Aliás, está precisando que os membros do governo visitem mais às escolas para conhecer as suas respectivas realidades.

Considerando que aceitem o meu convite, certamente ao visitarem as escolas, será possível identificar: administração inoperante; professores ausente; alunos ausentes; aprovação compulsória; desinteresse pela escola e pelo aprendizado; desrespeito quase total às pessoas, mormente aos professores; analfabetismo funcional até o nono ano do ensino fundamental; excesso de evasão escolar, tanto de alunos, quanto de professores; perda da autoridade dos professores, violência contra os professores, abusos e desmandos por parte de alunos e seus responsáveis; péssimas condições de infraestrutura funcional das escolas; instituições de ensino superior totalmente ineficientes e incapazes; salários vexatórios e vergonhosos em todos os níveis de ensino, tanto para os professores quanto para todo pessoal que atua na educação.

Enfim, o quadro é cada vez mais tétrico, desagradável e desanimador, mas os governos insistem em tentar demonstrar outra realidade, ainda que fictícia e mentirosa, contrariando, além dos números e os dados internacionais, a realidade visual explícita. Até quando vamos permitir esse absurdo e vamos continuar “brincando de faz de contas” com a educação brasileira?

Nesse 15 de outubro quero parabenizar aos professores de fato e de direito, aqueles que acreditam e que fazem efetivamente da educação uma maneira de tentar crescer os seres humanos e de tentar fazer com que transformem a realidade a sua volta, levando progresso moral e intelectual a sua comunidade próxima, bem como toda a sociedade. Aqueles que entendem, sobretudo, aquele velho chavão que diz clara e objetivamente que: “sem educação não há solução”. Aos demais professores que infelizmente nada fazem em prol da educação e que só enriquecem as estatísticas furadas do governo, espero sinceramente que possam refletir bastante sobre o têm feito ou sobre o que não têm feito, em prol da educação.

É claro que, além dos governos e dos maus professores, também há grande parte da culpa na irresponsabilidade dos pais e no desinteresse dos alunos, porém o professor é o agente principal e cumpre a ele, antes dos demais, se manifestar em prol de uma educação de qualidade. Aliás, cabe ressaltar que cumpre ao professor, como profissional, principalmente a obrigação de exercer o seu trabalho com esmero, seriedade e competência. Lutar por uma educação de qualidade é trabalho de todos, mas é função primária e fundamental do professor.

Quanto aos alunos, quero dizer que aqueles que sabem que a educação é para eles e que fazem bom uso da educação que recebem, devo também parabeniza-los, porque são eles que justificam o trabalho dos bons professores e da verdadeira docência. Aos demais alunos, quero pedir para que caiam no mundo real e que entendam que somente com educação poderão ser indivíduos livres e capazes de crescer como pessoas melhores.

A educação é a única maneira de mudar a realidade e somente com a decência nas instituições de ensino, tanto nos governos, quanto na docência e na discência, será possível obter uma educação de verdade. Em suma, quero dizer que é necessário acabar com a indecência que impera na educação brasileira, a começar pelos números inverídicos e propagandas falaciosas divulgados pelo governo, para que se possa estabelecer uma educação profícua no Brasil.

Acabamos de passar por mais um ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e o resultado novamente foi pífio e frustrante, tanto dos universitários como consequentemente das instituições de ensino superior do país. No Programme for International Student Assessment – PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), também recém ocorrido, que avaliou alunos na faixa dos 15 anos de idade, ficamos em 53° lugar, entre os 65 países avaliados, bem atrás de Uruguai, México, Chile e Argentina, só par citar os latinos.

Caramba! Se não bastasse esses números assustadores, ainda temos coisa pior. Somos um país com a quinta população, a sexta economia do planeta e a nossa principal Universidade não está nem entre as 220 primeiras do mundo. Alguma coisa está muito errada na Educação do Brasil. Como dizia o saudoso Cazuza: que país é esse? E eu pergunto: que educação é essa?

Acredito que já passou da hora de pararmos de brincar com a educação brasileira. Pense nessas coisas, antes de escolher o seu candidato a Presidente e a Governador, já que daqui a exatamente um ano, em outubro de 2014, estaremos elegendo novos dirigentes Nacionais e Estaduais. A indecência na educação precisa acabar ou quem acabará será o Brasil.

Por enquanto, parabéns a todos aqueles que também lutam pela educação de verdade que o Brasil merece e, em especial, Feliz dia 15 de outubro para os verdadeiros professores desse país, que embora lindo e rico, até aqui tem carecido de bons administradores, ou pelo menos de administradores efetivamente envolvidos em mudar a cara do Brasil.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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