04 jan 2017

As Relações Antrópicas com os Animais Domésticos e Silvestres

Resumo: Nesse artigo é basicamente feita uma abordagem genérica sobre as interações entre os animais criados por humanos (“pets”) e suas respectivas relações com esses seres humanos e o ambiente antrópico. Além disso são discutidas os diferentes significados que os animais domésticos e silvestres tem para os seres humanos, como se dão esse significados na prática cotidiana e ainda a necessidade de conhecimento da população humana em geral sobre as espécies silvestres brasileiras e sobre legislação referente à criação de “pets”.


As Relações Antrópicas com os Animais Domésticos e Silvestres

INTRODUÇÃO

Não sei bem porque, mas vou me atrever a colocar a mão no fogo e muito provavelmente me queimarei, mas não resisto a possibilidade de discutir um pouco sobre a questão proposta no título desse artigo.  Para começar, devo dizer que sou Biólogo, com Especialização, Mestrado e créditos de Doutorado em Biologia Animal e durante os últimos 40 anos, tudo o que fiz foi tentar estudar e compreender um pouco mais da vida dos animais. Creio que isso possa permitir que eu me defina como sendo um Zoólogo, ou seja, um estudioso dos animais e principalmente me credencie a falar um pouco sobre esses magníficos modelos de organismos vivos.

Nesses mais de 40 anos fiz praticamente de tudo que é possível fazer com animais, particularmente com os Moluscos (minha especialidade). Eu estudei, coletei, criei, cuidei, fotografei, matei, fixei, colecionei, comprei, vendi, troquei, ornamentei, presentei e devolvi à natureza. Enfim, fiz um pouco de tudo com os animais, principalmente os Moluscos, que sempre me interessaram e têm sido parte integrante de minha vida desde de menino, mesmo quando ainda não os conhecia e nem entendia muito bem, eu já era atraído pela beleza desses organismos e colecionava suas conchas.  Certamente foi por conta desse meu grande interesse e admiração pelos animais que me tornei Zoólogo e Malacólogo (especialista em Moluscos).

Pois então, foi a partir dessa minha vivência comum com os animais, que pude desenvolver uma espécie de compromisso primário, um princípio básico, através do qual sempre procurei ampliar os conhecimentos adquiridos com os animais e assim pude estabelecer muitos parâmetros comportamentais e até mesmo algumas orientações práticas que, em certo sentido e de alguma maneira, nortearam a minha maneira de viver. Acredito que eu tenha aprendido bastante em consequência dessa minha relação pessoal com os animais e que isso me permite emitir algumas opiniões sobre a relação homem X animal.

Dentro de minha visão naturalística desenvolvi um princípio básico e norteador de todo o meu procedimento como Zoólogo e como ser humano. Esse princípio determinante me informa o seguinte: “nenhum lugar é melhor para qualquer animal do que o ambiente onde ele é naturalmente encontrado”, ou seja, o animal deve viver livre na natureza. Entretanto, mesmo eu, muitas vezes tive que contrariar essa forma de pensar, até mesmo para poder estudar os animais e assim, certamente prejudiquei a vida de muitos animais ao longo de minha vida. Como ser humano, em parte me arrependo, porém como estudioso em parte não me arrependo, porque quase todo o conhecimento biológico que adquiri e que sempre procurei passar aos meus alunos foi conseguido a partir das experiências que tive no trato direto com os animais.

É certo que nem todos os seres humanos são zoólogos e nem têm uma relação tão próxima dos animais assim como eu fui capaz de ter. Entretanto, certamente, qualquer ser humano teve contatos e desenvolveu inúmeras experiências de convívio com animais, nos mais diversos e diferentes níveis de relações. Pois então, é exatamente sobre isso que quero discutir um pouco, considerando sobretudo que as relações dos seres humanos com os animais, na grande maioria das vezes, embora nem sempre, envolvem contatos com animais domesticados, isto é, modificados ao longo do tempo em consequência da própria atividade antrópica.

Quer dizer, o cidadão comum tem contato principalmente com os animais domésticos, ou seja, exatamente aqueles animais que são carregados de grande ligação com os humanos desde os primórdios do processo de domesticação. Por isso mesmo, talvez esses organismos não sejam bons modelos dos comportamentos animais mais primitivos, haja vista que os animais domésticos sofreram inúmeras modificações, através de seleção artificial, para que desenvolvessem atitudes e comportamentos que interessassem prioritariamente aos seres humanos.

Infelizmente, as ligações dos cidadãos comuns com os animais silvestres, embora obviamente existam, são pequenas, pouco expressivas e geralmente traduzem significados humanizados e conotações antrópicas, as quais não são verdadeiras do ponto de vista estritamente natural. As relações dos humanos com os animais silvestres são carregadas de sentimentos e se enquadram em situações contingenciais, ou circunstanciais, ou culturais, ou mesmo míticas relacionadas ao perigo, ao medo, ao nojo (asco), à inutilidade, à insignificância e, principalmente à indiferença.

Os animais silvestres são vistos pela maioria dos humanos como “coisas”, sem grande valor ou qualquer significado, que estão por aí, ou como seres inoportunos que existem no planeta e que muitas vezes apenas atrapalham à vida e certos interesses da humanidade.  Algumas vezes essas “coisas” são belas, em outras são horrendas. Em alguns momentos eles são interessantes e atraentes, mas em outros passam a ser extremamente desagradáveis, mas, na maioria das vezes são apenas “coisas” indiferentes. Enfim, os animais silvestres e os seres humanos comuns costumam ter apenas uma relação momentânea e superficial, onde o ser humano, de alguma maneira, tende a “coisificar” o animal, dentro de uma visão humana particular e naturalmente irreal.

Insisto em afirmar que o que estou dizendo não é uma verdade absoluta, entretanto, tenho certeza que é uma regra geral bastante bem estabelecida e que cada vez mais toma lugar no inconsciente coletivo da humanidade, haja vista que a humanidade se socializa e se “hominifica” progressivamente se afastando da natureza e das demais espécies vivas. Sendo assim, acredito que os animais silvestres, apesar de todos os apelos ecológicos atuais, estão cada vez mais distantes da grande maioria das populações humanas, porque os seres humanos estão se socializando mais, se naturalizando menos e se preocupando cada vez menos com aquilo que não é, ou que não tem interesse estritamente humano.

Desta maneira, não é possível, antropicamente, que se queira tratar um “cachorro” (Canis familiaris) ou um “gato” (Felis catus), que habitam quase que exclusivamente a casa do ser humano, da mesma forma que se trata uma “ariranha” (Pteronura brasilensis), ou que se trata uma “cascavel” (Crotalus durissus), ou ainda uma “mosca-da- fruta” (Drosophila melanogaster), que vivem prioritariamente em ambientes e condições naturais.  A verdade é que, por conta dessa proximidade maior, os animais domésticos acabam tendo um significado sentimental mais seguro, mais confiável e mais verdadeiro para a maioria dos seres humanos do que os animais silvestres. Porém, atualmente, mesmo os animais domésticos já não estão obtendo tanto prestígio com já conseguiram em outras épocas, porque infelizmente a maioria dos seres humanos está cada vez mais centrada e ligada nos seus interesses individuais primários.

Em suma, como regra geral, é possível afirmar que existe uma preferência dos seres humanos pelos animais domésticos em relação aos animais silvestres. Mas, o problema maior é que essa preferência muitas vezes chega ao ponto crítico de criar valores antrópicos para os animais, além de querer manifestar e até mesmo de traduzir respostas antrópicas às diferentes ações produzidas, mormente no que se refere aos animais domésticos. Obviamente isso é um grande equívoco, tanto para o ser humano, quanto para o animal, mas muitos humanos já não percebem mais esse erro e assim todo tipo de anomalia comportamental é possível, tanto nos animais domésticos em si, quanto na expectativa humana em relação às ações produzidas pelos próprios animais domésticos.

Por outro lado, para os seres humanos, os animais silvestres parecem nem ser animais reais, como disse antes, são apenas “coisas vivas”, e por isso mesmo ainda são considerados por muito humanos, como sendo animais menos importantes, porque eles são limitados aos seus comportamentos naturais, os quais devem estar previamente definidos por um livro, por uma história ou por alguém. No pensamento da maioria dos seres humanos, tudo que se pode saber sobre um animal silvestre qualquer já foi dito, já está descrito e assim não há nada de interessante nesse tipo de animal. Desta maneira, não parece haver nenhuma condição interessante, brilhante ou inusitada que possa justificar a preocupação dos seres humanos com os animais silvestres. Efetivamente, existe uma distância imensa entre a realidade natural dos animais silvestres e pensamento da maioria dos seres humanos sobre esses animais e esse distanciamento necessita ser reduzido para o bem do homem, dos animais e do planeta como um todo.

Baseado nesses argumentos iniciais, tenho a suspeição de que algumas das sociedades humanas, em determinado momento, além de tratar os animais domésticos indevidamente como se fossem seres humanos, também acabam por repudiar (preterir) os animais silvestres como organismos menos importantes (nobres). Esse fato é, no mínimo, injusto, triste e infeliz, porque manifesta claramente a ignorância humana sobre a natureza, particularmente sobre a grandeza e a importância do reino animal. Entretanto, essa condição triste da ligação humana com os animais silvestres acaba sendo muito pior e em consequência desse fato, a ligação com os animais domésticos também tende a piorar, porque ao super estimar os animais domésticos, os seres humanos passam a esperar e traduzir situações e atitudes que efetivamente não são verídicas e forçam os animais domésticos a assumirem práticas totalmente contrárias as suas devidas condições animais. Obviamente, isso até pode ser agradável para esses tipos de seres humanos, mas certamente é muito ruim para os animais.

Na verdade, não existe má intenção do ser humano, o que existe é falta de conhecimento, má informação e, sobretudo, uma expectativa irreal de que o animal seja sempre capaz de fazer aquilo que o humano pensa que ele deve fazer numa visão estritamente antrópica. O ser humano acaba por atribuir conceitos e argumentos humanos as atitudes comportamentais dos animais e muitas vezes até exige que o animal desenvolva uma postura humana inesperada. Ora, isso é ilógico e naturalmente não pode acontecer naturalmente e se acontece é por conta de imposição do ser humano. Mas, o ser humano, quer entender que essa ação anômala do animal seja um resultado do interesse particular do humano, o que se constitui numa tendência violenta e fraudulenta.

Ação violenta porque agride o animal e fraudulenta porque muitas vezes o animal acaba satisfazendo o interesse do ser humano, o qual passa a acreditar naquela atitude como algo efetivamente verdadeiro e real. Infeliz e lamentavelmente essa situação ilógica e ilusória faz desacreditar no intelecto do ser humano que ainda pensa assim. Isto é, naquele ser humano que acha que o animal é consciente e faz alguma coisa apenas para lhe agradar. Ou seja, aquele ser humano que atribui conotação humana ao animal.

Um ser humano coerente, deve, antes de qualquer circunstância, entender que um animal, seja ele qual for, é um animal diferente do animal humano e principalmente tem que saber que querer tratar qualquer animal como um ser humano (humanizar ou antropomorfizar o animal) não é uma atitude correta, porque certamente isso não é bom para o animal. Apenas os seres humanos egoístas, prepotentes ou intelectualmente debilitados podem pensar que os animais (domésticos ou silvestres) estão no mundo para servir aos interesses humanos e que assim, devem “pensar” e “agir” como seres humanos. Considerar posturas e atitudes antrópicas nos animais é um grande e grave erro que os humanos possuidores de animais domésticos necessitam compreender e obviamente evitar.

DISCUTINDO A QUESTÃO MAIS DETALHADAMENTE

Antes do processo de domesticação, que parece ter começado a acontecer por volta de 12 mil anos atrás, todos os animais eram silvestres, inclusive os próprios grupos humanos, em certo sentido. A possibilidade de domesticação e o envolvimento de algumas espécies animais nesse processo trouxe novas possibilidades para a espécie humana, em consequência da apropriação e utilização desses animais no interesse estritamente antrópico. Algumas espécies se mostraram mais amistosas e mais facilmente foram domesticadas, outras nem tanto e outras ainda não se deixaram domesticar. Aquelas que foram domesticadas, progressivamente foram sendo modificadas geneticamente e cada vez mais têm servido aos interesses humanos. Entretanto, é bom que se diga que essas espécies domesticadas não deixaram de ser espécies animais e nem são menos animais que as espécies silvestres. As espécies domésticas apenas se adaptaram a conviver mais proximamente dos seres humanos.

É importante que se entenda que esses animais não são humanos e nem vivem com o homem porque deliberadamente querem e por isso mesmo eles não devem ser tratados como se fossem humanos ou coisas próximas dos humanos. Ao contrário, os animais precisam ser tratados e considerados como animais naturais que são, obviamente com o devido respeito e cuidado, mas sem antropomorfismos acentuados. Aqui cabe ressaltar que até mesmo certos modelos de adestramento são maléficos aos animais, porque criam situações inverídicas para as atitudes dos animais e que muitos seres humanos passam a tentar imitar e também produzir nos animais de suas respectivas “propriedades”. O desgaste e o estresse causado nesses animais por conta disso é extremamente grande, mas a maioria dos seres humanos não percebe e, como já foi dito, talvez nem seja por maldade. Ao contrário, muitos acreditam que estão fazendo da maneira certa.

Na verdade, a espécie humana, por falta de conhecimento e pelo mal sociológico de se achar “dona do planeta” e “responsável” por todas as demais espécies sobre a superfície da Terra, comete uma apropriação indevida da vida daquele animal, que é um organismo vivo planetário e que deveria ser livre. Além disso, o ser humano ainda se sente no direito de exigir que a espécie animal em questão faça exatamente aquilo que o humano deseja que seja feito. Ora, isso, além de ser antinatural, também é ilógico, porque existem limites físicos e principalmente biológicos, que condicionam as ações das diferentes espécies e muitas vezes as incapacitam de realizar determinadas tarefas. Mas, a maioria dos seres humanos não consegue nem dimensionar, quanto menos compreender essa realidade.

Muitos dos seres humanos não entendem ou não querem entender e não dão o direito desses animais serem da maneira como são, simplesmente porque esses seres humanos não querem e porque eles acham que os animais são “propriedades” suas e têm que atender à vontade humana integralmente. Assim, por exemplo: se o sujeito usa perfume o seu “porco” (Sus domesticus) deve usar perfume, se o sujeito come “alface” o seu “cachorro” (Canis familiaris) deve comer alface; se o sujeito bebe cerveja o seu “gato” (Felis catus) deve beber cerveja; se o sujeito usa roupas o seu “coelho” (Oryctolagus cuniculus) deve usar roupas também, se o sujeito usa sapatos o seu “cavalo” (Equus caballus) deve usar e várias outras situações absurdas semelhantes.

Ora, isso é uma grande incoerência, mas lamentavelmente muitos dos “proprietários” de animais pensam e agem dessa maneira. O “dono” do “pet” pensa (entende) que age corretamente e ainda afirma que faz essas coisas absurdas porque ele “ama” o seu “pet”. Entretanto, se ele amasse mesmo o seu animal, obviamente deveria pensar e agir de maneira totalmente diferente. Ser “dono” de um “pet” é muito mais do que apenas ser “proprietário” de um animal. Não basta dizer que “ama”, é preciso saber cuidar devidamente do animal que se diz amar. É preciso se colocar no lugar do animal, mas com o olhar do animal e não com o olhar estritamente humano.

Outra situação mais desagradável ainda é que se, por acaso, o animal reage positivamente aquela situação pensada e imposta por seu “dono”, infelizmente é aí que o animal acaba sofrendo mais ainda, porque o “dono” passa a querer mostrar essa “qualidade diferente” de seu “pet” para todos os demais humanos que conhece. Como o ser humano, acha que a “qualidade diferente” é interessante ou engraçada, ele pensa que o seu “pet” e que outro ser humano também deverão pensar da mesma forma. Entretanto, na maioria das vezes, essa atitude é estressante, muito desagradável e até dolorosa para o animal em determinados casos.

E, volto a dizer, o ser humano em questão não vê maldade nas atitudes que promove, porque o animal “pertence” a ele e, além disso, ainda diz que o animal “gosta” de mostrar aquela “qualidade diferente”. Por favor, me desculpem pelo excesso de aspas, mas penso que elas sejam efetivamente necessárias. Além disso, é muito difícil de admitir que qualquer organismo vivo possa ser considerado como propriedade particular de alguém e ainda que qualquer animal possa manifestar deliberadamente atributos antrópicos. Essas situações são muito complicadas de serem assumidas e muito difíceis de serem entendidas por pessoas que se dedicam a estudar a Biologia. Não há dúvida de que nós, os seres humanos, somos biologicamente organismos animais, porém isso não nos permite acreditar que, em contrapartida, alguns animais também possam ser “humanificados” e partir disso criar situações estereotipadas que queiram justificar essa maneira errônea de pensar.

O QUE PODE E DEVE SER FEITO

(ANIMAIS DOMÉSTICOS)

Depois de ler até aqui o leitor sério, preocupado com os animais e que tem o seu “pet” deve estar achando que eu devo ser contra a possibilidade de qualquer ser humano conviver com um animal qualquer de estimação. Não, com certeza não é nada disso. A domesticação já aconteceu e muitos dos animais domésticos estão aí para serem companheiros dos seres humanos. Conviver com um animal de estimação é muito importante para alguns seres humanos (crianças em particular), por vários motivos, mas deve ser destacado aqui o fato de que a convivência com o “pet” é fundamental para que os seres humanos se mantenham ligados às suas raízes naturais. A presença de um “pet” é sobremaneira um ótimo negócio pessoal, social e natural para qualquer ser humano. Porém, é preciso que se entenda que o animal é um animal e que, como tal, deve ter respeitada a sua condição animal.

A relação ser humano X “pet” deve se estabelecer de maneira amigável e não autoritária. O animal deve ter seu espaço e deve viver sua vida da maneira mais natural possível, para que possa se sentir como se estivesse na natureza. A casa do homem por melhor que seja, nunca será um ótimo espaço para o animal, que deveria estar livre. A casa do homem é algo pensado e desenvolvido para o homem e não serve para a maioria dos animais. Não é porque o homem pensa que alguma situação seja boa, que o animal vai se sentir bem naquela mesma situação.

A verdade é que, aquilo que costuma ser bom para a espécie humana, na maioria das vezes não se apresenta como bom para outras espécies animais, mesmo para muitos dos animais domésticos. Desta maneira, é fundamental que o “pet” seja tratado pelos interesses dele e não pelos interesses do “proprietário” e essa é uma equação bastante difícil de ser compreendida e aplicada pelos humanos, porque há necessidade de que sejam estabelecidas regras e os animais, sendo seres livres, não deveriam estar sujeitos a nenhuma regra. Alguns animais são inclusive perigosos e podem atacar e morder aos seres humanos e isso é um complicador a mais a ser considerado, mas não será discutido aqui.

Por exemplo, se você relaciona-se com um cão, defina um espaço para o cão no quintal e não dentro da sua casa ou do seu apartamento. Aliás, me desculpem, mais é um absurdo e uma judiação criar cães em ambientes fechados. Coitados desses cães. Quem ama não prende. O amor não pode ser egoísta e dirigir a relação do jeito que somente uma das partes exige. Quem ama tem que dar condições de viver melhor. Um cachorro num apartamento é uma grande maldade com o cachorro, por mais que se pense estar tratando bem, está se tirando o que ele mais precisa que é o espaço e a sua liberdade. Tenho certeza que se fosse possível perguntar ao cão em que lugar da sua casa ele preferiria ficar, certamente a resposta seria o quintal. Então, me desculpem, mais uma vez, mas se sua casa não tem quintal, então você não deve “possuir” um cachorro. Mas, se você “possui” um cachorro no seu apartamento, tenha a consciência de que você está fazendo um mal negócio para o seu cachorro.

A alimentação de animais é alimentação de animais e não costuma ser a mesma dos humanos, embora obviamente possa haver situações compatíveis. Eu estou cansado de ouvir a seguinte frase: “na minha casa o meu “pet” (qualquer que seja o “pet”) come o que eu comer”. Isso costuma ser uma verdade, porque até por questões biológicas, o animal não vai morrer de fome e nem vai comer exageradamente, mas hoje é relativamente comum “pet obeso” ou “pet subnutrido” em consequência do que come no local onde vive. Hoje, por exemplo, cachorro chupa sorvete e bala, gato come fruta e bebe refrigerante. Depois esses animais têm problemas de dentição ou de má digestão e os seus “donos” fazem isso por “amor”. Alguma coisa está errada nessa maneira de amar.

O abrigo é outra questão fundamental. O animal deve estar bem abrigado sim, mas ele sabe como se abrigar da melhor maneira possível e não há necessidade de encher o “pet’ de roupas ou cobertores e principalmente, de colocá-lo para dormir na cama junto do humano. Ah! Mas ele gosta disso. Não, não, não. Isso não é verdade. O “dono” do animal é quem gosta e por gostar acredita que o “pet” também goste. O “pet” aprendeu, porque alguém ensinou, que ali é um lugar bom e se o “dono” deixar ele vai ficando, mas certamente esse não é o melhor lugar para ele. Por outro lado, convenhamos que tampouco é o melhor lugar para o “dono” também, por mais que possa parecer. O animal, seja ele qual for, vai sempre se sentir melhor se for respeitada a sua condição primária de animal, independentemente de qualquer “boa intenção” do seu “dono”. Sua liberdade, certamente é seu interesse maior, mas essa condição, nem sempre o “dono” quer ou pode dar.

O QUE PODE E DEVE SER FEITO

(ANIMAIS SILVESTRES)

No que se refere aos animais silvestres, obviamente que não existe nenhuma possibilidade legal de que o relacionamento com os seres humanos possa ser ampliado, haja vista que a legislação proíbe a posse e o comércio desses animais silvestres por parte de qualquer ser humano, salvo em casos especiais e ainda sob as mais severas normas de exigências no controle dos animais. Quer dizer, os animais silvestres efetivamente só podem ser vistos e mantidos na natureza, onde, aliás é o lugar devido para eles e de onde eles nunca deveriam sair, como já foi dito no início desse artigo.

 Entretanto quero aqui fazer uma ressalva importante, porque acredito muito na frase que diz: “ninguém ama aquilo que não conhece”. Nesse sentido, confesso que tenho muita preocupação, porque entendo que existe uma grande necessidade de que o cidadão comum conheça mais as nossas espécies nativas, inclusive para auxiliar nos trabalhos referentes à proteção desses animais e conheça também as leis de proteção à fauna. É sabido que o tráfico de animais silvestres é a terceira maior fonte de tráfico ilegal no planeta, perdendo apenas para drogas e armas. O Brasil sendo o país de maior biodiversidade da Terra é um dos mais afetados pelo tráfico de animais e a população muitas vezes se envolve e até protege criminosos por puro desconhecimento.

Aqui no Brasil, cada vez mais se conhece menos daquilo que é nativo, principalmente no que tange aos animais silvestres, onde parece haver um total desinteresse de que haja conhecimento. Tenho feito pesquisas de informação com relação a essa questão e reafirmo que o número de pessoas que reconhece as espécies nativas, que se identifica com os problemas relacionados ao tráfico de animais e que efetivamente se preocupa com a situação de ameaça à fauna nativa brasileira é progressivamente menor. O tempo vai passando e os animais brasileiros vão ficando menos conhecidos das populações e tristemente parece mesmo que existe uma orientação velada nessa direção para defender interesses menos nobres, porque claramente se discute menos sobre essa questão. Hoje, apenas os ambientalistas e cientistas ligados ao problema comentam sobre esse assunto. Mas, esse tema será discutido em outra oportunidade.

A grande maioria da população, principalmente dos jovens, o que é pior ainda, não reconhece quase nada das espécies naturais brasileiras, nem da localidade onde vivem. Os valores naturais estão sendo rapidamente abandonados e os animais silvestres são os mais esquecidos. As escolas e os diferentes centros culturais não têm conseguido suprir essa carência coletiva de interesse sobre a fauna e a desinformação nessa área só aumenta. Essa é, sobretudo, uma situação perigosa, porque cada vez mais se criam animais domésticos e se importa e se introduz animais silvestres de outros países para mantê-los também como “pet” e se deixa de lado o conhecimento sobre a nossa fauna nativa.

Quero crer que hoje exista uma necessidade premente de organizar mecanismos que possam começar a promover o conhecimento de nossa fauna para os nossos seres humanos, antes que a gente acabe por destruir drasticamente o que temos. Somos o país de maior biodiversidade planetária e os nossos animais são desconhecidos pela maioria dos brasileiros. Isso é um grande contrassenso que precisa ser mudado urgentemente. Falar, escrever, promover e informar sobre a fauna brasileira é uma obrigação que precisa se estabelecer no cenário cotidiano da mídia no país.

Existe um pequeníssimo número de espécies silvestres que são ícones e quase todos, de alguma maneira, já ouviram falar, mas ainda assim, nem sempre identificam o nome que ouvem com o animal quando observam. Por exemplo, infelizmente, eu já vi “sagui” (Callithrix sp.) pintado de amarelo, passar por “mico-leão-dourado” (Leontopithecus rosalia). No entanto, a grande maioria é totalmente desconhecida das populações humanas, particularmente nos locais onde elas se encontram. Se você não acredita em mim, pergunte a qualquer jovem (rapaz ou moça), se eles conhecem um “tapiti” (Sylvilagus brasiliensis), ou um “gato-maracajá” (Leopardus wiedii), ou uma “cuíca” (Philander opossum), ou ainda um “furão-pequeno” (Galictis cuja), que são espécies de mamíferos ainda comuns aqui da Mata Atlântica. Tenho certeza que mais de 85% dos entrevistados dirá que não conhece nenhum desses animais.

Enfim, os animais silvestres necessitam ser conhecidos para que possam ser amados e protegidos. Embora, como já foi dito, existam algumas leis para proteger as espécies animais da fauna brasileira, na verdade como as populações infelizmente entendem sociologicamente que animal, embora diferente na forma, é tudo igual no tratamento, pouco acaba sendo feito no que se refere à proteção desses animais pelo cidadão comum. Por outro lado, como a maioria também não sabe (não identifica) as espécies nativas, acabam agindo como se as diferentes espécies animais fossem um coisa só. Desta maneira, as espécies nativas são dizimadas e mortas rapidamente, pelas mais diversas maneiras e as espécies exóticas, cujo comércio é permitido e que entram livremente no país, são criadas, mantidas e favorecidas.

Muitas dessas espécies exóticas que são comercializadas livremente acabaram por se tornar “pets” e estão se multiplicando nas casas dos seres humanos, como acontece com algumas aves, mamíferos e particularmente répteis (cobras e lagartos principalmente). Muitos desses animais acabam fugindo ou são soltos por seus proprietários pelos mais diversos motivos. Assim, vão invadindo os ambientes naturais e ocasionalmente reproduzindo e multiplicando suas populações, que como não têm inimigos naturais crescem rapidamente e passam a competir com as espécies nativas. O crescimento dessas populações de espécies exóticas tem sido um dos maiores problemas no que se refere principalmente a diminuição das populações das espécies nativas brasileiras.

Só para dar dois exemplos, veja os casos do “caramujo-africano” (Achatina fulica), que foi introduzido e tornou-se praga no país, desde o final da década de 1980 e os nossos caramujos do Gênero Megalobulimus praticamente desapareceram. O “javali” (Sus scrofa), que foi introduzido no Brasil, no estado do Rio Grande do Sul, na década de 1960, e por lá se manteve relativamente controlado, até a década de 1990, quando fugiu do controle e hoje já existe registro desta espécie em pelo menos 14 estados brasileiros. Em compensação as populações de nossas espécies nativas de porco-do-mato, o queixada (Tayassu pecari) e o caititu (Pecari tajacu) têm diminuído acentuadamente e certamente muitos brasileiros nem sabem que aqui existem essas duas espécies de porcos nativas. A coisa ficou bem pior, porque o javali é capaz de formar um híbrido (popularmente conhecido como “javaporco”) com os “queixadas” e isso tem ampliado bastante o problema.

Em suma, os animais silvestres brasileiros necessitam de ajuda e só nós, seres humanos brasileiros, podemos fornecer essa ajuda. Para tanto há necessidade de conhecer melhor as espécies da nossa fauna. Desta maneira torna-se fundamental que sejam desenvolvidos programas de orientação as populações humanas sobre as espécies animais nativas nas diferentes regiões brasileiras. Obviamente a proibição de criação desses animais silvestres em cativeiro deve ter continuidade, pois os animais silvestres precisam ser mantidos na natureza, a fim de garantir os bancos genéticos e o equilíbrio dos ecossistemas naturais.

CONCLUSÕES

1 – As Relações Homem X Animais são benéficas aos humanos e devem ser intensivadas, entretanto devem ser tomados alguns cuidados fundamentais, haja vista que tais relações têm sempre que priorizar os interesses primários e as necessidades dos animais e não os interesses dos humanos.

2 – Os Animais que podem conviver livremente com os seres humanos nos ambientes antrópicos são única e exclusivamente os Animais Domésticos, os popularmente chamados de “pets”, cujas as espécies já se encontram bastante antropomorfizadas, pois vêm sendo trabalhadas ao longo do processo de domesticação.

3 – Os Animais Domésticos (“pets”) não podem ser tratados como se fossem seres humanos e devem ser respeitados nas suas respectivas condições de animais, principalmente pelo seu “dono”, o qual precisa conhecer um pouco mais da realidade biológica do seu animal de estimação, a fim de poder trata-lo da maneira mais natural possível.

4 – Os Animais Silvestres não devem e nem podem em hipótese nenhuma ser mantidos em habitação humana na condição de “pets”, pois além de ser degradante aos ecossistemas naturais, também constituem uma agressão a vida animal, que está prevista em lei como sendo um crime ambiental. Assim essas espécies silvestres devem continuar protegidas, mantidas nos ambientes naturais e, dentro do possível, isoladas do convívio direto com os seres humanos.

5 – Embora a Legislação Brasileira permita, não é interessante que as Espécies Exóticas de Animais sejam criadas e mantidas em ambientes antrópicos, pois essas espécies animais oferecem riscos às populações de Espécies Nativas e podem produzir problemas graves e até insolúveis. Desta maneira é interessante que se desenvolvam mecanismos que dificultem ou mesmo proíbam a importação e o comércio dessas espécies de animais.

6 – As Espécies Exóticas de Animais que, por ventura, sejam criadas em ambientes antrópicos, devem ser mantidas controladas e impedidas de contato com os ambientes naturais para garantir que não se integrem aos ecossistemas e entrem em qualquer tipo de competição com as Espécies Nativas. Os “proprietários” devem ser severamente penalizados pela fuga desses animais para os ambientes naturais.

7 – Os Governos em todas as três esferas do Poder devem desenvolver e promover programas de orientação e identificação das diferentes Espécies Nativas, mormente daquelas que se encontram em situação de raridade ou ameaçadas de extinção, para que as populações humanas possam reconhecer os animais brasileiros e assim parar de matar esses animais deliberadamente.

8 – As Escolas em todos os níveis de ensino devem desenvolver e promover programas de orientação e identificação das diferentes Espécies Nativas e Exóticas de animais mais comuns nos diferentes biomas, a fim de que os alunos possam reconhecer os animais da fauna brasileira e não façam confusão das nossas espécies com aquelas que são estranhas à nossa fauna.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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30 out 2016

Os Novos Administradores Públicos e as Cidades Sustentáveis

Resumo: O artigo atual, diz respeito a importância premente de que os novos administrados públicos eleitos sejam capazes de entender e de efetivamente querer o desenvolvimento sustentável de suas respectivas cidades. Chamo a atenção para o comportamento observado por grande parte dos eleitores nas últimas eleições, quanto a questionável qualidade dos políticos brasileiros e da necessidade urgente de novos artifícios para os políticos do futuro e sugiro que o caminho seja trabalhar progressivamente para que as cidades possam se transformar em cidades sustentáveis.


Os Novos Administradores Públicos e as Cidades Sustentáveis

Para começar, devo dizer que é impossível pensar em cidades sustentáveis, sem pensar em administradores públicos capazes e competentes. Infelizmente, nesse sentido, nossa região e grande parte do Brasil, ainda têm muito que aprender, pois a maioria dos municípios continua elegendo os seus representantes e líderes políticos e administrativos por conta de interesses outros que não sejam a própria administração pública. Mas, de qualquer maneira temos, obviamente melhorado muito. Nesse último pleito eleitoral, algumas de nossas cidades tiveram efetivamente um ganho bastante significativo, deixando de lado velhos políticos que pouco ou nada fizeram por elas, nem pela região onde estão inseridas e elegeram pessoas diferentes e aparentemente imbuídas do firme propósito de desenvolver e progredir.

O Vale do Paraíba é sem nenhuma dúvida uma das regiões mais desenvolvidas do país, além de ser um grande marco na história da ocupação e do desenvolvimento do Brasil. Hoje constituímos aqui uma região metropolitana, a RM Vale, numa área superior a 16 milhões de Km² (quilômetros quadrados), que engloba 39 municípios e cerca de 2.5 milhões de pessoas. Alguns desses municípios são muito pequenos (pouco desenvolvidos) e ainda estão bem fora das fortes tendências urbanas regionais, guardando paisagens bucólicas e condições tipicamente rurais. Entretanto existem outros municípios que são bem maiores e particularmente aqueles que margeiam a Rodovia Presidente Dutra, estão passando por processo intenso de urbanização e até de conurbação já bastante evidente em determinadas áreas.

Esses municípios maiores tem progressivamente apresentado novos problemas, cada vez mais ligados a questões relacionadas ao crescimento populacional das cidades e das necessidades maiores que acompanham esse crescimento. Transporte Público, Saneamento e Tratamento dos Resíduos, Geração de Postos de Trabalho e Emprego, Áreas para Loteamentos, Controle e Fiscalização de Poluição, Estabelecimento de Áreas Industriais, Segurança Pública, Centros de Comércio e Serviços Profissionais, Arborização Pública e Criação de Áreas Verdes, Limpeza Urbana, além dos tradicionais Serviços de Escolas, Hospitais e mais uma série de atividades e particularidades são algumas dessas necessidades que não param de aumentar.

Pior ainda é que, para muitos, ainda é apenas isso, que traduz aquela ideia de progresso e crescimento, mas que, na verdade, não têm demonstrado nem um pouco dessas características. Aliás, cabe lembrar que ao contrário do que muitos imaginam, quanto maiores são as cidades, maiores também são as necessidades e assim as dificuldades encontradas têm sido cada vez maiores e a qualidade de vida das populações tem progressivamente piorado, porque o aumento das necessidades sempre traz, por outro lado, novas necessidades, ligadas principalmente às questões físicas e químicas e desta maneira, diretamente relacionadas com as condições ambientais.

Por conta disso, torna-se preciso pensar a cidade de maneira integrada e efetiva, como um corpo único, porém articulado que seja capaz de se adaptar aos novos tempos e as novas necessidades, além de reagir com resiliência e eficácia para conseguir se manter, ter continuidade e se desenvolver. Por outro lado, também é necessário pensar a cidade como parte de um todo maior, destacando sua significância regional. Ou seja, é bastante importante integrar a cidade nos interesses prioritários regionais a fim de que haja possibilidade real de um desenvolvimento regional pleno.

A Sustentabilidade como conceito, certamente é única maneira que pode garantir o desenvolvimento das cidades da forma que se deseja, sem comprometimento da qualidade de vida das pessoas e sem deteriorar totalmente o ambiente. Sendo assim, os novos prefeitos e vereadores recém eleitos para a próxima legislatura deveriam ser pessoas que estivessem totalmente absorvidas pelo conceito de desenvolvimento sustentável, preocupadas e imbuídas do firme propósito de garantir uma cidade justa socialmente, equilibrada ambientalmente e eficiente economicamente.

Entretanto, nós sabemos que essa não é bem a verdade da maioria dos municípios brasileiros, pois, como já foi dito, a maioria de nós ainda escolhemos políticos e administradores por outros interesses e assim muitas cidades certamente continuarão na contramão da história. Obviamente também existem aquelas que investiram em políticos e administradores sérios e que consequentemente deverão deslanchar e melhorar muito suas respectivas condições de desenvolvimento. São essas últimas cidades, que estamos pretendendo chamar aqui de cidades sustentáveis.

As cidades sustentáveis são aquelas que deverão continuar a existir, mesmo depois de todas as tormentas sociais, ambientais e econômicas que passamos e que ainda estamos passando. Os administradores públicos dessas cidades deverão ser pessoas de visão globalizada, observando as ligações entre as questões locais, regionais, nacionais e mesmo mundiais. Além disso, eles também deverão ter conhecimento das necessidades prementes. Terão que saber fazer escolhas e principalmente desenvolver a capacidade de propor soluções simples para questões complexas e crônicas que se estabeleceram no passado e que estão por aí entravando o desenvolvimento.

Os novos dirigentes dessas cidades sustentáveis têm que estar conscientes de que são pessoas que foram eleitas para administrar as cidades para todos os moradores e mais nada além disso, pois qualquer outra maneira de pensar ou de agir levará à mesmice, que hoje significa um grande retrocesso, porque o passivo é enorme e precisa ser enfrentado, minimizado e vencido. Obviamente, os dirigentes das cidades sustentáveis têm que ser políticos diferentes da grande maioria dos políticos brasileiros que até aqui conhecemos.

As cidades sustentáveis são as cidades do futuro, mas tem que ficar claro que o futuro começa hoje. Nas cidades sustentáveis o futuro, que é atual e presente, estará sendo construído continua e ininterruptamente, para garantir a vida de quem nem nasceu ainda. A sustentabilidade prega a necessidade de garantir hoje o mundo de amanhã e de sempre e as cidades sustentáveis têm que se enquadrar nessa maneira de pensar. Os gestores das cidades sustentáveis têm que ser proativos. A pilhagem, o super poder do gestor, a venda e a degradação do patrimônio, o enriquecimento ilícito, o desajuste da sociedade e a apropriação indébita do espaço e dos bens públicos não têm mais lugar na visão do administrador público de uma cidade sustentável.

Dos nossos 39 municípios, quantos dos novos prefeitos eleitos tem a devida dimensão do que é ser um prefeito de uma cidade sustentável? Efetivamente eu não sei, mas creio que seja a minoria e isso é muito ruim para toda a região valeparaibana. A RM Vale deveria estar mais preocupada com essa questão, pois não adianta alguns bons administradores no meio de outros tantos ruins, porque a região é uma só e todos sofrem com os erros. É claro que certas questões são específicas e de interesses estritamente locais, mas a grande maioria delas é regional e uma ação errada pode prejudicar vários municípios da região e muitas vezes indo até além dos limites regionais.

Tenho dúvidas quanto a eficiência administrativa de qualquer gerente de empresa (prefeito) que não conheça bem sua empresa (cidade), seus parceiros e concorrentes (municípios vizinhos), porque certamente ele será um mal administrador e sua empresa tenderá a ruir e alguns de seus parceiros e mesmo alguns concorrentes, consequentemente também sofrerão os danos de sua má administração. A administração ruim acaba prejudicando a todos no entorno.

Está na hora de pararmos de brincar e tratar a gestão pública como algo que qualquer indivíduo pode resolver, porque hoje existe necessidade de administradores públicos sérios e compromissados com o interesse público. Aqueles que vivem de falcatruas e picaretagens estão irremediavelmente fadados ao insucesso e à vida política curta. Aliás, as últimas eleições já demonstraram esse fato, quando observamos que os costumeiramente considerados corruptos foram alijados das urnas na vontade popular. O Brasil acordou, o eleitor brasileiro começou a acordar, a sustentabilidade é palavra de ordem em todas as linhas do pensamento humano e as cidades não poderão ser diferentes dessas tendências sustentáveis.

O administrador público não pode mais ser qualquer um, ao contrário, ele tem que ser alguém devidamente bem preparado para ocupar essa função. Assim, já é possível ver a luz no fim do túnel e mais, é possível estabelecer uma linha de abrangência cada vez maior dessa luz, que certamente trará novos benefícios às comunidades municipais. O clarão que se produzirá, primeiramente nas áreas urbanas, porque essas são, por questões óbvias de interesse e de problemas, as mais difíceis de serem tratadas, trará certamente benefícios a todas as áreas dos municípios e consequentemente um futuro promissor.

Embora administrar cidades seja uma tarefa bastante difícil e complicada, se ela for realizada por pessoas capazes, com a função precípua de atender ao interesse público maior, certamente poderá se tornar uma ação simples e prazerosa. O administrador público deve se preocupar em ocupar os espaços municipais de maneira transparente e objetiva, garantindo equidade social no trato com as pessoas e produzindo condições melhores de subsistência e conforto, assim certamente não haverá dúvidas sobre o sucesso dos seus respectivos administradores também nas eleições futuras. Por outro lado, aqueles administradores que ainda têm a mente na pré-história, numa falsa noção de crescimento e não tem nenhum envolvimento com as ideias relacionadas a sustentabilidade, talvez nem consigam terminar os seus respectivos mandatos.

Se já tivemos um recorde de prefeitos que não tentaram a reeleição no último pleito eleitoral, por conta deles entenderem que está muito difícil administrar os municípios. Então, podem ter certeza que daqui para frente a coisa vai ficar muito pior, pois as dificuldades serão sempre maiores e para aqueles administradores arcaicos e retrógrados, com certeza as atuais dificuldades se transformarão em impossibilidades futuras. O Brasil efetivamente está mudando e a sustentabilidade é mais uma das coisas, talvez a mais importante delas, que está aí para fazer a diferença em prol da melhoria da qualidade de vida das pessoas e da qualidade ambiental dos municípios brasileiros.

Parabéns aos novos prefeitos eleitos, mas parabéns principalmente àqueles que pretendem fazer de seus municípios, em particular das áreas urbanas de seus municípios, locais de convivência e de vivência entre as pessoas, pois esses serão os verdadeiros precursores do novo Brasil, que se estabelece sob a égide de novos fundamentos na administração pública e que certamente serão benéficos a todos. As cidades sustentáveis, como disse no início, dependerão de prefeitos sustentáveis, isto é, prefeitos com visão ambiental, social e econômica abrangente e responsáveis para tratar essas questões como esferas iguais de um mesmo mecanismo. Daqui para frente, somente dirigentes com esse tipo de visão serão capazes de administrar os seus municípios e de conseguirem se manter no poder.

O mundo melhor que todos nós sonhamos, passa pela cidade melhor em que todos nós vivemos. Só conseguiremos um mundo melhor, se cada indivíduo humano tiver uma cidade melhor, uma cidade sustentável. As cidades sustentáveis não são apenas possíveis, elas são sobretudo necessárias à humanidade, pois somente elas poderão garantir a continuidade da espécie humana na Terra.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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14 out 2016

Dia do Professor: quem puder que comemore

Resumo: Nesse artigo, além de prestar minha homenagem pessoal a todos os professores (Dia do Professor), procuro chamar a atenção das autoridades constituídas nesse país, no intuito de tentar moralizar as escolas públicas e devolver a autoridade aos professores, porque se isso não acontecer, a educação brasileira continuará seguindo como uma das piores do mundo e o Brasil não chegará ao lugar que merece.


Dia do Professor: quem puder que comemore

Meus amigos, no final desta semana estaremos comemorando mais um dia dos professores (15/10). Foi precisamente no dia 14 de outubro de 1963, que a data de 15 de outubro ficou nacionalmente estabelecida, como sendo “O Dia Nacional do Professor”, através do Decreto Federal de Número 52.682, assinado pelo Senhor Presidente da República, João Goulart. Portanto oficialmente estaremos comemorando 53 anos da data profissional do professor no Brasil. Mas, a pergunta que fica é essa: existe efetiva e realmente o que se comemorar nessa data?

A resposta a questão anterior já é conhecida de todos e acredito que certamente exista unanimidade em afirmar que NÃO EXISTE NADA PARA COMEMORAR. Mas, obviamente isso não ocorre por culpa dos professores, mas sim pelo descaso imenso como a Educação tem sido tratada, historicamente, em nosso país. Temos sucessivamente batido recordes negativos, cada vez maiores, no que diz respeito a má qualidade da educação e do ensino. Nosso país está sempre na rabeira dos diferentes “ranckings” internacionais em Educação, ficando muito atrás de países infinitamente mais pobres. E o pior é que ainda existem muitos “entendidos” que querem colocar a culpa diretamente nos professores, como se eles pudessem ser os únicos culpados por essa situação vexatória que o Brasil se encontra no que tange a educação e o ensino.

Recentemente passamos por três situações que cabem ser brevemente discutidas e comentadas aqui, até para mostrar um pouco da triste situação em que nos encontramos e para lembrar que não há porque fazermos qualquer festa na nossa data.

A primeira dessas situações é fala de um Ministro de Estado, que aliás, cabe ressaltar, NÃO É DO RAMO, pois é Administrador de Empresas e não tem nenhuma formação pedagógica, portanto ocupa o cargo por questões políticas e não profissionais. Mas, voltando ao assunto, o citado Ministro da Educação disse que para resolver os problemas da educação é preciso primeiro acabar com algumas “regalias” dos professores. Quer dizer que, segundo o Ministro da Educação: “o mal da educação são as pretensas “regalias” profissionais dadas aos professores”.

Como eu já disse, ele não é do ramo e assim não entende do assunto e obviamente sabe do que está falando. Se existe profissional nesse país que não tem absolutamente nenhuma regalia, esse é o infeliz do professor. Mas, os Ministros de Estado estão tão longe desse tipo de profissional, que não têm sequer, a verdadeira dimensão do que significa ser professor num país como o Brasil.

Ao contrário do que o Ministro da Educação pensa (se é que ele pensa efetivamente alguma coisa sobre essa questão?), os professores trabalham muito mais que qualquer outro profissional e ganham muito menos, são mal tratados, pelos políticos em todas as esferas do poder, pelos administradores das escolas públicas e principalmente pelos alunos e, o que é pior ainda, pelos pais dos alunos e lamentavelmente já servem de motivo de chacota para grande parte da sociedade brasileira. Hoje no Brasil, para grande parte da sociedade, ser professor é o mesmo que não servir para nada, pois quem servisse para alguma coisa qualquer, jamais teria sido professor. Talvez fosse Ministro da Educação, mas professor certamente não seria.

Pois é, são essas “regalias” que nós temos. Aqui no Brasil, somos profissionais de segunda ou terceira categoria, dirigidos e regidos por ministros de quarta ou quinta categoria, que “quebram o galho” na Educação, mas sem “regalias”, porque os professores são gado manso e não reclamam mesmo. Ora vá para o inferno Senhor ministro! Levante-se dessa cadeira que não lhe pertence e vá procurar a sua turma ou então trabalhe com seriedade, para fazer jus ao cargo que ocupa e deixe essa conversa mole de “regalias” dos professores.

A Educação vai mal porque esse país virou uma bagunça generalizada, porque falta ordem, porque confundiu-se democracia com leviandade e isso não tem nada a ver com os professores. Ou melhor, tem sim, pois são os professores que mais sofrem com esse “status quo” e não pense o senhor que nós professores gostamos ou que trabalhamos em prol dessa situação. Não, senhor ministro, nós somos muito contrários ao que acontece na Educação desse país.

A segunda situação foi a nova Medida Provisória sobre o Ensino Médio. É duro um país que se diz democrático legislar por Medidas Provisórias. Bom, mas como precisa ser feita alguma coisa e como esse governo também é provisório e tem pouco tempo, nós aceitamos e vamos fazer de contas que entendemos a emissão de uma Medida Provisória.

A Medida Provisória em questão, estabelece uma série de mudanças na Lei 9394/1996 que define as bases da Educação Nacional. Pela Medida Provisória, o ensino médio volta a dar ênfase à profissionalização, desobriga-se com as áreas artísticas e sociais, entrega a formação física quase que exclusivamente na mão dos proprietários de academias e desobriga a formação pedagógica específica para os professores.

Certamente não creio que todas essas sejam coisas benéficas à educação e ao ensino nacional, mas como já comentei um pouco sobre a Medida Provisória num artigo recente (A “Medida Provisória” para o Ensino Médio e o “Notório Saber”)*, eu não vou agora me ater a essa questão novamente, mas creio que vale a pena dar uma lida no artigo citado.

Por fim, a terceira situação, talvez seja a que mais tenha me “condicionado” a escrever esse artigo. Trata-se da recente divulgação dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM de 2015). Meus amigos, lamentavelmente é uma vergonha que continuemos andando para trás na educação e que tenhamos que ficar buscando motivos e culpando principalmente as ações dos professores, por conta dos resultados pífios obtidos pelos nossos estudantes nas diferentes avaliações nacionais e também nas avaliações internacionais em que o país esteja envolvido de alguma maneira ou por algum motivo.

Não vou aqui discutir todos números, até porque a matéria do ENEM 2015 já foi muito bem discutida e comentada na mídia, mas dessa vez ficou óbvia a culpa, pois das 100 primeiras escolas classificadas, apenas 3 são públicas. Desta forma, parece muito claro, que o problema das mas avaliações está na qualidade da escola pública do Brasil. É bom lembrar, que a escola pública não é um problema dos professores, é sim um problema do estado. Aliás, muitos dos professores (certamente a maioria) que ministram aulas nas escolas particulares também são professores de escolas públicas. Então porque o resultado das particulares é significativamente tão melhor?

Bem essa questão pode ser analisada por, pelo menos, dois aspectos: primeiramente os recursos das escolas particulares são utilizados nas escolas e assim, na maioria das vezes, elas funcionam muito bem. Em segundo lugar, cabe lembrar que nessas escolas, alunos, professores e dirigentes estão preocupados com que a escola efetivamente funcione e qualquer outra questão não é relevante. Nas escolas públicas os recursos, se existem, não chegam na escola e, por outro lado, a comunidade da escola não parece estar muito preocupada com o resultado final, até porque nesse país as pessoas são orientadas e entender que “tudo aquilo que é público não pertence a ninguém”.  Assim, é triste assumir, mas obviamente a escola pública não funciona, porque infelizmente ela não tem dono e virou terra de ninguém, sem ordem e sem nenhuma organização. Falta autoridade, controle e disciplina na escola pública brasileira.

É preciso parar com essa brincadeira de achar que a escola pública é somente um lugar de lazer e de relacionamentos estritamente sociais, onde as pessoas envolvidas vão apenas por conta de um compromisso social formal. Não, não e não! A escola tem que ser um lugar de aprendizado e de muito trabalho.  É preciso entender que a disciplina é uma regra fundamental no trabalho escolar. Enquanto não mudarmos essa postura de que o aluno tudo pode e infeliz do professor cheio de “regalias” é o único que não pode e não deve, a escola pública desse país não vai sair da condição em que se encontra. E não adianta nada, ficarem inventando novas teorias e técnicas pedagógicas fantásticas, que apenas transferem, mas não resolvem os problemas reais.

A propósito, antes que me atribuam qualquer qualificativo, quero dizer que sou, antes de qualquer coisa, um liberal, e acredito que as aulas devam ser alegres e os alunos devem ter liberdade, entretanto tem que haver um compromisso de trabalhar pela educação e pelo aprendizado dos dois lados, do professor e do aluno.  Eu sei muito bem a diferença entre liberdade e libertinagem, entre espaço alegre e orgia. Pois então, as escolas públicas viraram centros de orgia, onde os alunos desinteressados se encontram e, por acaso, também encontram professores que não podem (porque o “sistema” impede) fazer absolutamente nada para mudar o estado de caos. É bem verdade que alguns professores, que por benesses outras, caem nas graças dos alunos, até conseguem alguma coisa, mas a grande maioria não consegue fazer nada.

Para resolver a grave situação da educação brasileira será preciso que os recursos cheguem nas escolas, além de ser fundamental que se devolva a autoridade do professor na sala de aula, ainda que o ministro possa dizer que estou querendo mais “regalias” para a minha profissão. O que falta é respeito ao professor e ao seu trabalho e não é só por parte do aluno. Mas esse respeito é também necessário, pelo ministro, pelos dirigentes escolares e principalmente pelos pais dos alunos, enfim por toda a comunidade escola e pela sociedade em geral. Enquanto a profissão de professor for considerada uma profissão menor, que não pode exigir nem aquilo que precisa para cumprir a sua obrigação, obviamente nosso trabalho será menor e os resultados oriundos desse trabalho serão consequentemente, cada vez menores.

O professor tem que voltar a ser aquele sujeito importante e respeitado, que forma todos os outros, independentemente do governo, do ministro e da legislação que se estabeleça no país em relação à educação. Enquanto isso não acontecer, a bagunça educacional vai permanecer a mesma e certamente o Brasil vai continuar batendo recordes negativos.

Bom, de qualquer maneira, eu sei que muitos de nós professores, estamos lutando para que esse país tenha jeito e sabemos que o único jeito é uma educação de qualidade. Nós professores de verdade e por vocação temos que ser os protagonistas da mudança que poderá fazer o Brasil evoluir, para além de ser um grande país em área geográfica, mas para chegar a ser uma grande nação, com povo minimamente educado e instruído.

Temos que parar com esse negócio de imaginar o “país do futuro” Temos que ser primeiramente o país do presente e somente com escolas de qualidade, com educação e ensino efetivos é que poderemos viver o presente que precisamos e partir para construir o futuro que sonhamos. Parabéns aos professores que ainda acreditam que isso seja possível, porque esses são os verdadeiros professores, aqueles que apesar de todas as “regalias” que não possuem, ainda estão por aqui, tentando mudar a cara desse país, em que pese a má vontade e o desinteresse dos administradores desse país.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Referências
* LIMA, L.E.C., 2016.  A “Medida Provisória” para o Ensino Médio e o “Notório Saber”, www.profluizeduardo.com.br
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27 set 2016

A “Medida Provisória” para o Ensino Médio e o “Notório Saber”

Resumo: O artigo atual está traz uma opinião sobre a perigosa figura do “notório saber” para a função de professor, que está prevista na Medida Provisória, editada pelo Governo Federal, que estabelece as mudanças para o Ensino Médio no país. Deixo claro que isso pode ser um grande retrocesso ao Ensino e que a Educação Brasileira não precisa desse tipo de ação conflitante com os verdadeiros interesses do país.


A “Medida Provisória” para o Ensino Médio e o “Notório Saber”

Na quinta-feira da passada (22/09), além da chegada da primavera, fomos, até certo ponto, surpreendidos com o anúncio do Governo Federal da “Medida Provisória” que impõe várias modificações no Ensino Médio em todo território Nacional. Entre erros e acertos, aparentemente houve, mais acertos, até porque havia efetiva necessidade de mudanças. Entretanto, o que mais chama a atenção é que a nova legislação, que tem 120 dias para ser efetivada ou não, muito mais do que providenciar melhorias no Ensino Médio, sugere algumas coisas, que se não são absurdas, a meu ver, são pelo menos bastante perigosas. Em certo sentido, ficou parecendo que a nova legislação foi feita muito mais para mostrar serviço, do que para tentar resolver os problemas da educação no Ensino Médio do país.

Bem, de qualquer maneira, eu não vou aqui discutir todas as questões, até porque a mídia já está badalando muito alguns aspectos, mas vou me ater a uma situação específica que me parece ter passado despercebida da grande imprensa. Eu não sei se o esquecimento foi ocasional ou foi de caso pensado, mas a verdade que é que não se discutiu sobre esse assunto, o qual, talvez seja o mais importante no texto da “Medida Provisória”. Enfim, a verdade é que, como não vi comentários sobre o assunto, vou levantar o problema aqui.

O processo educacional é consequência de dois patamares elementares, de um lado os estudantes (alunos) e de outro os educadores (professores). A educação boa e profícua, obviamente depende de alunos bons, interessados, envolvidos, capazes e obviamente também de professores sérios, preparados, capazes e sobretudo que acreditam na educação e que por isso mesmo são incentivadores dos seus alunos. Se um dos patamares básicos (alunos ou professores) não for condizente com as necessidades mínimas, certamente a boa educação não poderá existir. Infelizmente, nos últimos tempos é exatamente isso que tem acontecido no Brasil, pois nenhuma das duas partes envolvidas tem sido boa o suficiente e por isso mesmo a educação do país, como um todo, tem historicamente patinado entre o ruim e o pior.

Em suma, precisamos de alunos interessados, ávidos por saber e de professores cônscios, motivadores e capazes de cumprir a função que assumiram, de maneira efetiva, eficaz e eficiente. Ensinar é uma missão, uma tarefa difícil que precisa de gente preparada e capacitada, não por qualquer indivíduo, por mais bem intencionado que possa ser. Pois então, é exatamente aí que reside o problema na “Medida Provisória” apresentada.

Se já vai ser muito difícil para um jovem aluno aos 14/15 anos em média, escolher e decidir sobre sua vida profissional futura, tendo que escolher um currículo compatível com sua futura formação. Imagine então, se os seus respectivos professores, aqueles que convivem e orientam esses alunos, forem quaisquer pessoas, sem nenhuma formação específica e muito menos sem formação didática e pedagógica. Como vai se dar esse diálogo necessário, essa troca de informações, opiniões e por que não de sentimentos, entre os dois personagens básicos da educação?

A “Medida Provisória” ressuscitou uma velha praga, conhecida pela expressão “notório saber”, como uma possibilidade real para definir os sujeitos que poderão ocupar as funções de professores. “Notório saber”, como o nome diz, é uma condição que desobriga que o professor seja diplomado ou que tenha formação específica na área (disciplina ou matéria) em que pretende atuar e ensinar. Obviamente, nós somos cientes de que apenas o diploma não representa e nem garante nada no que diz respeito à competência, pois todos sabemos que existem vários professores e quaisquer outros profissionais de outras áreas, que mesmo diplomados, são incompetentes. Entretanto, por outro lado, é bom lembrar que sem o citado diploma, a coisa deverá ficar muito pior ainda, porque aí se estará correndo o sério risco de que as escolas fiquem cheias de picaretas, com “qualquer um dando aula de qualquer coisa”, se não se definir direito o que seja esse tal de “notório saber”.

Vou ser mais claro e dar alguns exemplos do que poderá facilmente acontecer se não forem tomados os devidos cuidados. Quem tem mais notório saber para dar aulas de Biologia, um Médico, um Agrônomo, um Engenheiro Ambiental ou um Engenheiro Florestal com mais de 30 anos de profissão?  Tem notório saber um Engenheiro Civil ou Arquiteto com mais de 30 anos de profissão, para dar aulas de Matemática? Tem notório saber, em Português, um escritor renomado e consagrado, com vários “best sellers”, mas formado em Química ou Física, ou mesmo sem formação específica nenhuma? Tem notório saber em Biologia, aquele professor de Educação Física, que trabalhou 25 anos nessa função e precisa trabalhar mais alguns anos para se aposentar, porém agora, por conta da Medida Provisória ter diminuído sua carga horária, haja vista que a Educação Física não é mais obrigatória e ele não tem aulas e então ele vai ministrar aulas de Biologia? Tem notório saber aquele professor de qualquer coisa que é amigo do diretor ou do proprietário da escola, em relação a qualquer professor desconhecido ou não querido pelo diretor? Por fim, tem notório saber o líder de uma igreja ou religião qualquer para ministrar aulas de Filosofia ou de História? Tem notório saber o dono ou o gerente de uma agência de viagens para dar aulas de Geografia?

Bem, nós poderíamos ficar aqui, quase que infinitamente, criando situações e dúvidas intermináveis sobre o risco do notório saber, mas não é esse o objetivo e é por isso que eu insisto: o que é esse tal de notório saber? Por que se ressuscitou essa expressão infeliz, dúbia e perigosa? Como vai se decidir sobre essa questão do notório saber? Quais serão os critérios para estabelecer esse tal de notório saber?

Na minha modesta maneira de entender, esse tal de notório saber vai ser mais uma válvula de escape para proteger amigos incompetentes e outros interesses nefastos, do que um bom serviço prestado à educação e por isso mesmo, esse “negócio” tem que sair do texto da “Medida Provisória” e da legislação final que será estabelecida posteriormente. O notório saber não interessa à educação brasileira. Aliás, não interessa a educação nenhuma.

Para dar aula, seja lá do que for, tem que ser uma pessoa diplomada e habilitada nas áreas pedagógicas e específicas da disciplina em questão. É por isso que precisamos formar bons professores em todas as áreas e esquecer esse negócio de “notório saber”.  Se houve uma época em que o “notório saber” foi importante na história passada do Brasil, certamente hoje ele não é mais necessário e muito menos importante. Assim, não há lugar para esse tipo de coisa num país que precisa educar seu povo, particularmente seus jovens. Em suma, esse tal de “notório saber” não faz o mínimo sentido num país que precisa crescer e que precisa investir mais em educação.

Senhores parlamentares, se os senhores estão mesmo dispostos a melhorar a Educação e o Ensino Médio do país, por favor, mudem esse aspecto o mais rápido possível e exijam que haja profissionais formados e com diploma para minimizar o risco de permitirmos, colocarmos e mantermos a incompetência generalizada nas escolas do Brasil. Não sei como vai ficar o elemento aluno com a desordem estabelecida nesse país, porque esta parte dependerá de muitas coisas, alguma dessas coisas, muitas vezes são externas ao ambiente escolar, mas o outro elemento, o professor, esse nós temos a obrigação de tentar garantir um mínimo de profissionalismo e devemos começar estabelecendo regras simples, para que somente professores de carreira possam atuar como professores nas escolas de Ensino Médio.

Antigamente era comum os professores mandarem tarefas para os alunos fazerem nas suas casas, os famosos “deveres de casa”, pois é senhores parlamentares, cumpram os seus respectivos “deveres de casa” e dificultem a possibilidade de “qualquer um dar aula de qualquer coisa”. Os jovens brasileiros atuais e futuros esperam que os senhores cumpram com os seus respectivos “deveres de casa” e reavaliem essa melhor essa questão do “notório saber”, que foi incluída na “Medida Provisória”.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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17 set 2016

APRENDER FAZENDO: UMA PREMISSA PERIGOSA

Resumo: Este artigo diz respeito ao risco que se anda correndo com a aplicação da metodologia intitulada “aprender fazendo”, que, para muitos, desobrigou o professor da condição de ter que ensinar e o aluno de ter aprender, bastando apenas repetir determinada ação. Entendo que essa metodologia, da forma como está sendo conduzida em muitos casos, seja muito perigosa, porque traz um retrocesso no processo de ensino-aprendizagem e na formação intelectual do aluno e assim, esse mecanismo precisa ser melhor trabalhado para que seja evitada a tendência que se observa de “coisificação do ensino” e a “robotização do aluno”.


APRENDER FAZENDO: UMA PREMISSA PERIGOSA

Nos últimos tempos, não sei bem o porquê, mas a maioria dos professores, educadores e outros profissionais ligados direta ou indiretamente à Educação têm reforçado a ideia de que “aprender fazendo” é a melhor maneira de aprender. Eu confesso que tenho minhas dúvidas sobre isso e, por isso mesmo, estou aqui para dar minha modesta opinião sobre a questão e colocar minha cara exposta aos tapas, embora saiba que as críticas muito provavelmente virão.

Para começar, eu quero dizer que o ser humano é uma entidade biológica dotada de uma grande massa cefálica, a qual, dentre outras coisas, lhe permite a capacidade de pensar e que essa capacidade deve ser incentivada, pois o ser humano precisa utilizar bastante essa massa cefálica, até mesmo para se completar como humano. Por outro lado, embora seja inquestionável a nossa condição animal, não devemos ser tratados como animais de circo ou coisas semelhantes, cujo treinamento e a repetição leva ao “aprendizado”, sem o uso da massa cefálica, ou seja, que permite a realização das coisas, porém sem quase nenhuma atividade neurossensorial que justifique o entendimento dessas coisas.

Nós humanos não nascemos para ser apenas adestrados a fazer coisas. Penso que nascemos principalmente para pensar, criar e aplicar ações sobre as diversas coisas e questões, exatamente nessa ordem. Isto é, primeiro pensamos e entendemos, depois criamos e por fim aplicamos o conhecimento pensado. Aliás, me parece que é exatamente isso mesmo que nos difere dos demais animais, ou seja, a nossa capacidade efetiva de aprender e ter a consciência real (conhecimento) daquilo que verdadeiramente aprendemos. Adestramento não é algo bom para os seres humanos, ou, pelo menos, não deveria ser, porque certamente não é bom para humanidade, haja vista que não agrega nenhum valor a nossa verdadeira condição de seres humanos.

Cada um de nós tem, ao seu modo, necessidade de aprender e de entender as coisas e os seus respectivos porquês. Isso é intrínseco de nossa espécie, pois somos curiosos e criativos por natureza. Temos necessidade de compreender para que serve? Onde se aplica? Como se aplica? E qual o resultado efetivo daquilo que estamos aprendendo e de sua aplicação? Precisamos saber se o desenvolvimento dessa prática terá um resultado positivo ou negativo para os demais humanos. A teoria aliada à prática é fundamental para que seja possível completar o aprendizado.

Infelizmente, acho que as pessoas estão confundindo o objetivo verdadeiro das ideias John Dewey* de ensinar através de projetos com esse tipo de “aprender fazendo”, pois eu tenho observado muitas situações em que o aprendiz tem sido levado a resolver problemas (fazer coisas) sem nenhuma preocupação com as causas e nem com as consequências desses problemas, pois as atividades são meras formalidades impostas para serem resolvidas, apenas se faz e não se discute e obviamente assim não se entende, de fato, aquilo que se faz. Essa é uma prática viciante e infundada, que, embora possa produzir um resultado efetivo, no que se refere ao trabalho, não gera praticamente nenhuma cognitividade. Ora, me desculpem os leitores, mas efetivamente esse procedimento não implica em aprender e assim também não pode descrito como “aprender fazendo”. Isso é apenas e tão somente repetição sem discussão e essa repetição não agrega conhecimento nenhum, apenas “macaqueia” algo que já existe.

Assim, a meu ver, esse “aprender fazendo” é muito pouco, porque muitas vezes não permite ao aprendiz, a possibilidade de responder nenhum dos questionamentos citados acima. “Aprender fazendo”, muitas vezes, apenas coloca o aprendiz na condição de resolver (geralmente sem entender) uma determinada situação, sem qualquer consideração ulterior. Assim, penso que essa situação de “aprender fazendo” é uma possibilidade real de “fazejamento” (desculpem o termo) sem planejamento, o que acaba levando a acabamento sem envolvimento e o que é pior, sem nenhum entendimento, o que me parece ser indesejável e extremamente perigoso à mente humana, principalmente as mentes dos mais jovens, que tendem a ficar viciadas ao repetir ações inconsequentemente.

Desta maneira, embora eu seja ciente de que é fundamental fazer, pois, como disse Aristóteles: “é fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”.  Entretanto, por outro lado, sempre será necessário um mínimo de informação sobre aquilo que se faz, pois do contrário, a emenda pode sair pior que o soneto e ao invés de levar o indivíduo a aprender, se desperdiça a capacidade de aprendizado, pois se acostuma com a realização da ação e se pensa que sabe, quando na verdade, se desaprende, porque apenas se repete algo que não se é capaz de explicar. Não há conhecimento nesse tipo de situação, ocorre apenas um praticismo. O que é mais significativo desse fato é que, na verdade, se desaprende cada vez mais, exatamente aquilo que nem se quer se foi capaz de tentar aprender, porque apenas se repetiu.

Vou esclarecer melhor, porque está parecendo muito confuso, mas essa questão é confusa mesmo. O que eu quero dizer é o seguinte: “pior do que não saber e achar que se sabe alguma coisa, quando se é capaz de resolver algumas questões puramente operacionais sobre essa coisa”. Esse conhecimento puramente empírico nos permite “alguns direitos”, nos evidencia “alguns poderes” e, por conta disso mesmo, infelizmente também nos leva a cometer inúmeros erros, muitos dos quais, talvez, por força do hábito, ocasionalmente condicionem à compreensão e entendimentos errados, a partir de procedimentos corretos.

Em suma, entendo que a ideia de “aprender fazendo”, em certo sentido e em muitos casos, acaba sendo uma falácia do aprendizado que não condiz com a realidade necessária ao indivíduo humano e nem mesmo justifica, muitas vezes, à realidade que se objetiva alcançar. “Aprender fazendo” pode ser e lamentavelmente muitas vezes é, apenas um mero adestramento do ser humano para uma determinada função que ele passa a exercer como um autômato qualquer.

Baseado nos argumentos apresentados e como já foi dito, ciente de que sofrerei muitas críticas, eu quero chamar a atenção para algumas situações reais que têm decorrido dessa pretensa condição de “aprender fazendo”, que tem sido estabelecida por muitos profissionais da educação, sem a devida preocupação do aprendizado em si.

Os Padrões Curriculares Nacionais (PCNs) em todos os seus diferentes textos disciplinares falam constante e repetidamente em contextualizar o conteúdo, o que obviamente é muito importante e necessário na formação do aprendiz, além de condizer com a realidade cotidiana necessária. Entretanto também é necessário se mentalizar o conceito que se quer manifestar por trás do contexto, pois é isso que na verdade justifica a necessidade, além de implicar e induzir à sua aplicabilidade, além de apresentar e demonstrar os efeitos costumeiros das atividades. Contextualizar não é apenas praticar, mas é traduzir uma ação real e próxima do cotidiano do indivíduo. Para que essa tradução se dê a contento é preciso conhecimento e discussão do ambiente, da parafernália instrumental e de todas as questões envolvidas.

Quando o aluno apenas repete e não faz nenhuma reflexão devida sobre aquela aplicação da realidade à sua volta, não está havendo contextualização efetiva, está acontecendo apenas e tão somente uma atividade prática, muitas vezes viciada que, além de não determinar nenhum tipo de aprendizado real, “coisifica” a pessoa que a pratica e não condiz com a necessidade efetiva do entorno. Aquela ação se repete sem controle e o que é pior, sem causa e nem consequência aparente. Não existe nenhuma aquisição de conhecimento na repetição de uma prática efetuada, apenas e tão somente, pela simples repetição. Essa ação é, quando muito, mais um treinamento, um adestramento de uma técnica que não agrega valor intelectual a quem pratica e principalmente não fornece nenhuma vantagem perceptiva aos demais seres humanos envolvidos direta ou indiretamente.

Vou dar um exemplo bem brasileiro, para tentar esclarecer melhor o que estou tentando dizer.

Jogar futebol é uma prática interessante e existem alguns indivíduos que são efetivamente fantásticos e geniais com essa prática, mas muitos desses indivíduos, a despeito de toda as qualidades técnicas que possuem, não conseguem, se quer, entender dos seus instrumentos de trabalho, ou seja, do campo, da tática, da bola, do juiz etc…. O jogador precisa saber que todas essas coisas, além do fato dele ser um excelente prático (habilidoso jogador de futebol), atuam no intuito de transformar a habilidade prática que ele possui a seu favor, ou melhor, a favor de seu time, já que futebol é um esporte coletivo, ou mesmo a favor da sua torcida ou de toda a comunidade envolvida.

Entender que o futebol é um esporte coletivo e que não dá para ganhar qualquer partida sozinho por mais qualidade técnica que qualquer jogador tenha, é uma condição fundamental para quem joga futebol, independentemente da capacidade prática que qualquer jogador possa ter. Entender também que o futebol é uma atividade que envolve milhões de pessoas e uma infinidade de recursos, além daquelas que estão em campo é fundamental para que o jogador possa ter sucesso pessoal e profissional.

Em suma, o melhor jogador do mundo, não venceria no pior time, nem num país pobre de futebol e sem nenhuma torcida. Posso até estar errado, mas contextualizar para mim é isso, ou seja, é trazer a maior abrangência possível daquilo que faz, para que haja compreensão exata da importância da ação que se desenvolve e isso só pode ser possível com algum entendimento da ação. Um grande jogador, além de técnica apurada, tem que conhecer um mínimo sobre o futebol, tem que se enquadrar em algumas normas regimentais do futebol e também tem que ser capaz de opinar e discutir sobre sua função como jogador de futebol na sociedade. Não basta apenas, correr atrás da bola, dar belos dribles e fazer gols.

O comprometimento, o profissionalismo, a ética, a intelectualidade são valores pertinentes ao humano, que precisam estar envolvidos em qualquer ação antrópica. Nenhum jogador de futebol e nenhum outro profissional de qualquer área pode ser um idiota, que faz, mas não sabe explicar o que faz. Nenhum ser humano se basta por si só, apenas fazendo algo. Com certeza, qualquer questão relacionada com a aprendizagem, que é uma atividade humana fundamental e característica de nossa espécie, pois nos difere dos demais animais, obviamente acontece a mesma coisa, inclusive com o agravo de que o aprendiz, como o próprio nome diz, ainda está efetivamente aprendendo a fazer algo.

Um aluno (aprendiz), a priori, não pode apenas responder questões corretas ou realizar tarefas, pois é fundamental que ele seja capaz de saber porque está respondendo as questões e realizando as tarefas e ainda, quais são as aplicabilidades atuais e futuras que elas atividades podem ter. Ou seja, onde essas respostas e tarefas se inserem dentro dos interesses humanitários e sociais. Alguém já disse que: “mais difícil do que dar respostas é fazer perguntas” e eu quero aqui também afirmar que “mais difícil do que fazer tarefas e saber porque elas são feitas”. Certamente, apenas o conhecimento permite a elaboração de perguntas diversas e esclarecedoras sobre os determinados assuntos e também a elaboração de tarefas convenientes à sociedade. O ser humano só começa a entender, quando é capaz de questionar (fazer perguntas) e saber por que, para que e para quem servem as questões e tarefas desenvolvidas

Respostas corretas e ações óbvias nem sempre são mecanismos oriundos de atividades compreendidas mentalmente, porque muitas vezes são ações mecânicas e automatizadas que não garantem a existência de nenhum incremento intelectual no âmago do aluno (aprendiz). Desta maneira, como já foi dito, a ideia pura de “aprender fazendo”, pode ser apenas um vício que se tem, que se repete e que até se pode melhorar progressivamente, mas que na verdade não se conhece e consequentemente não se é capaz de entender e muito menos de explicar.

Resumindo, eu quero dizer que a ideia de “aprender fazendo”, embora possa ser boa por um lado, é sim, por outro lado, uma ideia perigosa, que embora possa produzir excelentes práticos, tende a produzir também muitos profissionais intelectualmente inferiores e creio que a humanidade não precisa trabalhar para produzir seres humanos desse naipe. Isto é, “gente que sabe fazer, mas não sabe explicar conceitualmente aquilo que faz”. Ao contrário, a humanidade deve procurar produzir seres humanos progressivamente mais capazes. Por conta disso, certamente existe necessidade de se avaliar e se adequar melhor um verdadeiro mecanismo de “aprender fazendo”, para evitar a má formação e mesmo a “coisificação” da pessoa por trás do estudante (aprendiz), do técnico ou do profissional, seja ele qual for.

Humanos não podem e nem devem ser adestrados, entretanto no mecanismo proposto de simplesmente “aprender fazendo”, pelo que pude observar em várias situações reais, na vida escolar cotidiana, pelo menos, em tese, existe grande possibilidade de que isso ocorra. Não somos autômatos, nem animais de circo, ao contrário, somos seres pensantes e capazes de criar novos mecanismos a partir do conhecimento que temos e precisamos trabalhar isso cada vez mais e não nos limitarmos a somente repetir coisas.

As escolas, os educadores e os professores sejam eles quais forem, têm um compromisso com a humanidade de trabalhar para criar homens cada vez melhores e mais capazes e não apenas de tentar favorecer condições para manter os homens sempre iguais. O desenvolvimento do conhecimento humano é o que permite o verdadeiro crescimento da humanidade e precisamos investir todos esforços possíveis nessa realidade. Temos que buscar sempre o aprimoramento e a melhora do conhecimento humano e nada que seja diferente disso pode prosperar no que se refere ao aprendizado.

 

*Leitura Recomendada
DEWEY, John. Experiência y Educación, Buenos Aires: Editorial Losada, 1958, 125p.
DEWEY, John. Democracia e Educação, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, 3a. edição. 416p.
DEWEY, John. Vida e Educação, São Paulo: Melhoramentos; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar, 1978, 113p.
 

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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05 set 2016

QUANDO A BIOLOGIA TEM QUE FAZER A DIFERENÇA

Resumo: O texto atual é na verdade uma homenagem em comemorativa do Dia do Biólogo (03/09) e também um chamamento aos Biólogos brasileiros para que invistam melhor e divulguem mais sobre a importância da Biologia e do conhecimento biológico nos tempos atuais. O texto ressalta a necessidade do governo e da mídia promoverem e intensificarem as ações em prol da manutenção da vida humana sobre a Terra e indica que a Biologia e os Biólogos devem ser os principais protagonistas dessas respectivas ações.


QUANDO A BIOLOGIA TEM QUE FAZER A DIFERENÇA

Nos tempos atuais é relativamente comum encontrarmos aleatoriamente, aqui e ali, pessoas envolvidas com as questões ambientais e particularmente preocupadas e com a degradação ambiental em escala planetária causada pelas atividades antrópicas. A Terra já não suporta mais o “bicho homem” e por conta das nossas ações, o ano que deveria durar 365/366 dias completos, “tem terminado cada vez mais cedo”. Este ano de 2016, até aqui o mais curto, chegou ao fim no dia 8 de agosto. Vou esclarecer melhor, pois obviamente o ano continua, de fato, tendo 365/366 dias, mas os recursos possíveis de serem utilizados pela humanidade por ano, têm progressivamente acabado bem antes do final do ano. Embora o ano não tenha acabado, os recursos teoricamente disponíveis deste ano já se foram.

Assim, dos 365 dias deste ano de 2016, os últimos 145, já foram tomadores de recursos que seriam programados para o ano que vem. O pior é que esses recursos também estão se perdendo na ampliação do passivo ambiental que a humanidade tem construído ao longo da história. Na verdade temos vivido uma ilusão semelhante ao “cheque especial”, você gasta aquilo não tem e depois tem que pagar os débitos, com os devidos juros. O problema é que na natureza não existe juros, para cobrir o rombo e o que está perdido, está real e efetivamente perdido. Ou seja, a cada ano perdemos um pouco mais do planeta e de acordo com a maneira como vivemos, não temos como recuperar essa perda e assim o débito só aumenta. Essa situação, obviamente precisa ter um fim, porque se isso continuar, muito brevemente a coisa vai ficar totalmente inviável e aí ninguém, de antemão, pode afirmar o que irá acontecer.

Obviamente existem vários profissionais, das mais diversas áreas do conhecimento e atividades, envolvidos direta ou indiretamente com as questões ambientais em todo o mundo e obviamente todo esse pessoal está bastante preocupado com a situação crítica que se apresenta na Terra. Entretanto, a maior parte desse contingente de ambientalistas, constitui-se de pessoas abnegadas, as quais, por puro “feeling”, ou por fatores e interesses próprios, se engajaram na luta pela melhoria da qualidade de vida e do meio ambiente, mas sem nenhum jeito e principalmente, sem qualquer conhecimento de causa. Na realidade, não existe quase nada institucionalizado na maioria dos países e assim essas pessoas lutam por que querem, por causa própria ou como se fossem rebeldes sem causa.

A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a partir de agosto de 2000, criou os 8 Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), os quais foram recentemente substituídos e ampliados pelos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e incluídos na chamada “Agenda 2030”. Porém, esses ODS parecem ter sido criados, muito mais como justificativa para apresentar trabalho do que efetivamente para resolver problemas. A “Agenda 2030”, embora muito interessante, não parece ter contagiado a maioria dos 165 países signatários e assim, tudo continua como “dantes no quartel de Abrantes”.

Na área estritamente ambiental, de fato, nada se faz para reduzir o uso dos recursos naturais e reduzir os impactos planetários, ao contrário a exploração insana continua progressivamente. Na área econômica, nada se faz para conter o consumismo inconsequente, ao contrário a propaganda praticamente obriga o cidadão comum a comprar e consumir. Na área social as coisas continuam seguindo praticamente da mesma maneira que estavam antes da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio, 92) e pouco se fez para melhorar de fato a vida das comunidades mais carentes do mundo. Quer dizer, na realidade nós continuamos na mesma balada de violência contra o planeta e as ações efetivas de mudança são muito tímidas ou não acontecem. É claro que existiram melhorias pontuais, mas essas foram pouco significativas para mudar a tendência do quadro drástico que se vivencia.

Por outro lado, nós Biólogos, somos profissionais que temos a devida dimensão da desgraça, pois sabemos exatamente ou deveríamos saber, o que está realmente acontecendo e temos a responsabilidade maior de informar a verdade, de maneira clara e correta, para os demais setores da sociedade, além de exigir a postura adequada dos administradores públicos e sugerir as mudanças efetivas. Cabe lembrar que, pelo menos aqui no Brasil, o governo e a mídia não cumprem bem a obrigação de proteger e divulgar sobre o meio ambiente e tudo que a ele se relaciona.

A Constituição Federal no artigo 225 diz que: “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. (Grifo nosso), porém isso tem sido mais “para inglês ver”, do que para orientar os cidadãos brasileiros sobre as verdades. É aquele binômio antagônico que todos já conhecem: “a lei é boa, mas o governo é ruim” e assim o que está no papel, continua apenas e tão somente no papel.

Por conta desse lamentável clima de irresponsabilidade generalizada do governo e pelo desinteresse da mídia, só sobraram a Biologia, o conhecimento biológico e os Biólogos para tentar informar sobre como proceder nas questões ambientais e assim tentar separar o joio do trigo, entre a picaretagem imposta por setores do governo e principalmente da mídia, que só se manifesta quando tem algum interesse significativo, mas sempre tangenciando a questão para não se envolver e correr o risco de perder alguma vantagem adicional. É preciso estar atento à Legislação que anda em constante mudança para atender aos interesses escusos e inverídicos e também a propaganda perniciosa que circula por aí deformando a realidade das questões ambientais.

Recentemente foi encaminhado ao Congresso, o Projeto de Lei (PL) 3200/15, do deputado Covatti Filho (PP-RS). O citado deputado tratava agrotóxico (veneno), com o singelo nome de “produto fitossanitário” e pretendia substituir a atual Lei de Agrotóxicos (Lei Federal 7.802/1989) e ninguém ouviu falar nada sobre isso, tão pouco a imprensa publicou alguma coisa, sobre a tal “comissão especial” que seria criada para analisar o referido projeto e muito menos sobre o andamento desses trabalhos. Em março de 2016, o referido projeto foi apresentado e aprovado por unanimidade no Parlamento do Mercosul sob coordenação do senador Roberto Requião (PMDB-PR) e teria sido aprovado no Senado se não fossem as pressões dos ambientalistas e da sociedade civil em geral, através das redes sociais e também através de cobranças mais diretas sobre alguns parlamentares. Mas, por felicidade, os ambientalistas, aqueles abnegados de quem falei acima, ganharam mais uma batalha e o projeto foi arquivado.

Entretanto, não dá para esmorecer, porque outros do mesmo nível, visando facilitar os interesses das empresas produtoras desses venenos estão embrionados por aí e breve vão tentar eclodir. É preciso ficarmos atentos, porque os interesses são muitos e a mídia não fala nada sobre o assunto. O lobby do setor agroquímico é muito grande e muito forte, pois cala a boca da imprensa, ludibria alguns setores do governo que deveriam impedir certas leis e “gratifica” outros setores governamentais para conseguir seu intento. Então, a diferença para tentar equilibrar essa balança absurda de interesses perniciosos para alguns ambientes específicos, ou para o planeta como um todo, só pode ser feita pelos setores mais radicais do ambientalismo e por setores técnicos e científicos da Biologia Ambiental (Ecologia) como ciência e pelos respectivos profissionais dessa área.

As questões ambientais necessitam ser tratadas como prioridades científicas, antes de interesse políticos e principalmente devem ser entendidas especificamente como necessidades ambientais e sociais, antes de quaisquer interesses puramente econômicos. Essas questões precisam ser consideradas como prioridades máximas, dentro de preceitos estritamente biológicos, porque do contrário, não haverá solução para a maioria das questões planetárias e para a continuidade da espécie humana na Terra.

É necessário que sejam desenvolvidos programas de orientação e divulgação verdadeiros, com boas técnicas de linguagem e comunicação, para que o Brasil possa recuperar o passivo ambiental, além de promover e aplicar novos padrões tecnológicos no setor de meio ambiente. Esses programas deverão divulgar, informar e principalmente transmitir para as comunidades todas as alternativas possíveis nas diferentes questões. Os órgãos ambientais precisam cumprir as suas obrigações legais e desta maneira se estabelecerem como órgãos ambientais de fato e de direito, deixando de fazer concessões absurdas para grupos de interesses.

Como já foi dito, no atual estado de coisas, além dos ambientalistas, apenas a Biologia e nós Biólogos, somos os responsáveis primários por levantar os problemas, identificar suas causas e propor metodologias para as respectivas soluções, encaminhando essas informações aos governos (nas 3 esferas do Poder) e à mídia. Por outro lado, existe a necessidade de que essas coisas sejam efetivamente promovidas pela mídia e tratadas com a devida austeridade pelos governos. Os setores de meio ambiente dos governos foram criados e existem para garantir a manutenção dos ambientes em condições sadias e equilibradas, perpetuando a qualidade ambiental e não para defender interesses corporativistas de quem quer que seja.

Transparência nas ações é a condição primária para a manutenção da qualidade ambiental e somente a Biologia, como ciência da vida, desobrigada de qualquer envolvimento com outras causas e interesses, será capaz de produzir ressonância e trazer as respostas comunitárias e sociais, integralmente compatíveis com os verdadeiros interesses planetários. Os anseios de vida longa para a nossa espécie, dependem totalmente das condições planetárias favoráveis e somente atitudes biocêntricas poderão conduzir a humanidade à possibilidade de uma existência mais longa no planeta.

Nós Biólogos, temos, pois, que fazer o dever de casa, que consiste em: introduzir o cérebro na pesquisa, enfiar a mão na massa e a colocar a boca no trombone. Só nós, profissionais da Biologia, de fato e de direito, somos capazes de entender que a extinção prematura da espécie humana se aproxima de forma clara e rápida. Por outro lado, também só nós somos capazes de interceder e tentar impedir que essa desgraça ocorra tão rápido quanto se desenha. Parece incrível, mas o mundo necessita de nós e conforme o tempo passa, essa dependência está ficando cada vez maior e não é possível que apenas alguns de nós participem mais ativamente dessa luta pela manutenção da vida humana na Terra.

Essa verdade insofismável e também bastante inconveniente, de que a espécie humana está perto do fim, ainda não parece ter sido entendida pelas comunidades pelo mundo afora e aqui no Brasil menos ainda. Aliás, a sociedade em geral, nem tem, absolutamente, nenhum conhecimento de que esse é um risco real iminente, até porque, além da própria mídia não acreditar nisso e dos governos não estarem nem aí para esse fato, muitas religiões atuam na contramão da humanidade e a favor da extinção da espécie, porque se mantêm arcaicas e reforçam os erros produzidos ao longo da história. Assim, ninguém encara as questões ambientais globais dentro da realidade e seguimos “brincando com fogo”, até que o fim da humanidade chegue.

Somente com uma mudança radical de comportamento é que vamos conseguir nos manter vivos no planeta por um tempo mais significativo. A Biologia tem que fazer a diferença para que essa mudança aconteça. Isto é, as verdades biológicas relacionadas com a dinâmica das populações, com o crescimento exacerbado das populações, com a resistência do meio, com a limitação física dos ambientes e outras, precisam ser ditas e evidenciadas para toda população humana, independentemente de qualquer interesse contrário.

É preciso dar uma chance a humanidade para que ela, pelo menos, possa tentar não sucumbir tão rápida e assustadoramente. Questões individuais ou mesmo de grupos específicos não podem mais ser respaldadas ou consideradas interessantes e nem devem servir de modelos, pois apenas os interesses planetários coletivos e a manutenção da espécie humana têm que ser as únicas prioridades para a humanidade e o povo brasileiro precisa estar efetivamente engajado nesse princípio.

Que nesse 3 de setembro, em que completamos 37 anos de regulamentação de nossa profissão, nós Biólogos brasileiros, sejamos capazes de levar a cabo essa ideia da importância da Biologia na luta pela preservação do planeta e da vida, particularmente aqui no Brasil, onde ainda existe bastante falta entendimento e interesse dos governantes, da mídia e consequentemente das comunidades. E necessário também, que esse 3 de setembro seja um marco para que nossa profissão possa crescer para tentar alcançar o mesmo nível de importância que já conseguiu em outros países.  Se a Biologia como ciência e possivelmente a única alternativa viável para as soluções planetárias, o Biólogo como profissional da Biologia tem que ser o ator principal no solucionamento dos problemas planetários e o Brasil precisa saber disso. Parabéns a todos e vamos à luta.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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28 ago 2016

A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA E AS RELIGIÕES OCIDENTAIS

Resumo: O texto atual faz uma abordagem sobre as diferentes posições das religiões ocidentais no que diz respeito à Evolução Biológica. O texto chama a atenção das religiões, principalmente as mais conservadoras de que a Evolução Biológica é um fato científico comprovado e que tentar negar esse fato é andar na contramão da história e isso não pode ser benéfico nem mesmo para essas religiões.


A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA E AS RELIGIÕES OCIDENTAIS

Infelizmente ainda existem inúmeras pessoas que insistem em contestar, algumas vezes até energicamente, a Evolução Biológica, o fato evolutivo, quando na verdade, este é o único fenômeno que age como mecanismo integrador e orientador da vida e de toda diversidade biológica planetária. Assim, a evolução, que deveria ser o argumento norteador de qualquer referencial relacionado à vida, ainda sofre críticas absurdas, infundadas e principalmente baseadas em crendices já desmistificadas cientificamente. Salvo raras exceções, a grande maioria das pessoas, quando questionadas sobre o assunto Evolução Biológica, apenas nega a possibilidade da existência desse mecanismo, ou faz alguns gracejos, relacionando, algumas vezes até violentamente, qualquer relação do homem com o macaco.

Na realidade, até por conta de certas religiões reforçarem essa ideia na cabeça de grande parte dessas pessoas, parece que a Evolução Biológica se resume exclusivamente a esse pretensa questão, de que o homem tenha surgido do macaco, o que obviamente é uma falácia. Por conta desses desencontros e dessa grande inverdade repetitiva e até religiosamente apoiada, resolvi escrever um pouco sobre a questão, no intuito de tentar diminuir a distância entre a verdade, as crendices e as mentiras deliberadamente ditas e repetidas sobre o mecanismo de Evolução Biológica. Obviamente, sou ciente de que não vou esgotar o assunto e nem acabar com os questionamentos, mas penso que, ainda assim, devo manifestar minha opinião e estou aproveitando esse espaço, que é meu, para fazer isso.

Para começar, devo dizer que as ideias de Evolução Biológica são muito mais antigas do que a maioria das pessoas pensam, pois, de alguma maneira, já eram consideradas nos livros sagrados dos Vedas, que foram escritos por volta de 1500 a.C. e que determinam as bases do Hinduísmo e das vários outras religiões resultantes dessas bases. Entretanto, aqui entre nós ocidentais, que ficamos presos por dogmas e outras situações religiosas poderosas que nos foram impostas ao longo da história, as ideias evolucionistas foram mantidas de lado, esquecidas e afastadas da sociedade e geral, por interesses outros.

Aqui no Ocidente, somente uns poucos pensadores ousaram fazer referências às possibilidades evolutivas. Dentre esses cabe lembrar principalmente Jean-Baptiste de Lamarck, Charles Robert Darwin, Charles Lyell e Alfred Russel Wallace, mas mesmo assim, isso só ocorreu depois do fim da Idade Moderna (1789). Na realidade, as ideias de Lamarck, encontradas no livro “Philosophie Zoologique”, onde o autor expõe seu pensamento e apresenta seus argumentos evolucionistas (a transmutação das espécies ao longo do tempo), só foram publicadas em 1809. Quer dizer, nossa civilização ocidental só começou a tomar contato com as ideias evolucionistas a pouco mais de 200 anos.

Quer dizer, para nós ocidentais, Evolução é realmente uma maneira nova (diferente da que existia) de pensar e que só se tornou possível a partir do rompimento com certos pressupostos, oriundos de pensamentos religiosos. Por outro lado, ao que parece, o evolucionismo também passou a ser mais admitido em decorrência de novos pensamentos religiosos. Engraçado e curioso o fato de que, enquanto existem religiões que se antagonizam fortemente com as ideias da Evolução Biológica, em contra partida existem outras que simplesmente se congregam e até se justificam com as ideias da Evolução.  De qualquer maneira, como tudo que é novo (diferente) assusta, o fato de muitos indivíduos ainda não admitirem a Evolução Biológica não chega a causar estranheza total e nem traz nenhuma grande novidade, porque o comportamento humano é assim mesmo.

A maioria de nós, aqui no ocidente, tem a origem religiosa, principalmente a partir das ideias judaico-cristãs, as quais, desde o início, sempre foram totalmente contrárias à Evolução Biológica e a qualquer preceito evolutivo, haja vista que fomos criados sobre a égide de que: “Deus criou todas as criaturas e fez homem à sua imagem e semelhança, para reinar sobre as demais criaturas”. Nesse caso, o mundo foi produzido (criado) do jeito que está e sempre esteve, por um demiurgo e continuará sempre sendo assim. Obviamente nesse tipo de pensamento fixista, não tem como caber qualquer noção de Evolução Biológica.

Entretanto, as coisas mudaram e algumas religiões, infestadas de preceitos contidos em seitas orientais adentraram o ocidente, trazendo novas (diferentes) ideias. A partir do século XVI, com as viagens transoceânicas, com os descobrimentos e com o nascimento daquilo que hoje se conhece como Ciência Moderna, as coisas começaram a mudar mais acentuadamente. Pretensas verdades das escrituras sagradas do Gênesis caíram por terra. O Cristianismo e o Judaísmo foram questionados e alguns de seus pilares que ainda não caíram, ficaram significativamente estremecidos. O Cristianismo se fragmentou em dois blocos iniciais: o Catolicismo e o Protestantismo e depois o Espiritismo que também se estabeleceu dentro na base do pensamento cristão, embora ainda haja algumas contestações a esse respeito, por parte de alguns cristãos, mas isso não nos interessa neste momento.

A Ciência, por sua vez, cada vez mais incrédula, materialista, implacável e eficaz, na busca do conhecimento e da verdade, foi trazendo novas dimensões ao pensamento humano, demonstrando e comprovando os fatos. Obviamente, ainda não explicou tudo e possivelmente nunca vá explicar algumas coisas, até porque existem situações que não dependem de comprovação científica, pois se constituem em puro ato de fé.  Essas situações são inquestionáveis, até porque ato de fé, sempre será ato de fé e não adianta explicação lógica para quem põe a fé acima da realidade.

Por outro lado, a Filosofia, não pode mais ficar restrita a alguns pensadores do passado e assim novos pensadores surgiram e outros do passado, que estavam esquecidos, porque tinham pensamentos diferentes dos padrões que interessavam aos poderosos, renasceram e ganharam o direito de ter suas ideias postas nas mesas de discussões. Porém, ainda hoje, independente daqueles que assumem o ato de fé, há quem desconfie da verdade, porque, como já foi dito, o ser humano é assim mesmo e se as verdades levam muito tempo para se estabelecerem, certamente elas levam muito mais tempo ainda para se solidificarem.

Enfim, é nesse contexto confuso e cheio de contradições e discordância entre Filosofia e Religião, que em meados do século XVII nasce a Ciência Moderna e no início do século XIX, Jean-Baptiste Lamarck ousa escrever e publicar a sua “Philosophie Zoologique” e aí surge o primeiro texto efetivamente evolucionista, onde o autor defende abertamente a progressão das formas vivas. Lamarck foi o primeiro ocidental a defender clara e abertamente numa publicação, a possibilidade da existência de um mecanismo evolutivo responsável pela origem, desenvolvimento e manutenção da vida no planeta, quando observou e sugeriu que os ambientes impõem necessidades aos organismos que neles habitam. Porém, coitado do Lamarck, por infelicidade e por falta de informação mais consistentes àquela época, ele baseou suas ideias em argumentos frágeis e hoje, sabida e realmente errôneos, que foram: a Herança de Caracteres Adquiridos e a Lei do Uso e Desuso.

Desta maneira, suas ideias foram alvos de inúmeras críticas, algumas dessas críticas originárias de poderosos e conceituados cientistas daquela época, como Georges Cuvier e August Weismann, e acabaram sendo definitivamente derrubadas. Mas, é bom lembrar que foram essas ideias erradas de Lamarck que mantiveram a noção da existência da Evolução Biológica e do evolucionismo sobrevivendo no pensamento humano por mais de 50 anos. O valor de Lamarck e de sua obra, apesar do embasamento errôneo, são fundamentais e incontestáveis a causa evolucionista. Entretanto, a teoria evolucionista só se estabeleceu efetivamente em 1859, quando Charles Darwin publicou a sua obra máxima, “On the Origin of Species”, na qual apresenta novos fatos, novas informações e principalmente um argumento coerente, a Seleção Natural, como base para tentar explicar a Evolução Biológica e ainda considerando que a Seleção Natural consiste na própria necessidade para que a vida tenha continuidade planetária.

Obviamente não preciso mais falar de Darwin e nem de seu livro famoso, porque todos (evolucionistas ou não) já conhecem, haja vista que seu livro é o livro não religioso mais lido no mundo, até hoje. Entretanto, eu quero lembrar que o seu argumento, a Seleção Natural, não é ideia exclusiva sua, porque existe outro pesquisador, menos famoso, pois é quase sempre esquecido dos livros e assim quase nunca aparece nas discussões e nem é muito conhecido da maioria da população, mas que é coautor desse argumento, trata-se de Alfred Russel Wallace. Ambos, Darwin e Wallace “trabalharam unidos” na elaboração e na publicação da Teoria da Evolução através da Seleção Natural.

A partir do momento da publicação da Origem das Espécies, o pensamento evolutivo criou corpo e disseminou-se pelo mundo afora e hoje, a grande maioria dos seres humanos ocidentais e todo o mundo, pensam exatamente como Darwin e Wallace, ou seja, que a Evolução Biológica é um fato que ocorre, porque precisa ocorrer, haja vista que o ambiente “impõe obrigações e exigências” aos organismos vivos (como já havia sido sugerido por Lamarck). Os organismos para sobreviverem necessitam se adaptar as “ações impostas” e assim as modificações vão surgindo naqueles que estão aptos para assumirem essas mudanças, enquanto aqueles que não estão aptos, não se adaptam e acabam perecendo e tudo isso é diretamente controlado e tratado pela Seleção Natural.

A frase acima resume relativamente bem a grande ideia da Evolução Biológica, que hoje é algo praticamente incontestável para a esmagadora maioria dos cientistas sérios do planeta e consequentemente pela maioria dos seres humanos. Entretanto, há necessidade de esclarecer que, na verdade, não existe uma “imposição efetiva”, por isso mesmo as afirmações estão entre aspas, mas mesmo por condições naturais, sempre ocorrem ocasionalmente mudanças no código genético das espécies vivas e aquelas que são benéficas, isto é, que tem significativo valor de sobrevivência para aquela espécie e naquele ambiente, têm forte tendência a serem repetidas e assim são reproduzidas e acabam por se manter.

Ao longo do tempo (cerca de 160 anos), com o progresso popular do pensamento evolutivo, algumas religiões foram se projetando mais e outras foram sendo esquecidas. Dentro do Cristianismo, o Catolicismo, depois de quase 100 anos de resistência, assumiu a ideia evolucionista, com a Encíclica Humani generis do Papa Pio XII, em 12/08/1950, sendo apoiado e promovido pelo Papa João Paulo II (25/10 1996) e recentemente corroborado pelo Papa Francisco (28/10/2014). Entretanto, ainda existem alguns grupos católicos renitentes e resistentes, que ainda torcem o nariz quando alguém os relaciona, ainda que por brincadeira, com macacos. Pois então, esses católicos que fogem aos preceitos doutrinários não deveriam ser considerados católicos verdadeiros, mas essa é outra questão que não cabe ser discutida aqui.

O Protestantismo em suas mais diversas vertentes, ainda não aceita o Evolucionismo e o que é pior, algumas dessas vertentes se embasam em crendices absurdas, além de produzir argumentos contrários fraudulentos, sem nenhuma conotação científica, para tentar derrubar argumentos científicos, o que não faz o mínimo sentido. Desta maneira, a questão que deveria ser tratada de maneira séria, chega ao nível mais baixo do ridículo. Bem, não vou discutir sobre isso, mas a verdade é que não se consegue entender o porquê dessa necessidade quase vital de manter o pensamento criacionista nas religiões protestantes, haja vista que o fato de aceitar o evolucionismo como mecanismo que mantém e diversifica a vida na Terra, não implica em negar a existência de um Deus e muito menos diminui a importância da existência de um ente maior.

O Espiritismo é a única das religiões cristãs que já nasceu com a convicção evolucionista. Aliás, coincidência ou não, Alan Kardec e Charles Darwin publicaram suas obras clássicas na mesma época: o Livro dos Espíritos (1857) e a Origem das Espécies (1859) e essas duas correntes de ideias cresceram paralelamente no pensamento popular.  Ao contrário das outras duas religiões cristãs, o Espiritismo não só concorda com o evolucionismo, como considera a Evolução uma característica preponderante para sua fundamentação.

Estamos no século XXI e a Evolução Biológica hoje é entendida como um fato científico aceito pela maioria das pessoas, mas ainda existem alguns indivíduos que, por crendices, ignorância, questões religiosas, ideológicas ou mesmo por qualquer situação de foro íntimo, não admitem o processo evolutivo e alguns ainda criam os mais diversos argumentos e motivos para tentar explicar essa forma de pensar. Além disso, nós ainda temos muitas besteiras e asneiras escritas em inúmeros livros, mesmo em livros escolares de ciências, porque muitas pessoas ainda não entendem bem essa questão.

Por exemplo, aquela imagem conhecidíssima da “escalada para o progresso”, onde aparecem várias figuras enfileiradas, que vão se transformando, a partir da primeira delas, que é um macaco, até a última, que é um homem moderno. Ora, essa imagem não tem absolutamente nada a ver com a Evolução Biológica, mas muitas pessoas, mesmo algumas pretensamente evolucionistas, utilizam essa imagem como uma maneira para explicar a Evolução Biológica, o que é mais lamentável ainda. Aliás, também existem várias piadas, evolucionistas ou antievolucionistas, que foram desenvolvidas a partir dessa mesma imagem ridícula.

A Evolução só acontece por meio de mutação em organismos assexuados ou por meio de mutação ou reprodução em organismos sexuados. Desta maneira, nenhum macaco vira homem e nem vice-versa, mas a modificação ocasional de alguma forma macaco anterior pode ter produzido um macaco diferente, mas os outros não tiveram necessariamente que desaparecer. Ambos as formas derivadas podem e geralmente continuam coexistindo, vivendo e se adaptando as novas situações e necessidades que lhes são “impostas”.

Assim, o homem não veio do macaco, mas ambos têm um ancestral comum, que permitiu a formação de outros primatas, inclusive da espécie humana. Quer dizer, o macaco e o homem tem a mesma origem ancestral e nesse sentido, somos todos primatas, ou seja macacos, mas “eu não acredito que os atuais macacos estejam preocupados ou se sintam ofendidos com esse fato”, então também não vejo motivo para que os homens tenham tanta preocupação com essa situação ou que fiquem desconfortáveis com isso. Infelizmente a questão real, reside no fato de que a maioria de nós ainda acredita que “somos feitos a imagem e semelhança de Deus” e obviamente Deus não pode ser uma macaco.

A “escalada para o progresso” não é a única imagem e nem a única besteira que está por aí impressa nas informações referentes à Evolução Biológica, porém certamente é a mais conhecida e esse tipo de coisa precisa ser combatido para que sejam esclarecidas as situações conflitantes. A Evolução Biológica não é um programa que caminha numa direção de progresso, a Evolução Biológica é uma situação de tentativa e erro, em que as espécies se ajustam (adaptam) aleatória e ocasionalmente em função das diferentes possibilidades que estão ambientalmente estabelecidas, buscando assim, a melhor maneira de viver no local em que se encontram.

O que dá certo, isto é, aquilo que tem valor de sobrevivência maior para a espécie, tende a ficar e se manter e o que não dá certo tende a continuar se modificando. É isso mesmo, a Seleção Natural, como o nome diz, seleciona naturalmente aqueles que possuem as melhores condições para aquela situação naquele momento, no entanto as coisas estão sempre mudando, inclusive a base física muda por condições climáticas e geomorfológicas. Assim, o que está bom hoje, pode não estar bom amanhã e as espécies que obviamente querem continuar vivendo têm que estar sempre se adaptando, por isso a Seleção Natural também está sempre agindo. Em suma, a Evolução Biológica é o resultado da melhor tendência num dado momento e isso não tem necessariamente um padrão ou uma ordem progressiva, cada situação diferente pode produzir um caminho diferente.

Na Evolução Biológica não existe determinismo, não é uma coisa programadamente dando outra melhor, a Evolução Biológica é uma coisa tentando uma condição de viver em melhores condições e que não está obrigatoriamente determinada de ser algo progressivamente melhor, dentro de uma linha de orientação continua. A melhora adaptativa, não tem que significar obrigatoriamente uma melhora morfológica, fisiológica, estrutural, comportamental ou coisa parecida. A melhora adaptativa é apenas uma questão de ajuste, orientado pela Seleção Natural, que nunca para de acontecer, porque sempre é possível modificar alguma coisa num determinado lugar e se estabelecer de maneira mais adaptada e isso é continuo em todas as espécies do planeta, inclusive em nós, os seres humanos. Alguns desses ajustes, quando vantajosos, são repetidos (reproduzidos) e acabam por se fixarem e outros não.

Não é possível, de antemão, afirmar como a Evolução Biológica vai se portar, ou seja, para que lado ela vai ou que resultado ela vai produzir. A única certeza que se tem é que, mais cedo ou mais tarde, mudanças sempre irão naturalmente ocorrer com os organismos vivos, porque a Seleção Natural é imperativa e terminante. Os seguidores das religiões ocidentais, principalmente aqueles das várias vertentes do Protestantismo, precisam assumir a realidade evolutiva e entender que Deus independe da Evolução, mas negar a realidade científica nos tempos atuais é, no mínimo, um contrassenso que as pessoas, independentemente religiões que sigam, não precisam cometer.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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11 ago 2016

A Monotonia e Perigo das Monoculturas

Resumo: O texto atual faz uma comparação genérica e levanta um alerta para a questão perigosa do crescente aumento e áreas de monocultura e da redução progressiva das áreas naturais.São destacados alguns dos principais problemas que se originam dessa situação e também são citadas algumas questões preocupantes em relação ao assunto, como a preocupação exclusiva com o aumento da produção agrícola e o uso indiscriminado de agrotóxicos, que compromete o ambiente e os organismos.


A MONOTONIA E O PERIGO DAS MONOCULTURAS

Quem já esteve no interior de uma mata natural e no interior de uma Monocultura, quaisquer que sejam, além da monotonia da paisagem na monocultura, certamente também conseguiu perceber que não são apenas dois ambientes distintos. Na verdade, a diferença que se estabelece entre uma área de monocultura e uma área de mata natural é imensa. São efetivamente dois mundos extremamente distintos e a discrepância entre esses mundos é semelhante àquela que ocorre da água para o vinho. Embora ambos sejam ambientes vegetados como duas formas de florestas, assim como a água e o vinho são substâncias líquidas, mas os componentes presentes em cada um deles, nos permitem concluir que o vinho é mais denso, mais complexo e consequentemente mais completo e mais organizado que a água.

A monocultura e a mata natural apresentam claras diferenças na complexidade, na conformação e na organização, em consequência do enorme hiato entre a biodiversidade de ambas. A fauna e a flora tanto quantitativa, quanto qualitativamente são extremamente distintos. Além disso, o piso (chão) é diferente, a temperatura média é diferente, a umidade relativa é diferente, o cheiro é diferente e até mesmo o humor das pessoas dentro de cada uma dessas áreas vegetadas fica diferente.

Na monocultura praticamente não existe nenhuma diversidade, pois tudo é muito semelhante. A pessoa anda, anda, anda e parece que que não saiu do lugar, porque a paisagem é sempre a mesma. Enquanto que na mata natural (qualquer mata natural), a pessoa não consegue dar nenhum passo sem observar coisas e situações extremamente distintas. A riqueza de biodiversidade numa mata natural, por menor que seja, é imensa, se comparada a qualquer monocultura. Principalmente quando se trata de uma região tropical como a nossa.

Entretanto, além da observação desses aspectos puramente visuais e também dos sensoriais, que talvez sejam menos atraente e perceptivos, a monocultura traz inúmeros outros problemas, os quais são muito mais sérios ao ambiente e necessitam ser informados e discutidos em alguns de seus detalhes, para que possam ser progressivamente minorados e sanados.

Por exemplo, o solo que suporta uma monocultura tende a ser fraco e estar viciado, porque sempre sofre exploração dos mesmos recursos básicos (nutrientes) ficando cada vez mais carente desses nutrientes específicos e consequentemente sobrecarregado de outros. Com o passar do tempo, periodicamente o solo da monocultura necessita ser arado e adubado para garantir sua fertilidade, a manutenção do cultivo e a consequente produção. O custo de manutenção desse solo é muito caro.

Por outro lado, os insetos e demais animais que, por ventura, vivem na região dessa determinada monocultura, são sempre os mesmos e quando, por qualquer motivo, não são os mesmos, as formas diferentes que aparecem acabam se tornando pragas terríveis, porque não existe competitividade com outras espécies, haja vista que a variabilidade de espécies é muito pequena nesse tipo de ambiente. Praticamente não existe biodiversidade e assim, o ambiente da monocultura como um todo é frágil e sempre está perigosamente sujeito ao desequilíbrio e ao extermínio, pois basta apenas um pequeno deslize para que esse ecossistema artificial acabe rapidamente.

Já nos ambientes com matas naturais, o risco de extermínio natural é praticamente inexistente e só poderá ocorrer por conta de situações catastróficas naturais muito severas, haja vista que a própria biodiversidade desse tipo de ambiente sempre garantirá a sobrevivência de algumas espécies e a manutenção de parte do ambiente primitivo, o qual poderá se regenerar e se recompor ao longo do tempo. Quanto mais diversificado for um determinado ambiente, certamente maior também será a sua vitalidade. Por isso mesmo, os ecossistema naturais são mais resistentes do que os artificiais e essa resistência é, em grande parte, uma consequência da própria biodiversidade do ecossistema.

Mas, ao longo da história da humanidade, o homem, em sua ação usurpadora e colonizadora dos ambientes naturais, tem transformado ativamente muitos ambientes naturais em áreas de monocultura, de maneira perigosa e comprometedora à capacidade de suporte dessas áreas e isso tem se repetido em todo o planeta, por conta da necessidade cada vez maior de novas áreas de monoculturas. Como a população humana não para de crescer, as necessidade de recursos naturais para alimentação, construção e outras atividades produtivas de interesse exclusivo da humanidade são progressivamente mais necessárias.

Além disso, não sei explicar o motivo real e penso que não ninguém que saiba explicar fora de um contexto econômico, mas, independentemente da necessidade real, sempre se trabalha no sentido de uma produção maior do que de fato se precisa. Assim, novas áreas estão continuamente sendo transformadas em áreas de monocultura para a produção. Cabe ressaltar ainda que, para que a produção seja garantida, existe também a necessidade de que vários tipos de venenos (Agrotóxicos) sejam colocados diretamente sobre a cultura ou sobre o solo onde a mesma está se desenvolvendo, no sentido de impedir ou controlar a ação de possíveis pragas.

Em suma, a monocultura é ruim e nociva por vários aspectos concomitantes, pois enfraquece e envenena o solo acabando com a diversidade de microrganismos, homogeneíza a demanda de nutrientes e assim esgota certos recursos rapidamente. Além disso, a monocultura empobrece toda a biodiversidade área, pois os animais em geral tendem a desaparecer do local, porque com a mudança drástica da vegetação, também diminuem sensivelmente as possibilidades alimentares. Somente as espécies de animais relacionadas com a monocultura conseguem se manter, o que também homogeneíza a fauna.

Se não bastasse isso, com essa homogeneização da fauna na monocultura, as espécies consideradas pragas tendem a produzir resultados mais significativos aos seus interesses, em detrimento da própria monocultura que se quer explorar, porque não existindo competição e quase nenhum inimigo natural ou predador dessa espécie, ela tende a se multiplicar mais ainda. O resultado disso é a necessidade de aplicação de mais veneno na cultura para evitar que as populações de pragas aumentem, o que seleciona ainda mais as formas resistentes, contamina mais o solo e consequentemente a água.

O Brasil é lamentavelmente já faz algum tempo, o “campeão mundial no uso de agrotóxico” e continuamos crescendo no consumo dessas substâncias, envenenando cada vez mais novas áreas e nos intoxicando paralela e progressivamente. É nesse momento que surgem os contrários e questionam: “mas, sem as monoculturas nós não conseguiremos viver, sem elas, como

vamos produzir a madeira, o alimento, o papel, as essências, as coisa em geral que tanto necessitamos”?

Bem, eu quero dizer que que isso infelizmente ainda é uma verdade. Nós ainda precisamos muito de algumas monoculturas tradicionais, mas essa situação pode e deve ser modificada gradativa e progressivamente, se houver interesse de se investir pesadamente em Agroecologia, em Silvicultura Natural e em Cultivo Orgânico. Enfim, investir em Economia Verde. É óbvio que nossa dependência do atual modelo ainda é muito grande, mas já está bem claro que esse modelo nos levará seguramente a estagnação dos solos e ao fim dos ecossistemas naturais. O pior é que levará também, ao envenenamento da água, das pessoas e de grande parte dos animais, principalmente dos grandes predadores, aqueles que ocupam o topo das Cadeias Alimentares nos diferentes ecossistemas, por conta da Magnificação Trófica.

Não será possível desintoxicar todas as pessoas e animais já intoxicados, mas é possível intoxicar cada vez menos e garantir o aumento gradual da fertilidade dos solos, manter a diversidade dos microrganismos e contaminar menos as águas. Já possuímos conhecimento tecnológico suficiente para produzir quase sem poluir, mesmo em larga escala. Só precisamos mudar o modelo, que só pensa na produção quase exclusivamente, como fonte de lucro e não como necessidade social humana e muito menos como garantia de continuidade dos ecossistemas naturais. Temos que programar uma forma de produção embasada no conceito de sustentabilidade no seu sentido mais estrito. Isto é, o futuro da espécie humana tem que ser garantido pelas populações do presente.

Apesar de tudo, ainda assim continuarão existindo determinadas culturas agrícolas em que serão necessárias as aplicações das práticas tradicionais em algumas situações e em alguns lugares. Nessas situações, enquanto não for possível empregar novas tecnologias específicas, obviamente deverão ser mantidas e desenvolvidas algumas atividades da tecnologia agroecológica já conhecidas, como rotação de culturas, adubação verde e as áreas de plantios intercaladas com áreas “in natura”, para minimizar os danos e as sequelas. Certamente levará algum tempo para recuperar o passivo ambiental, mas com o desenvolvimento de trabalho sério, continuidade e perseverança, vamos chegar lá.

Até levamos pouco mais de 150 anos de uso dos agrotóxicos, se levarmos o dobro ou mesmo o triplo desse tempo para recuperar algumas áreas envenenadas e principalmente, se deixarmos de envenenar novas áreas, certamente já terá valido à pena. A natureza não precisa de nossa colaboração mais efetiva, se indicarmos a direção devida e o sentido desejado, a natureza seguirá no caminho do nosso interesse corretamente. Até aqui, nós temos atuado contra a natureza, mas a partir de agora temos que andar do seu lado.

As gerações futuras desde já agradecem a nossa consideração e preocupação. Só garantiremos a manutenção biodiversidade natural, se pararmos de degradar, de poluir, de contaminar e em particular, se trabalharmos com afinco para minimizar as monoculturas e o uso de agrotóxicos. Dizem que o futuro a Deus pertence, mas é preciso trabalhar na linha certa, porque milagres só acontecem com quem acredita neles. Precisamos urgentemente, fazer a nossa parte. Tenho certeza que Deus estará olhando e cuidando do restante.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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23 jul 2016

“COBRAS” QUE NÃO SÃO OFÍDIOS

Resumo: O texto atual traz pequenas descrições e imagens de alguns animais morfologicamente parecidos com Ofídios (cobras ou serpentes) e que até são conhecidos da população como se fossem cobras verdadeiras, mas que na realidade não são Ofídios. O objetivo do artigo é tentar minimizar ou mesmo evitar as confusões entre as verdadeiras cobras e esses animais.


“COBRAS” QUE NÃO SÃO OFÍDIOS

Os Ofídios constituem animais Vertebrados pertencentes a Classe dos Répteis, da Subclasse dos Escamados, vulgarmente conhecidos por cobras (serpentes), que se caracterizam por apresentar o corpo coberto por escamas ósseas envolvendo o corpo, assim como os seus primos os Lacertílios (lagartos), dos quais se diferem pela presença do palato quadrado que permite uma impressionante abertura bucal. Os Ofídios apresentam um corpo alongado, geralmente sem patas, que se locomove através de ondulações oriundas das fortes contrações da musculatura associada à grande coluna vertebral, na qual se ligam uma infinidade de costelas. Habitam os mais diversos ambientes terrestres e aquáticos e são naturalmente adaptados como animais predadores.

A dentição é, talvez a principal característica dos Ofídios, porque embora todas as serpentes sejam venenosas, é a partir da dentição que pode se considerar se uma serpente peçonhenta ou não. As serpentes peçonhentas são aquelas capazes de inocular o veneno diretamente e é somente com essas que devemos ter cuidados especiais. Existem quatro padrões de dentição: áglifa (sem dente inoculador de veneno), opistóglifa (dente inoculador posterior), proteróglifa (dente inoculador anterior e sulcado), solenóglifa (dente inoculador anterior e canalizado).

Os dois primeiros tipos envolvem serpentes que não têm como inocular veneno e assim não são consideradas perigosas e a grande maioria das cobras pertencem a esses grupos, particularmente o segundo. Os outros dois grupos envolvem as cobras que efetivamente oferecem perigo. As proteróglifas compõem o grupo das corais e najas, que apresentam dente inoculador pequeno e com uma calha externa por onde escorre o veneno durante a picada. As solenóglifas compõem o grupo das cascavéis, jararacas, urutus e jararacuçus, que apresentam dente inoculador grande e com um canal interno por onde passa o veneno durante a picada. Desta maneira, a eficiência das solenóglifas e maior que a das proteróglifas na introdução do veneno, mas isso não quer necessariamente dizer que suas toxinas sejam mais ou menos perigosas.

Os Ofídios lamentável e injustamente são, assim como outros animais pouco conhecidos, historicamente muito perseguidos pela maioria das pessoas, as quais por conta exata do desconhecimento, se limitaram a mata-los sem nenhum constrangimento. Atualmente essa carnificina tem diminuído, mas ainda existe muito desconhecimento e muita crendice sobre a realidade das serpentes e isso acaba complicando inclusive outros animais parecidos com serpentes. Esse artigo pretende tratar exatamente sobre esses outros animais que são confundidos com as serpentes e acabam sendo vitimados também por puro desconhecimento da população. Se matar as serpentes, pelo simples fato delas serem serpentes, já é um grande erro, então matar outros animais apenas por serem parecidos com elas é um absurdo muito maior.

OS DIVERSOS ANIMAIS ASSEMELHADOS ÀS SERPENTES

Como foi dito acima, existem vários animais que se assemelham morfologicamente com serpentes e por conta dessa “infeliz” semelhança, acabam sendo vitimados pelas pessoas e nesse artigo existe a pretensão de tentar esclarecer sobre essas situações e assim evitar, ou pelo menos minimizar, que se continue matando alguns desses animais indevida e indefinidamente. Se as serpentes merecem viver, mesmo sendo serpentes, certamente os demais animais também.

Tenho dito em minhas aulas, palestras e mesmo em alguns de meus textos que: “a ignorância (o desconhecimento) é o maior dos males da humanidade”. No caso em questão, em função das diferentes fobias que as pessoas podem apresentar em relação às serpentes, o nível da ignorância acaba produzindo inúmeros crimes contra a fauna, contra a natureza e contra a vida. Desta maneira, entendo que existe necessidade de explicar um pouco mais sobre essa questão.

Os animais que são perecidos com serpentes podem pertencer a diversos grupos zoológicos, pois podem ser desde anelídeos até mesmo outros répteis. O medo das serpentes é tal que, de maneira geral, quando uma pessoa observa qualquer animal de corpo alongado e ápode (sem patas), automaticamente imagina que se trata de uma serpente e, obviamente uma serpente peçonhenta, e assim a preocupação é imediatamente matar o animal. Entretanto, se as pessoas se derem o direito de, mesmo de longe, tentarem observar esses animais, certamente poderão identificar inúmeras diferenças entre eles e as verdadeiras serpentes e assim não precisarão mata-los.

Os diversos animais que se assemelham às serpentes, aqui no Brasil, são os seguintes:

1 – No filo do Nematomorfos existe o grupo dos Gordioideos, que se compõem de espécies de vermes parasitas de Artrópodes, principalmente Insetos e Crustáceos, que vivem na água doce ou na proximidade de ambientes hídricos. Os hospedeiros ingere os ovos dos Nematomorfos e as larvas se desenvolvem até atingirem o estágio jovem, quando saem através da abertura anal dos hospedeiros. Os hospedeiros morrem e a partir de então os Nematomorfos assumem a vida livre nos ambientes aquáticos, mas essa é uma vida curta, porque seu trato digestivo e atrofiado e praticamente vivem da reserva alimentar que trazem do hospedeiro, tendo tempo apenas para reproduzir e depois morrem.

Esses animais são conhecidos como “cobras-de-cabelo”, porque seu corpo longo (podem atingir 1 metro de comprimento) e fino (cerca de 1milímetro de espessura). De fato eles se assemelham aos fios da crina dos cavalos e a crendice popular imaginava que na verdade eram originados diretamente delas, Além disso, a crendice também sugere serem animais perigosíssimos e extremamente venenosos, o que obviamente não é verdade, pois são totalmente inofensivos.

[caption id="attachment_1100" align="alignleft" width="300"]figura 1 FIGURA 1[/caption] [caption id="attachment_1099" align="alignright" width="251"]FIGURA 2 FIGURA 2[/caption]


As figuras 1 e 2 apresentam dois exemplares de Nematomorfos do Gênero Gordius, na figura 1 observa-se uma animal adulto e na figura 2 um animal saindo pelo ânus de um grilo.

2 – No filo dos Anelídeos existem os Oligoquetos gigantes da família dos Glossoscolecídeos (os Minhocões ou Minhocuçus), que são animais exclusivos da América do Sul. Algumas dessas minhocas gigantes podem atingir 2 metros de comprimento e embora sejam totalmente inofensivos e não pareçam nada com cobras assustam aos menos avisados. As Minhocuçus são animais terrestres encontrados geralmente enterrados em galerias em locais úmidos, apresentam um corpo todo anelado e mole, com uma região diferenciada evidente (Clitelo), que guarda seus órgão reprodutivos. Tem uma cutícula externa fina, mas não existem nenhumas escamas e também não possuem nenhum tipo de estrutura esquelética, sendo portanto animais ainda invertebrados.

[caption id="attachment_1102" align="alignright" width="215"]figura 4 FIGURA 4[/caption] [caption id="attachment_1101" align="alignleft" width="229"]figura 3 FIGURA 3[/caption]

                        

 


As figuras 3 e 4 apresentam dois exemplares de Glossoscolecídeos (Minhocuçus).

3 – No Filo dos Cordados, na Classe dos Peixes, existem os Sinbranquídeos (Muçuns) e os Gimnotídeos (Tuviras), os Murenídeos (Moreias) e os Anguilídeos (Enguias).

Os Muçuns (Peixes-Cobras) são encontrados na água doce, não possuem as nadadeiras pares características dos peixes e têm pele lisa e sem escamas. As Tuviras também são peixes ósseos de agua doce, que também têm a pele lisa e uma longa nadadeira anal. A esse grupo pertence o famoso “Poraquê” (peixe-elétrico) da Amazônia. O movimento serpenteante é a característica mais chamativa na comparação desses animais com Ofídios, mas as diferenças são bastante fáceis de identificar.

As Enguias e as Moreias são peixes marinhos de corpo assemelhado aos muçuns, que algumas pessoas confundem com serpentes. Na verdade existem serpentes marinhas realmente perigosas, mas aqui na Costa Atlântica do Brasil não são encontradas nenhuma dessas espécies de Ofídios marinhos que ocorrem nas regiões asiáticas.

[caption id="attachment_1104" align="alignright" width="300"]FIGURA 6 FIGURA 6[/caption] [caption id="attachment_1103" align="alignleft" width="300"]FIGURA 5 FIGURA 5[/caption]        








 
 
[caption id="attachment_1105" align="alignleft" width="300"]FIGURA 7 FIGURA 7[/caption]
[caption id="attachment_1106" align="alignright" width="300"]FIGURA 8 FIGURA 8[/caption]
 
 
 
 
 
 



As figuras 5, 6, 7 e 8 apresentam, respectivamente, exemplares de Muçum, Tuvira, Moreia e Enguia.

4 – No Filo dos Cordados, na Classe dos Anfíbios, existem os Gimnofionos, da família dos Cecilídeos (Cobras-Cegas ou Minhocões). Esses animais, embora tenham o corpo alongado como o das serpentes, possuem uma anelação característica, que não é encontrada em nenhuma serpente verdadeira e não apresentam escamas dérmicas características dos Ofídios.

[caption id="attachment_1108" align="alignleft" width="300"]FIGURA 9 FIGURA 9[/caption] [caption id="attachment_1107" align="alignright" width="300"]FIGURA 10 FIGURA 10[/caption]






As figuras 9 e 10 apresentam dois exemplares de Cecilídeos (Cobras-cegas).

5 – No Filo dos Cordados, na Classe dos Répteis, na Subclasse dos Escamados, na Ordem dos Lacertílios, existem duas Famílias, os Anguilídeos (Cobras-de-Vidro) e os Anfisbenídeos (Cobra-de-Duas-Cabeças), que apesar de serem até conhecidos como cobras, não são ofídios e sim lagartos ápodes (sem patas). No caso dos Anguilídeos, ainda é possível identificar os vestígios das patas posteriores, mas os Anfisbenídeos são efetivamente sem patas.

O nome Cobra-de-Vidro resulta da semelhança com os Ofídios e da capacidade de quebrar (autotomia) e depois regenerar a parte posterior do corpo nesses animais, o que é muito comum nos Lacertílios. Já o nome Cobra-de-Duas-Cabeças resulta da pretensa semelhança que esses animais aparentemente apresentam entre a cabeça e a parte terminal do corpo, o que efetivamente é um exagero, porque as duas extremidades são bastante distintas.

[caption id="attachment_1112" align="alignleft" width="300"]FIGURA 11 FIGURA 11[/caption] [caption id="attachment_1111" align="alignright" width="300"]FIGURA 12 FIGURA 12[/caption]






As figuras 11 e 12 apresentam exemplares de Cobras de Vidro, destacando-se os vestígios das patas na figura 12.

[caption id="attachment_1110" align="alignleft" width="300"]FIGURA 13 FIGURA 13[/caption] [caption id="attachment_1109" align="alignright" width="300"]FIGURA 14 FIGURA 14[/caption]






As figuras 13 e 14 apresentam exemplares de Cobras de Duas Cabeças, procurando demonstrar a semelhança entre a cabeça e a cauda.

Por mais semelhança que possa existir, é preciso deixar claro todos esses animais são praticamente inofensivos, a exceção do Poraquê, que só existe na Bacia Amazônica e de algumas enguias que podem produzir descargas elétricas e das moreias que podem morder seriamente, que só ocorrem nos mares. Os demais não oferecem qualquer tipo de perigo aos indivíduos da espécie humana e principalmente nenhum deles possui glândula de veneno. Além disso, se for observado atentamente todos eles apresentam características inúmeras externas muito distintas dos verdadeiros Ofídios, basta olhar um pouco mais atentamente que essas diferenças podem ser facilmente identificadas.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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25 maio 2016

Biodiversidade Brasileira, uma questão que precisa de cuidados

Resumo: O texto atual pretende ser um alerta para a população no que diz respeito à Biodiversidade Brasileira e a necessidade de informação sobre essa questão. O Brasil, historicamente nunca se preocupou com o fato de ter a maior biodiversidade planetária e já passou da hora de nos envolvermos mais proximamente com essa situação. É bom saber e lembrar que 1/5 das coisas vivas da Terra estão no Brasil e que isso é um problema da nação brasileira.


Biodiversidade Brasileira, uma questão que precisa de cuidados

Biodiversidade é uma palavra relativamente nova, pois até alguns anos atrás utilizávamos mais a expressão Diversidade Biológica para tratar das diferentes formas vivas da Terra, entretanto o conceito de Biodiversidade é antigo e bem conhecido da comunidade científica e dos interessados na questão, mas essa “nova” palavra expressa claramente significado que se quer abranger, Assim, Biodiversidade diz respeito a inúmera diversidade de organismos vivos existentes no planeta. A palavra Biodiversidade expressa então uma ideia geral sobre as diferentes espécies vivas que compõem todo o contingente de organismos vivos que em algum momento da história evolutiva da vida tenham ocupado a Terra.

Pois então, o Brasil é o país que possui a maior Biodiversidade do planeta, mas nem de longe, nós brasileiros, somos a nação mais preocupada com esse fato, porque a grande maioria da população brasileira não sabe disso e nem tem nenhuma informação sobre o que isso representa. Aliás, ao que parece, infelizmente, nós temos dado cada vez menos importância à Biodiversidade, a qual na verdade, consiste na nossa maior riqueza e a maioria dos brasileiros não tem nem condições de avaliar esse fato. Não sei se isso ocorre por desleixo, por desconhecimento ou por ambos, mas acredito que a falta de conhecimento sobre o tema e sua respectiva importância sejam fatores preponderantes nessa apatia sobre o assunto.

É lamentável afirmar, mas, aqui no Brasil, culturalmente sempre tratamos mal ou fomos indiferentes a nossa natureza e aos valores naturais. Vejam bem nossa postura histórica. Chamamos a mata de mato e esse mato é considerado assustador, feio e degradante, portanto precisa ser destruído. A Mata Atlântica e a Amazônia conhecem bem essa situação de destruição. Achamos nossos animais asquerosos, desinteressantes e preferimos os estranhos à nossa fauna. O coala é lindo e o gambá é nojento! Até mesmo nossa diversidade puramente antrópica (cerca de 220 tribos remanescentes, das mais de 1300 do passado e as 170 línguas ainda existentes) é totalmente desconhecida da imensa maioria da população brasileira. Legal mesmo são os Apaches e os Moicanos, que se danem os Tupiniquins. Enfim, de maneira geral, o cidadão comum não conhece a Biodiversidade, não se interessa e nem é levado a se interessar por ela.

Quando a ONU instituiu oficialmente o dia internacional da Biodiversidade, em 22 de maio de 1992, nós brasileiros ainda não tínhamos muita noção do que o termo significava e hoje, embora já saibamos o significado da palavra, ainda não temos a verdadeira dimensão do que isso implica e da responsabilidade que temos, por sermos abrigadores de cerca de 20% de todas as espécies vivas do planeta. Vejam bem, 20% de tudo aquilo que é vivo no planeta é brasileiro. Isto é, 1/5 das espécies da Terra estão no espaço geográfico brasileiro, aqui na Sub-região Brasiliana da Região Neotropical.

Lamentavelmente não se divulga esse fato e sua importância com a devida frequência e muito menos com a necessária ênfase, para fazer com que a população brasileira assuma uma posição proativa em relação a preservação da Biodiversidade nacional. Pouquíssimos brasileiros estão realmente cientes e envolvidos dessa situação e, aparentemente, cada vez mais esse contingente tem decrescido por falta de informação. Ou seja, nossa Biodiversidade é grande, mas nossa atenção e interação com esse fato é pequena e progressivamente tem ficado menor.

Em outras palavras, eu quero dizer o seguinte: os nossos bisavós, conheciam e se envolviam mais com a biodiversidade brasileira do que os nossos avós, e estes por sua vez, se envolviam mais do que nossos pais e os nossos pais mais do que nós”. Não posso falar dos meus bisavós taxativamente e exatamente, mas posso falar um pouco dos meus avós, dos meus pais, de mim e dos meus filhos. Ou seja, as quatro gerações com que tive contato próximo e acredito que isso permita confirmar a minha tese, de que cada vez mais se sabe menos sobre a nossa Biodiversidade, pelo menos aqui no Brasil.

A maioria das informações que tive sobre diversidade de fauna, flora e mesmo de tribos indígenas, me foram passadas pelos meus avós e pelos meus pais. Aliás, sou amante da natureza por questões “talvez genéticas”, haja vista que meu avô materno e minha mãe são a minha fonte primária de interesse pelos organismos vivos e pela natureza em geral. Embora eu tenha nascido e crescido numa grande cidade, ainda sou do tempo em que a gente andava descalço, mexia na terra, entrava na mata, tomava banho no mar, na cachoeira e no rio. Enfim, fazia todas essas “coisas absurdas”. Pois é, a gente vivia na natureza e aprendia quase tudo com ela, ou, pelo menos, a partir dela. Nossos avós e pais eram apenas para nos esclarecer dúvidas sobre plantas e animais e nos informar sobre os riscos potenciais, que naquela época não eram considerados tão importantes ou tão arriscados quanto hoje.

Assim, vivíamos mais ligados com as coisas naturais e aprendíamos mais com a própria natureza. Conhecíamos os animais e as plantas e fazíamos nossas brincadeiras a partir da nossa realidade natural, embora nunca tivéssemos ouvido falar de Biodiversidade. Confesso até que algumas vezes fazíamos coisas muito erradas, pois degradávamos ambientes e até mesmo judiávamos drástica e penosamente de alguns animais. Entretanto, essa nossa vivência nos ajudava a conhecer e consequentemente aprender relativamente bastante sobre os organismos vivos, que naquela época eram muito mais abundantes e conspícuos do que hoje, por inúmeros motivos que não cabem aqui serem discutidos.

Estudei Biologia e me formei como Biólogo não por acaso, mas porque eu sempre gostei dos organismos vivos, em particular os animais, e porque a grande diversidade e beleza deles, particularmente dos moluscos e suas conchas fabulosas, sempre me atraiu. O tempo foi passando e mesmo os meus filhos já não acompanharam os meus interesses pela natureza e suas formas. Sinto também que progressivamente os meus alunos, mesmo os do curso de Biologia, também estão cada vez mais distantes da realidade natural às suas voltas e cada vez conhecem e identificam menos as formas vivas.  A pouca convivência com a natureza tem afastado o homem da biodiversidade e do interesse por ela. Algumas dessas formas vivas, mesmo hoje, ainda extremamente comuns, a maioria dos alunos diz que nunca viu.

Observaram bem essa frase? Bem, eu vou repetir: “formas vivas, mesmo hoje, ainda extremamente comuns, a maioria dos alunos diz que nunca viu”.  Mas, como nunca viu, se ainda são extremamente comuns? Na verdade, os alunos viram sim, mas como eles não conhecem, não prestaram a devida atenção. As pessoas são incapazes de perceber e identificar o que não é interessante e aí algumas coisas passam despercebidas, porque não são importantes e não têm nenhum significado efetivo para elas. A memória não armazena ou, se armazena, não manifesta aquilo que não é importante e assim certas coisas não são gravadas ou são totalmente apagadas da nossa memória, porque não guardam relação com nada. A memória não tem registro efetivo dessas coisas e assim, elas passam despercebidas, como se simplesmente não existissem.

Vocês perceberam a gravidade dessa última frase? Vou repetir também, para que seja possível caminhar no meu raciocínio: “a memória não tem registro efetivo dessas coisas e assim, elas passam despercebidas como se simplesmente não existissem”. É exatamente isso que tem acontecido conosco, no que se refere à natureza e a Biodiversidade. Nossos valores mudaram, não se observa e não se contempla a natureza, a qual certamente não é mais um valor tão significativo e importante no pensamento coletivo, como foi para os nossos antepassados, por isso progressivamente temos dado menor importância a ela. A natureza não atrai mais como antes. Desta maneira, mesmo ocasionalmente vendo certos coisas e aspectos, não identificamos a grande maioria dessas coisas que a natureza nos apresenta, porque os nossos olhos estão lamentavelmente voltados para outros interesses.

Meus amigos, isso é um grave erro e um grande mal, particularmente num país que tem a maior biodiversidade do planeta e que precisa preservar, estudar e conhecer todo esse material natural. Como podemos fazer para que as pessoas possam agir de maneira diferente e procurem conhecer a Biodiversidade brasileira? Como preservar e proteger aquilo que não se conhece e que não se acha importante? Como é possível fazer com que as pessoas amem aquilo que não conhecem, ou melhor, que nem percebem, porque não dão nenhum valor significativo?

O Brasil tem que promover ativa e efetivamente a sua Biodiversidade e colocá-la no pensamento coletivo da sociedade brasileira, até porque o mundo lá fora sabe o que temos aqui e tem muita gente de olho nesse nosso patrimônio natural, enquanto nós mesmos aparentemente não estamos preocupados e nem interessados nas nossas riquezas naturais. É preciso inverter esse quadro e voltar aos valores antigos. Temos que divulgar e conhecer nossa fauna, nossa flora, nossos índios, nossos biomas naturais, nossas belezas cênicas, enfim, temos que propagandear nossa diversidade natural e destacar nossa condição de líderes mundiais de biodiversidade. Temos que criar mecanismos para apresentar nossa biodiversidade para os cidadãos brasileiros, para gerar uma noção de pertencimento e uma vontade de conhecer e preservar esse patrimônio na população brasileira.

O mundo hoje é quase totalmente tecnológico e eletrônico, por isso mesmo, a maioria de nós, age como máquinas e não sobra tempo para nada, principalmente no que se refere a contemplação da natureza. É claro que existem exceções e alguns abnegados, mas esse número está proporcionalmente diminuindo. Não sou contra os novos tempos e nem contra a tecnologia, ao contrário acho mesmo que a tecnologia é fundamental. Entretanto, a tecnologia é a parafernália instrumental. Isto é, a tecnologia são as ferramentas que deveriam nos ajudar a viver melhor e não pode ser nada diferente disso. Não podemos esquecer da natureza e trocar os valores naturais em prol de bens artificiais. Já inventaram até “bichinhos virtuais”. O pior é que a gente parece mesmo nem se importar com os valores naturais, pois eles acabam mesmo passando despercebidos da maioria das pessoas.

Nossa sociedade mata animais e destrói plantas como se fossem coisas de pouca ou nenhuma importância, porque nossa abundância de formas vivas é tal, que não temos a verdadeira dimensão da Biodiversidade brasileira e de seu significado para o Brasil. É preciso mudar esse quadro e construir uma nova visão que traduza para a nossa população a realidade de que a Biodiversidade brasileira é a maior riqueza nacional e que ela pode levar o país ao auge do desenvolvimento sustentável, muito mais facilmente do que pode ser imaginado no senso comum. A sociedade brasileira precisa estar engajada e inserida no contexto de que precisamos conhecer e preservar a nossa biodiversidade, até para que o Brasil possa tirar os devidos proveitos que ela permitir.

Nós Biólogos e Professores desse país temos uma obrigação maior na realização da tarefa de informar sobre a Biodiversidade à população brasileira, porque nós somos, por um lado, os geradores desse conhecimento e por outro, também os porta-vozes que deverão leva-lo, de maneira clara, comunidades. Para tanto precisamos estar devidamente capacitados sobre o que é a nossa Biodiversidade e sua verdadeira importância. Por conta disso, é necessário e urgente voltar a escrever sobre nossa natureza, para que nossas crianças, nossos jovens e nossos atuais e, principalmente, futuros professores fiquem interessados em conhecer melhor nossos recursos naturais e nossa biodiversidade.

No passado, alguns cientistas e divulgadores das ciências, como EURICO de Oliveira SANTOS, Cândido Firmino de MELO LEITÃO, RODOLPHO Von IHERING, CARLOS Nobre ROSA, José CÂNDIDO de Melo CARVALHO, AUGUSTO RUSCHI e também alguns outros escritores, como o próprio José Bento Renato MONTEIRO LOBATO e tantos outros que fizeram seus trabalhos famosos divulgando a natureza e assim os jovens liam e aprendiam sobre a Biodiversidade brasileira, mas isso ficou lá trás. Hoje, existe necessidade de que esse mecanismo de contar histórias e descrever a natureza seja renovado e ampliado para que a Biodiversidade brasileira não seja esquecida e permaneça inserida no pensamento comum de toda sociedade brasileira.

Eu, de cima dos meus 60 anos, estou aqui trazendo o meu chamamento, fazendo o meu alerta e dando minha contribuição pela nobre e importantíssima causa. Espero que mais pessoas capazes e envolvidas na questão também se manifestem em prol de chamar a atenção do país sobre a importância de conhecer e proteger a Biodiversidade brasileira.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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