25 nov 2021
A Escola Brasileira, seus Atores Sociais e sua Possível Recuperação

A Escola Brasileira, seus Atores Sociais e sua Possível Recuperação*

Resumo: O texto apresenta uma exposição generalizada sobre a instituição social escolae sugere concretamente algumas possíveis soluções para minimizar a atual situação de degradação que essas instituições vem sofrendo no Brasil e quem sabe melhor viabilizar a educação no país. 


INTRODUÇÃO

Primeiramente é preciso que se discuta sobre o que é exatamente aquilo que chamamos de Escola, suas funções específicas, sua necessidade comunitária e importância social. Para muitos a escola ainda é aquela casa onde ficam os estudantes; para outros tantos, a escola é apenas o lugar, uma casa, para que os alunos, principalmente os jovens, possam aprender; outros ainda acreditam que a escola é uma entidade para orientar e informar as pessoas. Entretanto, todas essas maneiras de pensar estão erradas, porque a escola é uma instituição que se presta a fazer muito mais do que essas pequenas coisas.

A concepção de escola deve ter uma abrangência muito mais ampla e mais significativa no contexto maior da sociedade. Afinal, a escola, é a segunda maior entidade social, vindo logo depois da família, mas diferente dessa, a escola não se restringe ao corpo familiar ou ao grupo próximo. A escola vai muito além daquilo que é próximo e busca exatamente demonstrar que existem outras coisas, além daquelas que estão próximas do indivíduo e de sua comunidade.

A escola é uma instituição fundamental das sociedades humanas, suas funções atingem os indivíduos no momento presente e transcendem esse instante, visando também preparar os indivíduos para o futuro. A escola busca a capacidade de integrar os seres humanos às diferentes formas de sociedades no espaço e principalmente no tempo. Sem escola não há sociedade humana verdadeira, embora possa haver um agregado de pessoas, formando comunidades que trocariam aprendizados entre si.  Somente a escola pode conferir e transgredir o limite comunitário e projetar o conhecimento abrangente do mundo e de todas as ações da humanidade.

Deste modo, assumindo tamanho grau de importância, parece incrível, mas tem muita gente, até mesmo dentro das escolas, que ainda não se deu conta do verdadeiro valor desse tipo fundamental de instituição social, que além de tudo é quase uma exclusividade das sociedades humanas, isto é, uma particularidade da espécie humana. Não fosse a escola e as interações humanas que ela permite, talvez ainda estivéssemos bem próximo à vida que tínhamos na idade da pedra. O desenvolvimento social da humanidade é consequência direta e obrigatória da existência da escola e de seu desenvolvimento como instituição social.

Nosso objetivo nesse ensaio é exatamente refletir e demonstrar nosso ponto de vista sobre esse fato importante, discutindo um pouco sobre a questão e referenciando os atores sociais, suas funções e principalmente porque estamos, aparentemente, tão longe da realidade necessária que deveria existir na dimensão efetiva daquilo que se espera da escola.

OS ATORES SOCIAIS DA ESCOLA

Na escola existem 3 tipos fundamentais de atores sociais: o aluno, o professor e o funcionário. Obviamente existem outros atores transitórios e temporários (“stakeholders”), que fazem parte, ainda que indiretamente, da comunidade escola, entretanto, esses outros atores não serão considerados aqui, exatamente porque eles não têm significado imediato e nem ação intrínseca na função precípua de entidade social escola.

O agente principal e o próprio fundamento da escola como entidade social é o aluno, aquele sujeito que a escola quer preparar para ser um indivíduo melhor à sociedade. Pode se dizer que, primitivamente, a escola se desenvolveu única e exclusivamente para servir ao aluno. Deste modo, se não existisse aluno, possivelmente não haveria escola. Pois então, nossa realidade atual, deixa transparecer que o aluno, objeto primário da escola, está cada vez mais desinteressado sobre ela. Vejam bem, o aluno não se interessa pela escola, que existe por causa dele. Em certo sentido, é o mesmo que dizer que a escola está morrendo, porque, como já foi dito, não existe escola sem aluno e se o aluno não quer a escola ela não precisa existir.

Outro ator da escola é o professor, que, embora não seja a causa da existência da Escola, em muitos casos e situações, ele pode ser o ator que justifica a continuidade e o desenvolvimento da escola. O professor é o sujeito que cria as condições para que o aluno possa aprender e se aprimorar na escola e na vida. Assim, cumpre ao professor a tarefa maior de manter a escola ativa e funcionando, porque é ele que pode manter o interesse e o envolvimento do aluno com a escola. Sem professor a escola não funciona, porque não haverá quem oriente o aluno e assim, sem professor a escola também deixa de existir.

A outra categoria de atores, muitas vezes desconsiderada na sua importância, é o funcionário. Aqueles sujeitos que mantém a estrutura operacional da escola e que garantem as condições de funcionamento do prédio escolar, com todas as suas peculiaridades. Obviamente a escola não precisa deles para funcionar integralmente na sua função precípua, mas, por outro lado, se eles não existirem a escola vai definhar progressivamente até acabar. A importância dos funcionários transcende ao interesse primário da escola, mas eles são fundamentais para a continuidade das ações escolares.

Assim, temos nesses três elementos supracitados diferentes graus de importância para que a escola continue existindo e prestando seus serviços à sociedade. Agora vamos discutir sobre esses respectivos serviços, respondendo às seguintes questões: quando e por que a sociedade se viu na necessidade de inventar a escola? Para que efetivamente serve a escola? A escola continua cumprindo sua missão primária? 

FUNÇÕES SOCIAIS DA INSTITUIÇÂO ESCOLA

Acredito que prioritariamente a escola surgiu e se desenvolveu pela necessidade da transmissão dos conhecimentos e consequente aprendizagem de determinadas ações humanas. Desde a Grécia Antiga, já existiam “escolas”, porém ainda não havia uma publicidade da condição escolar. Na idade Média, o aprendizado escolar era para poucos abastados e mesmo os “professores” eram poucos e o ensino basicamente acontecia em casa. Apenas no final do Século XVI, na Europa, é que começou a surgir a prática da educação pública universal e obrigatória. A partir de então, as escolas, como entendemos se multiplicaram, principalmente depois do final do século XVII e durante o século XVIII com o iluminismo.

Essa escola, que é a que existe até hoje, com algumas poucas modificações depois do surgimento da chamada Escola Moderna, no início do século XX, foi criada e desenvolvida com o intuito básico de cinco ações imediatas, além de socialmente interessantes e fundamentais: ensinar o jovem (aprendiz); preparar (construir) um ser humano melhor; criar (desenvolver) o cidadão; formar (produzir) o profissional e socializar (integrar) os indivíduos para a vida em coletividade. 

Imagino, que possa existir aqui e ali, alguns pequenos detalhes e ajustes, mas são as funções da escola até hoje e a meu ver devem continuar sendo. Entretanto, parece estar cada dia mais difícil manter essa condição, porque outros interesses têm falado mais alto e a essência da escola tem sido relegada a segundo plano, pelo menos aqui no Brasil. Suas atribuições infelizmente não aparentam estar condizentes com as prioridades humanas nacionais e assim, cada vez mais, se observa menos a importância da escola em nosso país. 

Temos problemas em todos os níveis, desde o acesso dos alunos e ingresso nas escolas, passando pela formação dos professores e na especificação das atividades dos funcionários. Além disso, a questão dá pouca ênfase, leva ao desinteresse dos alunos, que aprendem coisas mais interessantes fora da escola e mesmo dos professores, que obtém melhor condições de trabalho e subsistência em outras funções. Como as escolas decrescem, os funcionários também são cada vez menos necessários. 

Em outras palavras, as escolas estão ruindo pelo país afora. Quero lembrar mais uma vez que esse é um artigo de opinião e esse é a opinião de alguém que está dentro da escola desde o final da década de 1950, como aluno, e que também têm mais de 45 anos como professor. Ou seja, alguém que viveu (está vivendo) a vida toda dentro da escola. Mas, por que será que isso está acontecendo? Será que é possível voltar aos trilhos? Afinal, o que fazer? 

Será que os Atores Sociais da Escola Brasileira estão cumprindo os seus respectivos e devidos papéis? Será que a Instituição Social Escola, aqui no Brasil, está atuando efetivamente dentro das necessidades estabelecidas pela sua existência? Ou melhor, temos verdadeiramente escola no Brasil? 

Posso estar errado, mas Infelizmente penso que a resposta para ambas as perguntas acima é não. Estamos longe do que deveria ser uma escola em quase todos os sentidos, porque hoje (já faz algum tempo) o aluno deixou de ser o principal objetivo da escola e o professor deixou de ser o principal veículo para desenvolver o aluno. Além disso, os funcionários passaram a ser simples agentes passivos que fazem parte do sistema por mera contingência, apenas compõem o quadro, mas não têm importância para o sistema e só interessam a eles mesmos e assim, se tornaram pessoas de dentro da escola, mas alheias à instituição e seus interesses.

Pobre escola que se acabou por conta do descaso das autoridades, do desinteresse da comunidade próxima e principalmente do desleixo da sociedade em geral. Precisamos voltar às origens e recuperar a verdadeira noção de escola refazê-la na sua essência, como instituição social fundamental à formação e ao desenvolvimento do cidadão brasileiro.

RELACIONAMENTOS SOCIAIS NA ESCOLA

Os diferentes atores sociais da escola se relacionam e esses relacionamentos se distribuem pela sociedade. Existem três níveis de relacionamentos possíveis: “Indivíduo x Indivíduo”; “Indivíduo X Comunidade” e “Indivíduo x Sociedade”. No primeiro caso, as relações podem ocorrer entre: Aluno x Aluno; Aluno x Professor; Aluno x Funcionário e Professor X Funcionário. No segundo caso, as relações podem ocorrer entre: Aluno x Escola; Professor x Escola e Funcionário x Escola. No Terceiro caso, as relações podem ocorrer entre: Aluno x Sociedade; Professor x Sociedade e Funcionário x Sociedade. Vamos comentar um pouco sobre essas relações e seus desgastes na escola brasileira atual. 

A relação Aluno X Aluno ainda é que se mantém mais forte dentre todas as relações. Entretanto ela está enfraquecendo progressivamente, por conta da influência externa à escola sempre crescente, em função da INTERNET das Redes Sociais Eletrônicas virtuais que se multiplicam e são cada vez mais efetivas na aglutinação de pessoas, em especial, dos jovens. Esse fato obviamente traz reflexos nas relações reais, mas, aparentemente, os alunos ainda se relacionam bastante entre si. 

A relação Professor x Aluno, foi a que mais sofreu e com isso a escola perdeu muito. Além do hiato etário, existe também o hiato intelectual, porque os professores de hoje são, em sua grande maioria, carentes de cultura geral e de difícil capacidade de atrair e convencer os alunos. Mas, a questão mais importante não se limita a isso. O que aconteceu de pior é que o respeito e a consideração que não só mantinham, mas que principalmente condicionavam a relação Professor X Aluno foram quase totalmente perdidos.

Infelizmente, pelas mais diversas razões, a figura do Professor não é mais vista como fora outrora, nem pelos alunos e muito menos pelos pais dos alunos. Aquela figura culta que estava preocupada com a educação e com a formação dos jovens e que tinha apoio quase incondicional dos pais, lamentavelmente quase não existe mais. Os filhos superprotegidos tomaram o lugar de qualquer boa intenção dos professores. O professor hoje é visto com um profissional de segunda categoria, que não serviu para outra coisa melhor e que por acaso está naquela escola ministrando aulas para o “meu filho”. Esse fato, aliado a algumas leis absurdas e bestiais, que limitaram o exercício da autoridade do professor, acabou com a liderança e o respeito na maioria dos casos. Muitas aulas são verdadeiros antros de tudo que a escola não deveria possuir, ou melhor, daquilo que deveria combater. O pior é que, cada vez mais, se faz vista grossa desses erros.

É claro que há exceções boas e efetivas, mas é preciso mudar algumas tendências e condições para que possa retornar à situação anterior. Mas, o tempo passa e isso parece ficar cada vez mais difícil. O que se vê é professor sendo agredido por aluno e vice-versa, além de também existir inúmeros professores abandonando a escola e o magistério por causa de aluno e alunos abandonando a escola por conta de professor. A intolerância, oriunda principalmente da falta de respeito, das duas partes, é a característica maior nas relações, que estão realmente muito estremecidas. 

A relação Aluno X Funcionário que sempre foi a mais frágil, hoje praticamente não existe, porque os alunos entendem que os funcionários são seus empregados e tudo tem que acontecer a tempo e a hora. O conflito é muito grande. No que tange aos professores e funcionários a situação também caminha para um colapso, porque os funcionários se sentem humilhados e os professores também e assim, a situação fica bastante desagradável. Ainda existem bons relacionamentos, mas eles são muito supérfluos e frágeis. 

Desta maneira, a relação de ambos, alunos, professores e funcionários com a escola, a comunidade escola está muito ruim e o que deveria caminhar para o paraíso, está muito próximo do inferno. Alunos, professores e funcionários se tropeçam, se suportam, se aturam e convivem na escola, na maioria das vezes, apenas e tão somente, por contingências ocasionais ou por conta da obrigação. Na verdade, acabaram com a escola e esqueceram que a ela era um local de EDUCAÇÃO. Isto implica no fato de que a comunidade escola está muito indo de mal a pior. 

Ora, se a comunidade escola, está nessa condição péssima, a sociedade onde ela está inserida não pode estar tendo benefícios com sua presença e atuação. A sociedade que, em certo sentido, dependente das comunidades escolas está perdida, porque não tem mais o respaldo social que a escola deveria fornecer. Nem mesmo a função fundamental de apenas ensinar está sendo realizada a contento.

Alunos entram e saem da escola de Ensino Básico analfabetos e depois chegam e às vezes saem das faculdades ainda analfabetos. O pior é que depois disso, muitos vão ser “profissionais” nas mais diversas áreas e alguns até serão “professores”. O sistema parece que apoia essa situação lastimável, porque muito pouco tem sido feito para tentar frear esse quadro e quando se tenta fazer algo de positivo, a mídia entra em cena para manter o “status quo”. A situação está realmente periclitante e infelizmente, parece estar caminhando para a insolubilidade. 

Pois então, a Sociedade brasileira, por várias causas, está doente, mas certamente uma dessas causas e talvez a mais importante delas é o fato de que A ESCOLA BRASILEIRA ESTÁ DOENTE e piorando progressivamente. Outras instituições sociais e outros interesses tornaram a escola um lugar que não se justifica mais, dentro do objeto de sua criação, porque hoje ela tem sido quase tudo, menos escola. Obviamente, estou me referindo a ideia real e efetiva de uma escola e é lógico que existem exceções, mas infelizmente são exceções, quando deveriam ser a regra. E aí, eu pergunto: como podemos nos preparar para mudar a escola e torná-la novamente numa escola?

PROPOSTAS DE SOLUÇÕES

Bom, mas é óbvio que devem existir soluções e vou até me atrever aqui a citar algumas delas, correndo o risco de ser tachado como louco ou como coisa pior. Mas, se quando jovem, eu já não tinha preocupação em agradar a todos, na minha idade atual é que isso não vai fazer nenhum sentido para minha pessoa. Penso que as soluções existem e são extremamente simples, elas requerem apenas um pouco de boa vontade, além de interesse efetivo e determinação em melhorar e educação no país.

Proposta I

A meu ver a coisa só vai começar a funcionar quando voltar a autoridade do professor e para isso é simples, basta rever, SEM DEMAGOGIA, a legislação e devolver o direito dos professores e dos alunos, sem qualquer benefício de qualquer parte ou setor, por qualquer interesse externo à própria escola como instituição. Aluno é aluno e professor é professor, não importa quem, onde ou como. Se fez tanta concessão que o professor não pode nada e alguns alunos podem tudo, inclusive impedir o professor de tentar ministrar a sua aula. Ora, isso é mais que absurdo, mas está é a realidade imperante e precisa deixar de ser. 

Aluno que não quer aprender não precisa vir na escola e pai de aluno não pode de maneira nenhuma ter poder dentro da escola, além daquele que lhe é pertinente como pai. Isto é, seu poder se limita aos seus filhos e isso não pode lhe permitir interferir nas questões escolares. Se não concorda com o que a escola faz, coloque seus filhos em outra escola, mas a escola não pode ficar mudando para atender a interesses de pais. A escola já tem muito que se preocupar e não pode se preocupar com questões externas.

Não quero voltar à palmatória ou a ficar de joelho no milho, mas é preciso estabelecer a ordem na escola e a hierarquia do trabalho. O aluno tem de seguir algumas normas estabelecidas e não pode fazer o que quer e obviamente o professor também não. A escola envolve alguns compromissos de ambas as partes, que são fundamentais e precisam ser cumpridos para o bom andamento das atividades escolares e do processo ensino-aprendizagem. A libertinagem que acabou sendo implantada nas escolas favorece a desordem de ambos os lados e isso não é bom para a escola e assim, também não pode ser bom para a sociedade. 

Proposta II

Lembrar que na escola existe uma ordem a ser mantida para o bem de todos e que esse ordenamento é o que justifica e projeta os fundamentos da escola com entidade social. Esses fundamentos, já foram ditos, mas cabe repeti-los aqui para que fique bem claro. São eles: ensinar o jovem (aprendiz); preparar (construir) um ser humano melhor; criar (desenvolver) o cidadão; formar (produzir) o profissional e socializar (integrar) os indivíduos para a vida em coletividade. Se não tomarmos esses fundamentos como obrigação, não há necessidade de ordenamento, mas aí também não faz nenhum sentido a existência da escola. 

Temos que parar com esse negócio de que na Instituição Social Escola pode tudo. Ou melhor, dependendo do momento até pode ser, mas tem que existir ordem. Tudo pode, mas na hora e no local devido, fora disso não deve existir nada que prejudique o bom andamento dos trabalhos escolares. A aula e qualquer atividade pedagógica pode ser alegre e pode ter piada sim, mas não pode fugir do assunto prioritário e virar roda de bate papo, a não ser que a roda de bate papo seja o tema desenvolvido ou a metodologia empregada naquela aula. 

E preciso ficar claro que a escola não é um centro comercial ou um ponto de encontros sociais, onde se pode realizar qualquer coisa que se queira a qualquer momento. Não, definitivamente não. Na escola a prioridade tem que ser o trabalho educacional e se existirem momentaneamente outras situações, essas devem ser ligadas diretamente a esse trabalho educacional para que possam justificar sua existência.

Proposta III

O uso de instrumentos e ferramentas acessórias é útil e fundamental nas aulas, entretanto sua utilidade deve ser apenas e tão somente para fins pedagógicos. Qualquer outra função é inadmissível na escola. Se o pai quer falar com o filho, ele liga na secretaria e não no celular do filho, que deverá estar desligado ou que poderá até estar ligado, porque será utilizado em alguma atividade pedagógica. Essa coisa de aluno e professor ficara atendendo celular dentro da sala de aula para resolver questões particulares tem que acabar. A propósito, isso também vale para jogos e conversas paralelas na sala de aula. 

As ferramentas eletrônicas, cada vez mais comuns, são realmente ótimas e obviamente ajudam muito ao processo ensino-aprendizagem, entretanto não há cabimento em promover, durante as aulas, certas posturas que só prejudicam ao aprendizado, à comunidade escola e consequentemente à sociedade como um todo. 

Nessas alturas, já tem gente dizendo, mas professor, “escola não é quartel”. Eu sei, mas escola também não é circo e nem teatro, isto é, não é local de diversão, embora a diversão possa e deva fazer parte da escola em dados momentos. A essência da escola é séria e precisa continuar sendo. O trabalho escolar tem que ser privilegiado acima de tudo na escola, pelo menos essa tem que ser a ideia básica. 

Proposta IV

Funcionário da escola é colaborador do processo e deve ser tratado com respeito por todos, principalmente pelos alunos que são os que mais precisam dessa colaboração. Mas, os professores também têm que compreender que o funcionário não é dele é da escola e, portanto, sua obrigação é com o trabalho escolar e não com o interesse ou a particularidade desse ou daquele indivíduo. A escola tem que funcionar e isso se deve aos funcionários, mas eles também não são obrigados a fazer mais do que aquilo que têm a obrigação de fazer. 

Os serviços especiais e suplementares podem existir, mas esses serviços são gentilezas e não obrigações, nem para alunos e muito menos para professores ou outros funcionários. A escola é um local de trabalho efetivo. Assim, é preciso fiscalizar alunos, professores e funcionários nos seus respectivos compromissos com a escola e com a educação e quem não está em acordo com aquilo que é pretendido deve ser afastado do contexto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Bem, eu acredito que somente com essas quatro propostas já vai ser possível fazer uma verdadeira “revolução nas escolas”. Mas cabe lembrar, nas escolas públicas o Diretor tem que lembrar que ele é apenas Diretor da escola e não o dono dela, até porque ela é pública e como tal pertence à coletividade. Nas escolas particulares, o proprietário, sendo o Diretor ou não, ele é o dono da escola, mas como dono da escola não pode dar palpites sobre nada na instituição e como Diretor tem que entender que é apenas uma peça administrativa e fundamental que existe na engrenagem, mas não é melhor do que ninguém. Na verdade, o Diretor é um professor com viés de funcionário responsável por questões administrativas específicas e em particular, pelo bom andamento dos trabalhos da escola. 

É preciso entender que comandar, gerenciar, gerir ou administrar a escola é uma função da escola, do Diretor da escola, que deve ser alguém muito bem-preparado para ocupar o cargo e não do proprietário de um prédio. Não é bom que o proprietário e o Diretor sejam a mesma pessoa, porque isso acaba sempre complicando mais a questão, entretanto ainda que essa condição não seja impossível, se me permitem, eu até quero recomendar que o dono da escola nunca seja o Diretor, porque isso certamente trará conflitos de interesse e quem perde é a escola como instituição. 

Vou sugerir que o proprietário contrate alguém para exercer essa função de Diretor e que não faça uso da condição de dono para influenciar nas atividades do Diretor, porque assim haverá muita confusão entre as funções verdadeiras da escola e os interesses pessoais do proprietário. O Diretor tem funções reais na escola, mas o proprietário só tem interesses e se os interesses se misturam com as funções aí é o mesmo que colocar um lobo para tomar conta das ovelhas. Nesse caso, a educação vai se complicar muito mais e a escola não vai funcionar a contento. 

Vejam bem, além da necessidade de mudança na legislação, eu nem me referi aos políticos e administradores, porque penso que a escola tem que existir e cumprir o seu papel como instituição social, apesar e independentemente da existência desses indivíduos. Eles precisam deixar o pessoal da área trabalhar, sem ficar promovendo problemas adicionais. Se eles não atrapalharem, certamente já prestarão um excelente serviço e favorecendo significativamente à melhora educacional e escolar.

Esse país até tem alguns bons políticos e uns deles também são bons educadores, mas é melhor que esses sujeitos não queiram reinventar a roda mais uma vez, porque eles, bem ou mal-intencionados, quase sempre acabam fazendo besteiras. Para os políticos o meu recado é o seguinte, acabem ou melhorem muito (enxuguem o que não faz sentido) com esse maldito estatuto do menor e do adolescente, parem de procurar pelo em ovo e tratem as pessoas, qualquer pessoa, (criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso), independentemente de qualquer aspecto (cor, raça, religião, sexo, condição social) apenas como pessoas, pelo menos dentro das escolas, que deste modo, tudo irá se resolver de forma tranquila e natural. 

Muito se fala de igualdade, alguns até exigem igualdade e muitas vezes com razão. Mas, então, que haja igualdade efetiva nas escolas, porque certamente é isso que está faltando na educação. Na escola não deve haver privilégio. Se todos envolvidos na escola passarem a cumprir suas respectivas funções. Isto é, se aluno for apenas aluno; professor for apenas professor e funcionário for somente funcionário a escola brasileira estará salva e todos nós, cidadãos brasileiros, poderemos voltar nos educar de maneira correta, como antes acontecia. É claro que também haverá necessidade de administradores públicos sérios e com vontade de efetiva de ver o povo brasileiro realmente se desenvolver. 

Peço vênia pela minha ousadia, mas alguém precisa falar essas coisas à sociedade. Quem sabe alguma alma boa e realmente interessada em mudar a cara do país, resolva escutar e tentar fazer o que estou proponho ou alguma coisa parecida, só para ver o que acontece. Tenho certeza de que se, por acaso, isso ocorrer, certamente irá produzir melhoras significativas na escola e na educação brasileira. 

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65) é Biólogo (Zoólogo), Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista

*Artigo anteriormente publicado em https://oblogdowerneck.blogspot.com/2020/12/a-escola-brasileira-seus-atores-sociais-e-sua-possível-recuperação.html, 19 de dezembro de 2020.

15 out 2021
Dia do Professor

Até quando o “Dia do Professor” continuará sendo uma ilusão?

Resumo: O texto traz uma crítica referente a grande farsa representada na comemoração do Dia do Professor aqui no Brasil, em consequência do sucateamento desta profissão e deste profissional, que estão cada vez mais desprestigiados pela sociedade, pelos dirigentes políticos e administradores neste país.  


Mantendo a tradição dos últimos 40 anos, estou aqui mais uma vez trazendo meu artigo para lembrar do Dia do Professor. Como de costume, vou rememorar e lamentar a mesma história de sempre, ou seja, o mal uso da data ou o uso apenas político desta data que deveria homenagear a ilustre profissão de professor. Todo mundo, no mês de outubro, lembra da data do Dia do Professor. No mundo a data é comemorada internacionalmente no dia 05 de outubro, por ato da UNESCO, em 1994 e aqui no Brasil, por força do Decreto Lei 52.682, de 14 de outubro de 1963, a comemoração acontece no dia 15 de outubro.

No resto do mundo eu não sei e nem ouso afirmar nada sobre a comemoração do Dia do Professor, mas, aqui no Brasil, a lembrança da data, na verdade, ao invés de uma comemoração, parece mais um motivo para esquecer, definitivamente, que essa é a profissão mais importante que existe, porque sem ela não existiriam as outras. Deste modo, o profissional da educação e do ensino, o professor, deveria ser o profissional mais respeitado e mais prestigiado de todos. Entretanto, aqui no Brasil, esse fato, além de não ser estimulado como verdadeiro, também está muito longe de qualquer coisa parecida.

Nosso país, além de não prestigiar, como deveria, em absolutamente nada profissão de Professor, também está muito longe de qualquer mérito no que diz respeito às áreas de trabalho do professor, ou seja, a educação e o ensino, nos últimos anos totalmente sucateadas no país. Assim, quando se fala na comemoração do dia professor nesse país, só pode ser pura demagogia, porque na verdade os governos e a sociedade brasileira, costumeiramente, não têm achado nada importante a educação e muito menos a profissão de professor. Aliás, pelo contrário, de maneira geral, a educação tem piorado progressivamente e a profissão de professor, sob todos os sentidos, tem valido menos.

Sou suspeito para falar dessa questão, porque sou professor e me orgulho imensamente de ter exercido essa ilustre profissão ininterruptamente por longos 45 anos (1976 a 2020). Aliás, eu continuaria exercendo, se não fosse exatamente a má vontade o desinteresse efetivo de algumas instituições de ensino do país na educação e o desinteresse particular por aqueles professores que acreditam e defendem a educação e que entendem o exercício da função de professor, deveriam ser prioridade nesse país.

Isto é, ultimamente, por questões outras, que embora injustificáveis do ponto de vista educacional, ainda interferem bastante em muitas instituições de ensino. Dessa maneira, muitas vezes a educação tem trabalhado contra a ilustre figura do professor e consequentemente contra a própria educação. Bem, mas, deixemos isso de lado e vamos voltar ao objeto desse artigo que é o Dia do Professor.

O Dia do Professor, foi criado para lembrar da importância do profissional de educação e de ensino. Embora, por um lado, tenha sido uma tarefa bastante árdua e trabalhosa, principalmente, por conta das dificuldades operacionais e trabalhistas em relação à profissão. Mas, por outro lado, certamente muito prazerosa e gratificante, particularmente quando se tem o devido reconhecimento por parte da maioria dos alunos e o incentivo por parte de muitos colegas de profissão.

Esta data, que deveria ser um marco educacional nacional, apenas tem servido para que os professores demonstrem anualmente o seu descontentamento e a sua angústia quanto à sua situação profissional e quanto ao descaso da educação no país, como eu estou fazendo, mais uma vez, nesse momento. O Brasil, depois de uma série de erros ocasionais e mesmo intencionais dos governos que se sucederam nos últimos 30 anos, só caminhou para trás na área educacional.

Diante dessa situação caótica, o coitado do verdadeiro professor ficou perdido no exercício da sua função e na sua capacidade de reivindicar, porque qualquer picareta passou a ter direito de assumir a condição de professor e com isso, cada vez mais o verdadeiro professor foi desqualificado como profissional. Infelizmente, na atualidade, na situação funcional do professor profissional tem sido possível encontrar de tudo. Deste modo, tem muita gente por aí “ministrando aulas” e “ensinando”, sem nenhuma condição.

Ou seja, o professor verdadeiro, está diluído no meio de outros profissionais e assim as questões profissionais da categoria se dispersaram no contexto. Quando se comemora o Dia do Professor, na verdade se comemora o dia de uma série de outros profissionais que ministram aulas das mais diversas matérias, muitas vezes sem as mínimas condições cognitivas e profissionais. É claro que também há muita gente competente nesse rol, porém a maior parte não está nem aí com a educação, o ensino e com a profissão de professor. É exatamente por conta disso que a profissão de Professor não se fortalece e o Dia do Professor fica cada vez mais lendário.

Não sei até quando o país seguirá nessa tendência de progressivamente acabar com o Professor e não posso afirmar até quando a população brasileira consciente conseguirá aguentar essa triste contingência. Também não sei até quando os verdadeiros professores vão continuar resistindo a esse descalabro, mas tenho certeza de que essa situação necessita ser modificada para o bem do país. É preciso reencontrar o fio da história e voltar a situação de ter a educação como prioridade nacional e o professor como o principal agente profissional do processo de educar e ensinar, para que o Brasil possa chegar ao lugar que merece no cenário internacional.

Se esse fato acontecer com o Brasil voltando a entender que a educação deve ser o fundamento primário de qualquer país, aí sim o professor poderá passar efetivamente a comemorar o seu dia de maneira devida. Caso contrário, continuaremos na nossa hipocrisia, “enxugando gelo” e enganando a população, fazendo festa por uma data que não se justifica, porque ela é uma mera ilusão, que serve apenas para mascarar a triste realidade da educação nacional.

Alguns loucos, dentro os quais eu me coloco, estão reclamando por isto há muito tempo, mas parece que ninguém quer ouvir. Nós, continuamos aguardando que aqueles que detém o poder, parem de discutir inutilidades e que se envolvam efetivamente naquilo que é importante. Por outro lado, esperamos também, que a sociedade passe a se manifestar mais e atue de maneira mais efetiva, exatamente na única questão que pode nos tornar um povo melhor, isto é, na educação.

É fundamental que nós não nos esqueçamos de que existe um profissional específico para essa área de atuação, que é o Professor. Além disso, também é importante considerar que esse sujeito tem que ter as devidas qualificações para exercer o magistério: vocação, conhecimento específico da matéria, cultura geral, didática e capacidade de argumentação. Os picaretas do magistério que estão por aí, algumas vezes até com apoio das próprias instituições de ensino, porque custam menos aos cofres dessas instituições, precisam ser banidos da educação. 

Somente assim, lá na frente, poderemos novamente comemorar, de fato e de direito, o Dia do Professor, porque aí a data terá sentido verdadeiro. Por enquanto, seguimos por aqui, esperando e torcendo para que haja luz na mente dos brasileiros, em especial nas mentes daqueles que detém o poder e dos que atuam como dirigentes das instituições de ensino desse país. A incerteza e a desconfiança com muitos dos profissionais que atuam na Educação, talvez sejam as principais causas da má qualidade do ensino no Brasil e as autoridades precisam estar atentas a esse fato.

A Educação é uma tarefa fundamental para a sociedade e por isso mesmo, deve ser realizada por profissionais capacitados e devidamente habilitados e esses profissionais devem comemorar o seu dia com alegria, entusiasmo e otimismo e não com tristeza, indiferença e pessimismo. Assim, com muita ponderação, eu quero deixar aqui os meus Parabéns aos verdadeiros professores do país por mais uma 15 de outubro: “Dia do Professor”.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista

15 ago 2021

UMA ESPÉCIE SÓ, COM UMA VIDA APENAS, NUMA TERRA ÚNICA

Resumo: No artigo é questionada a postura dos seres humanos em relação ao planeta aos longo do tempo e considerada a necessidade premente de mudança no comportamento humano para que a Terra, que continua sendo o único lugar que temos para viver, possa continuar permitindo a existência da Humanidade. 


Nós humanos, somos uma espécie única, que habita o planeta há cerca de 250 mil anos, um tempo relativamente pequeno, se comparado a outras espécies vivas que também habitam a Terra. Nesse período existiram outros Hominídeos, mas só nós, a espécie Homo sapiens permaneceu.

Milhões de planetas no universo, apenas 9 deles estão no nosso Sistema Solar, mas a Terra, ao que parece, é o único planeta em que a vida se formou e evoluiu. Pelo menos a vida como conhecemos e concebemos. A Terra abriga milhões de espécies vivas, mas o Homo sapiens é uma espécie única, que surgiu entre 300 e 250 mil anos. Um tempo relativamente pequeno, para um planeta com pouco mais de 4,5 bilhões de anos, no qual a vida começou a se desenvolver a mais ou menos 3,5 bilhões e a vida pluricelular a pouco menos de 700 milhões.

Quer dizer, a espécie humana é quase insignificante no tempo geológico da Terra. Entretanto, no pouco tempo de nossa existência mudamos progressiva e drasticamente a fisionomia do planeta, mormente nos últimos 250 anos. Essa mudança foi tão significativa que hoje compromete a própria estabilidade planetária para grande parte das espécies vivas, inclusive e principalmente, a própria espécie humana.

Como qualquer coisa viva, só vivemos uma vez e a única certeza que temos como organismos vivos é que certamente vamos morrer. Aliás, é bom que fique claro, que vamos morrer tanto como indivíduos, quanto como espécie viva, porque a extinção é um processo natural e tudo que existe certamente um dia deixará de existir. Essa é uma regra, uma lei natural, que aprendemos desde cedo: qualquer organismo vivo, nasce e morre.

Porém, para algumas formas vivas o tempo é bem generoso e para outras nem tanto. Por exemplo, os tubarões, estão por aí faz, pelo menos, 400 milhões de anos, enquanto os Hominídeos (seres humanos) estão há apenas 7 milhões. Obviamente muitas espécies de tubarões se extinguiram nesse período, mas ainda existem várias espécies viventes. Mas dos seres humanos, como já foi dito, só sobrou o Homo sapiens, que surgiu muito recentemente.

É claro que não existem regras lineares, nem absolutas para o tempo de vida de qualquer espécie viva, umas formas vivem mais e outras vivem menos, mas certamente o uso dos recursos naturais é um fator importante nessa contagem de tempo. Assim, há de se convir, que historicamente não tratamos bem os nossos recursos naturais, porque 250 mil anos é muito pouco tempo se fizermos uma comparação com a grande maioria das espécies de animais vertebrados existentes no planeta. Nossa postura com a Terra sempre foi predatória e degradadora. Na verdade, nós nunca respeitamos o planeta e as demais espécies vivas.

Só temos uma vida e só temos uma casa, a Terra, onde podemos viver. E por que não cuidamos bem dessas duas coisas: a nossa Vida e a nossa casa (Terra)? Essa é a grande questão, que tem borbulhado na cabeça dos maiores pensadores ao longo da história. Por que o ser humano, aparentemente, não dá a mínima importância para o Planeta e para a Vida?

Tomamos o planeta de assalto, nos assumimos como seus donos e seguimos fazendo qualquer coisa para manter essa condição. Se, por acaso, outros humanos não concordam conosco, então entramos em guerra contra eles (matamos ou morremos deliberadamente) e quem ganha a guerra fica com o lugar que era do outro.

A História humana está cheia de passagens desse tipo. Parece que nós não aprendemos nunca e desta maneira, vamos caminhando, a trancos e barrancos, enquanto o planeta suporta. Mas, ainda assim, nossa espécie se reproduziu rápida e assustadoramente sobre a Terra e ocupamos cada vez mais o espaço planetário.

Verdade é que, da mesma forma que não nos incomodamos, com os outros humanos, também não nos incomodamos com as outras espécies vivas e nunca nos importamos com o planeta. Fomos ocupando e destruindo progressivamente sem nenhuma preocupação com as consequências que poderiam advir dessas atitudes.

Recentemente, apenas nos últimos 50 anos, alguns de nós finalmente descobriram que essa situação não pode continuar nesse ritmo frenético de guerrear, destruir e ocupar, até porque só temos um planeta e tudo, absolutamente tudo, acontece exatamente aqui mesmo. É daqui que tiramos todos os nossos recursos para viver e sobreviver. Do jeito que estamos caminhando não teremos, como espécie, muito tempo de vida pela frente.

Não sei, mas me parece óbvio que, se eu atear fogo na minha casa, ela irá se incendiar e eu não terei onde morar. Então, por que o ser humano está ateando fogo na Terra? Será que somos uma espécie suicida? Por outro lado, o planeta certamente também não “gosta” dos seres humanos e assim, ao se defender das ações maléficas da humanidade, acaba trabalhando para extingui-los o mais rápido possível. Quer dizer, estamos numa “sinuca de bico” e única solução possível é mudarmos de postura e investirmos ativamente em ações que visem as melhoras das condições planetárias.

Somos uma espécie só, temos uma vida só e vivemos no único planeta que permite a vida (pelo menos até onde sabemos). Assim, já passou da hora do ser humano assumir a sua responsabilidade e passar a cuidar melhor da sua vida, entendendo que para cuidar da vida humana é necessário, antes de qualquer coisa, respeitar os demais seres humanos e as demais espécies vivas, além de estabelecer limites para o uso dos recursos e para a ocupação dos espaços físicos do planeta.

Nossa espécie só sobreviverá um pouco mais aqui na Terra, se assumirmos as nossas obrigações planetárias doravante. Os futuros seres humanos, estão esperando que nós cumpramos com nosso dever agora. É bom lembrar que a sustentabilidade deixou de ser balela ou apenas uma maneira de pensar romântica que alguns sujeitos chatos inventaram para incomodar os outros.

Hoje, a sustentabilidade é uma necessidade para que se possa tentar garantir a continuidade da humanidade. Portanto, devemos trabalhar cotidianamente na criação das condições que permitirão a vida dos seres humanos de amanhã. Quem sabe, agindo assim, ainda teremos tempo, até mesmo para procurar outros lugares para vivermos no futuro, se houver necessidade.

Mas, é preciso ter em mente que tudo é finito. Deste modo, mesmo que encontremos outros mundos, onde a continuidade da vida seja possível, nossa postura deverá continuar nos conduzindo sempre numa visão de sustentabilidade. Isto é, quem vem depois, ou seja, nossos descendentes têm os mesmos direitos que nós temos, para utilizar os recursos naturais, os espaços físicos e serem felizes, aqui na Terra ou em qualquer outro lugar.

Hoje, ainda temos uma casa (Terra) só e se, porventura, lá na frente tivermos outros espaços para ocupar, ainda assim, temos que ter em mente que o uso de qualquer espaço será sempre limitado.  Entretanto, não podemos nos esquecer que ao longo desses 250 mil anos foi a Terra nos deu tudo e nos manteve vivos como indivíduos e como espécie.

Obviamente, se mudarmos de atitude, a Terra ainda pode nos dar muito mais, porém, independente de qualquer situação futura, cumpre a nós, no presente, a obrigação de garantir que ela continue nos fornecendo as condições de viver como indivíduos e de sobreviver como espécie. Por enquanto, temos que agir com sapiência, fazendo jus ao nome de Homo sapiens e deste modo, estando mais atentos e mais preocupados com o fato de que somos uma espécie só, cujos indivíduos vivem uma vida apenas e que a Terra, a nossa casa, também é única.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor e Ambientalista.

23 jul 2021
Posturas-em-Debates-e-Eventos-Publicos

Posturas em Debates e Eventos Públicos

Resumo: O autor emite sua opinião sobre que postura as pessoas devem tomar quando estão participando de um evento (seminário) qualquer. Eventos abertos em plataformas virtuais pela INTERNET são cada vez mais comuns, entretanto a qualidade desses eventos não tem melhorado na mesma proporção da quantidade. Acredito que isso se deva a certos detalhes (“males sociológicos”), alguns dos quais resolvi comentar nesse artigo.


“TODO EVENTO TEM DOIS LADOS, O APRESENTADOR E OS EXPECTADORES E NUMA MESMA PALESTRA, O INDIVÍDUO SÓ PODE ESTAR NUM DESSES LADOS. ASSIM, PARA O BOM FUNCIONAMENTO E EFETIVO SUCESSO DE QUALQUER EVENTO, É PRECISO QUE CADA LADO SAIBA EXATAMENTE SUA FUNÇÃO NO EVENTO”.
L.E.C. LIMA

INTRODUÇÃO

Ao longo de minha vida participei de centenas de eventos e de atividades, nas quais ocorreram inúmeros debates e discussões, muitas vezes interessantes e fundamentais para o meu aprendizado e dos participantes. É bom que saibam ainda, que como a maioria dos senhores leitores, participei ativamente dos dois lados desse tipo de situação. Isto é, atuei tanto na função de palestrante, como na de espectador. Assim, penso que posso emitir alguma opinião sobre essa questão, cada vez mais comum na modernidade.

Por outro lado, também devo dizer que, quanto mais velho eu fico, mais chato e impaciente eu estou. Talvez, por isso mesmo é que cada vez mais, eu fico incomodado com a atitude de certas pessoas ao longo da palestra, da conferência, do debate ou de qualquer discussão nesses eventos onde existe uma troca de informações ou um diálogo qualquer. As discussões estão progressivamente mais incomodas, mais longas e menos efetivas e, sobretudo, menos objetivas. Muitas acabam virando diálogos particulares, onde se discute sobretudo, menos sobre o tema e o resto da plateia que se lasque.

Os palestrantes, salvo alguns profissionais específicos dessa área, infelizmente são pessoas cada vez são mais superficiais, limitadas, menos profícuas e pouco eficazes. A maioria deles parece estar mais a fim de agradar a plateia do que de apresentar e discutir sobre o assunto em pauta. Por sua vez, os espectadores estão cada vez mais desinteressados, confusos e menos contundentes e assim, são pouco eficientes nas suas respectivas funções como participes dos eventos. Em suma, ao longo do tempo, o diálogo tem sido empobrecido e cada lado tem a sua parte na culpa dessa constatação. Obviamente, é claro que ainda existem exceções a esse fato, mas essas exceções estão ficando mais raras.

Nos tempos atuais, por conta da pandemia, e pelo que parece, daqui para frente mesmo sem essa mazela, cada vez mais as palestras serão feitas através de plataformas virtuais. Ora, se o tempo já era importante nas atividades reais, agora nas virtuais ele é fundamental. Tudo tem que estar planejado e muito bem definido, para que não haja problemas. Além disso, ainda existe a necessidade de contar com a sorte da INTERNET não cair e de não haver nenhum problema técnico na aparelhagem. Desta maneira, o tempo é cada vez mais escasso e precioso, por isso precisamos ter maior objetividade nos eventos para a efetividade, eficiência e eficácia deles.

Assim, após de pensar bastante, resolvi assumir a posição de “advogado do diabo” e vou dizer o que penso sobre essa questão. É bem provável que eu arrume novos inimigos, depois que alguns dos meus amigos tenham contato e leiam esse pequeno artigo. Às vezes, alguém tem que colocar a cara para bater, para que as coisas comecem a acontecer de maneira mais eficiente. Que fique claro, desde já, que não estou procurando briga com ninguém, apenas estou tentando chamar a atenção de todos os envolvidos, para tentar melhorar o padrão de nossas palestras e discussões.

O PALESTRANTE

A regra fundamental para qualquer palestrante é estar atento ao fato de que: conceitos e definições existem para serem utilizados, desde que estejam entendidos, pois do contrário serão apenas palavras estranhas e diferentes perdidas no meio do discurso. É muito comum o palestrante (professor, orador ou instrutor) falar palavras pouco comuns para a grande maioria dos espectadores na plateia, como se fossem termos corriqueiros.O palestrante precisa saber que geralmente grande parte da plateia nunca ouviu aquela palavra e por isso ela precisa ser definida e, às vezes até esclarecida detalhadamente. Portanto, sempre que o palestrante se utilizar uma palavra ou termo técnico qualquer é fundamental que seja feita a sua definição e o esclarecimento sobre sua utilização naquele momento. Esse cuidado deve ser tomado, mesmo quando o palestrante esteja falando para pessoas que teoricamente já deveriam conhecer aquele conceito.

Outras coisas comuns que o palestrante costuma fazer, além da automatização de ideias e conceitos, dizem respeito a utilização de siglas sem esclarecê-las. Existem siglas em todas as áreas, muitas delas exatamente iguais e somente as pessoas das respectivas áreas tem conhecimento dessas siglas. Quando o palestrante fala, por exemplo, a sigla “ABC”, ele sabe ao que está se referindo, mas quem houve não tem a obrigação de saber, portanto o palestrante tem a obrigação de dizer do que se trata, porque “ABC” pode ter vários significados e o espectador precisa saber o correto para aquele momento.

Por outro lado, se o expectador nunca tiver ouvido a sigla “ABC”, ele continuará sem saber do que se trata, isso é, continuará não significando nada para ele. Assim, é fundamental, em qualquer situação e numa palestra principalmente, que antes de assumir o uso de uma sigla, o palestrante, deva explicar o seu significado exato, para identificar precisamente do que se trata e assim, não confundir o espectador e evitar possíveis problemas posteriores.
Evitar gírias e palavras de baixo calão, a não ser para fazer uma piada ou algo jocoso que possa ser traduzido como um mecanismo adicional de auxílio à aprendizagem naquele contexto específico. Aliás, piadas quase sempre são bem-vindas, mas é preciso que se esteja atento ao fato de que a palestra é uma atividade séria e muita graça pode comprometer a seriedade do trabalho.

Os espectadores são atraídos às palestras pelos mais diversos interesses e curiosidades e geralmente a maioria da plateia está composta de expectadores que não têm domínio daquele assunto. Por conta desse fato, que é real, o palestrante sempre deve partir do princípio de que a maioria da plateia não sabe nada, absolutamente nada, sobre o assunto que você ele está abordando e sobretudo, deve ter efetivamente em mente que o óbvio não existe. O que é óbvio para você, quase nunca é óbvio para outra pessoa, principalmente se ela trabalhar numa área de atuação diferente da sua.

Um palestrante tem a função de tentar informar algo a quem não sabe e não pode partir do pressuposto de que as pessoas que estão na plateia já têm certo conhecimento sobre algumas das coisas que deverão ser ditas. Assim, o palestrante deve procurar ser efetivamente claro, o mais claro possível. Isto é, se for necessário seja até detalhista. Mas, não se esqueça que clareza e detalhe não são sinônimos de redundância, portanto não subestime a inteligência das pessoas e nem seja muito repetitivo no seu discurso.

Algumas vezes a repetição pode até ser útil, mas somente como maneira de chamar a atenção sobre um detalhe específico do assunto em questão. Assim, ao contrário da repetição ineficaz, seja coerente e sempre o mais objetivo possível que puder ser. Na grande maioria das vezes, o exemplo, depois da definição, além de ilustrar o conceito, também é melhor do que qualquer simples repetição para esclarecer sobre um determinado conceito.

O palestrante deve ser capaz de tomar a palavra de quem fala o que não deve e de recusar-se a responder uma pergunta fora do assunto em discussão. Obviamente, esse tipo de postura poderá ser considerado como uma grosseria ou uma deselegância, mas a vale a pena ser deselegante em benefício do aproveitamento da maioria efetivamente interessada no assunto. Lembre-se que o palestrante é um instrutor e deste modo, sua função é informar e instruir, portanto ser agradável, embora seja benéfico e salutar, não é sua obrigação, enquanto palestrante. Não se preocupe muito em “rasgar seda” para a plateia, pois vale mais, para tudo e para todos no evento, que o palestrante seja coerente e objetivo.

O ESPECTADOR

Primeiramente vou me ater as questões básicas que devem ser consideradas pelo espectador durante os eventos virtuais, pois como o expectador está literalmente em casa (no seu espaço), muitas vezes ele acredita que esteja sozinho. Entretanto, é bom lembrar que, na verdade, todos que estão naquele evento podem ouvir ou ver o que se passa com todos, se não forem tomados alguns cuidados básicos. Portanto, existem algumas observações importantes quanto à postura dos expectadores frente ao computador ou ao celular durante os eventos.

É fundamental os cuidados com a aparência, principalmente com a vestimenta, com a manutenção do microfone desligado, para evitar sons estranhos à palestra, com as pessoas do local, onde o expectador se encontra e suas possíveis passagens na frente da câmera. Talvez a utilização de um ambiente isolado e a manutenção da câmera desligada também sejam de bom alvitre, para evitar situações constrangedoras, como conversas paralelas ou imagens desagradáveis e garantir a segurança quanto ao áudio e o vídeo durante o evento. Uma coisa que ajuda bastante, é utilizar o fone de ouvido ligado ao computador, porque assim fica garantida e certeza de que sons estranhos não serão passados ao público do evento.

Como espectador num evento, o indivíduo deve ter em mente que a regra básica de qualquer evento em que ele está presente na plateia, é lembrar que o expositor é o palestrante e não você, portanto limite-se a falar apenas o necessário e somente quando for autorizado, para não prejudicar o andamento do evento. Assim, quando for fazer uma pergunta ou comentário, espere a autorização para fazer uso da palavra, mantenha-se efetivamente no tema em questão e não divague, pois o tempo é fundamental em qualquer evento.

Infelizmente é muito comum os espectadores, antes de objetivarem as suas perguntas ou comentários, fazer saudações às autoridades, parabenizar o palestrante e os organizadores do evento, além de uma série de pequenas práticas desnecessárias, que só atrasam, atrapalham e comprometem a qualidade do evento. Essas práticas, podem ser formalmente interessantes, mas têm que ser definitivamente abolidas das falas de qualquer expectador. As autoridades já foram nominadas e os parabéns podem ficar escritos no “chat” (bate papo) e não há nenhuma necessidade de ficar repetindo. Se vinte espectadores falam, os vinte fazem as mesmas saudações. Isso é uma grande bobagem do passado, que precisa ser esquecida nos tempos atuais.

Outra coisa fundamental, o espectador deve fazer todo esforço possível para evitar falar de si mesmo. Questões pessoais não interessam aos outros, principalmente num evento aberto ao público. Então, o espectador não deve se usar como exemplo de nada, a não ser se for realmente inevitável para esclarecer determinada situação, pois é bem possível que a experiência dele e seus problemas particulares não interessem a mais ninguém da plateia, além dele mesmo, pelo menos naquele momento.

Algumas pessoas gostam de falar, o que pode ser bom, porém elas têm muita dificuldade para serem objetivas e às vezes falam muito, enrolam, enrolam, complicam e acabam não dizendo nada, numa pergunta e principalmente conseguem dizer menos ainda, quando resolvem fazer algum comentário sobre o assunto em questão. Infelizmente, essas coisas costumam ser mais comum do que possam parecer a princípio. É preciso ser claro, objetivo, ter noção de ridículo e senso de coerência ao fazer uma pergunta ou um comentário qualquer.

Se o espectador foi mal-entendido, ou se tomou uma “paulada”, ele deve calar a boca e evitar ampliar a discussão. Quando muito, o expectador deve agradecer a oportunidade de falar. Depois do evento o expectador pode comentar o que quiser, com quem quiser, mas ele não pode estragar o evento com discussões infundadas, de maneira nenhuma, pois existem inúmeras pessoas envolvidas, além do expectador aborrecido e do palestrante. É realmente difícil, mas é necessário respeitar o direito da maioria, que está ali para participar do evento. Assim, considere que se a sua fala não irá colaborar, sempre será melhor não dizer nada.

Se o espectador costuma ser um desses indivíduos enrolados ou que tem dificuldade de se expressar quando fala e quer fazer uma pergunta ou um comentário, sempre será mais interessante escrever aquilo que se quer dizer e apenas ler o que está escrito ou mandar pelo “chat” (bate papo), sem fazer qualquer comentário adicional. Essa atitude certamente evita problemas subsequentes. O tempo que se perde com discussões ineficazes, por conta de perguntas sem nenhuma coerência e comentários irrelevantes é exatamente o que determina a qualidade de um bom evento, de uma boa palestra ou de uma discussão qualquer.

CONCLUSÕES

1 – Daqui para frente cada vez mais teremos eventos virtuais com discussões e assim é fundamental que sejamos capazes de falar apenas e tão somente o necessário.
2 – Nossa fala deve estar restrita aos interesses do evento, qualquer questão ou comentário além desse limite deverá ser considerada uma postura inoportuna, indesejável ao evento e por isso mesmo deve ser desconsiderada e descartada.
3 – A organização do evento, pode e deve impedir qualquer postura do expectador que contrarie o interesse do evento ou atrapalhe a participação dos demais espectadores, inclusive cortando a fala daqueles que estejam eventualmente provocando os problemas.
4 – Por outro lado, o próprio palestrante também pode e muitas vezes até deve, excluir-se terminantemente de responder perguntas e recusar os comentários desvinculadas com o assunto em questão.
5 – O espectador deve se colocar única e exclusivamente na condição de assistente durante todo o transcurso do evento e assim, sua participação deve se limitar, quando for possível, aos questionamentos e discussões, os quais devem visar sempre melhorar e não complicar os trabalhos.
6 – Essas tarefas parecem ser relativamente fáceis, mas como o ser humano é bastante eficiente em criar problemas, precisamos nos policiar cada vez mais, para evitar ou, pelo menos, minimizar a quantidade desses problemas.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor e Ambientalista.

23 jun 2021
Mais Humanidade Real e menos Ilusões Virtuais

Mais Humanidade Real e menos Ilusões Virtuais

Resumo: Agora estou me atrevendo a emitir minha opinião sobre o que acontece com as pessoas muito envolvidas nas redes sociais. Acredito que as pessoas precisam refletir um pouco mais sobre sua verdadeira humanidade, porque acredito que as chamadas redes sociais de INTERNET têm criado mecanismos que levam a criação de fantasias, além de maior divergência e intransigência entre as pessoas. Assim, questiono se a humanidade precisa realmente se envolver nessas redes e sugiro alguns medidas que possam minimizar os problemas. Como eu já disse em outro artigo: “penso que é preciso entrar no mundo real, antes que seja tarde”.


No dia 02 de junho de 2021, o jornalista Alexandre Garcia publicou um artigo (As Bolhas), em vários jornais do país e comentou sobre o citado artigo num vídeo, em seu canal do Youtube. Mas, e daí, o que eu tenho a ver com isso? Pois então, na verdade, eu já estava matutando exatamente sobre essa questão, de que as pessoas, de uma maneira geral, vivem num mundo exclusivo e diferente, que só interessa a elas próprias e os seus amigos ou afins, mais próximos.

Alexandre Garcia chamou isso de “bolha”, eu prefiro chamar de “grande ilusão”.  Embora a ideia seja a mesma, é preciso deixar claro que, com o tempo, a “bolha” sempre acaba estourando, mas a “grande ilusão”, geralmente perdura por toda a vida do indivíduo e isso é bastante ruim, porque, por conta disso, o indivíduo quase nunca consegue assumir a realidade. Em suma, a “bolha”, pelos mais diversos mecanismos, um dia acaba e o indivíduo acorda para a realidade, mas a “grande ilusão” geralmente morre com ele.

Enfim, “bolhas” ou “grandes ilusões” são resultantes de males sociológicos bastante comuns nas sociedades modernas. Doravante tratarei apenas como “grande ilusão”. Muitas vezes, a “grande ilusão” é criada propositalmente por um interesse qualquer dentro do grupo social, a fim de resolver uma determinada situação, como uma espécie de convenção, onde todos passam a assumir aquilo. Outras vezes, ela aparece em consequência da visão limitada do grupo do próprio grupo, que é incapaz de sair de seu mundo restrito e entender que existem outras coisas no entorno.

A diversidade do mundo, as diferentes ações e funções humanas, constituem uma gama impossível de ser analisada e avaliada por um indivíduo qualquer, ou mesmo por um grupo social, porque sempre há algo que não é conhecido e por isso existe necessidade de “especialistas” que possam esclarecer as dúvidas e orientar caminhos. Entretanto, a maioria dos grupos sociais acreditam que eles se bastam e que não precisam da opinião de outros e assim criam seus fantasmas, suas “grandes ilusões” e as assumem como verdadeiras.

Nos assuntos do trabalho essa questão é muitíssimo comum, como bem citou Alexandre Garcia em seu artigo, por exemplo jornalistas só têm contato com jornalistas, médicos com médicos, economistas com economistas e vai por aí. Dessa maneira, parece que o restante do mundo e das funções, simplesmente não existem e assim, todas as verdades são limitadas à capacidade daquele grupo. Pois então, a sociedade está caolha. Aliás, está praticamente cega, porque não enxerga quase nada do real e se ilude com aquilo que pensa ser verdade, dita por algum dos “especialistas”

A constatação acima cria uma série de deformidades, verdadeiras “monstruosidades sociais”, que faz com que, por exemplo, os jornalistas pensem saber mais sobre a medicina do que os médicos, a ponto de apontarem e julgarem as ações médicas dentro de seus parcos conhecimentos jornalísticos. Ora isso, além de ser um abuso e uma arbitrariedade sem tamanho. Mas, o pior de tudo, é que essa deformidade é imposta e distribuída pela mídia como algo concreto e efetivo, tornando-se uma “verdade”.

Por favor, não prejulguem o que eu não disse, com o meu exemplo, até porque isso acontece em qualquer profissão e em qualquer grupo social fechado, onde existam pessoas com interesses comuns e que estejam de alguma maneira isolados de outros grupos. O tamanho desse problema é maior ou menor, quanto maior ou menor for o grau de influência desse grupo na sociedade como um todo.  Infelizmente esse mal sociológico tem aumentado bastante com os grupos nas redes sociais da INTERNET, onde só se discute aquilo que é de interesse do próprio grupo. Qualquer coisa diferente, simplesmente é posta de lado ou totalmente desconsiderada, como se não existisse, e assim, as “verdades” são sempre as mesmas. Quem duvidar, que faça um teste e coloque uma questão diferente dentro de um grupo qualquer, pois aí poderá observar que praticamente ninguém irá se manifestar. Será como se aquilo fosse uma pequena sujeira na tela, mas que não interfere na imagem e assim, logo “desaparece”.

Em tempos de COVID e de muitas mortes, lamentável e tristemente fizemos isso várias vezes. Isto é, fomos informados de tantos doentes e de tantas mortes, que “escolhemos” aqueles com quem efetivamente nos preocupamos, mas a grande maioria passou em brancas nuvens. Vejam bem, eu sei que não existe maldade nesse tipo de ação, o que existe mesmo é falta de envolvimento com o mundo. Todos estão tão envolvidos com suas questões e com seus interesses, que priorizam ações e não dão importância efetiva à outras. É claro que do ponto de vista social, isso não é nada bom e do ponto de vista estritamente humano é pior ainda. Mas, como resolver esse problema?

Obviamente eu não tenho receita de bolo para resolver essa questão, mas imagino que estar atento a tudo que acontece e observar particularmente as opiniões contrárias é o primeiro passo a ser dado. Depois, deve ser feito um esforço para entender que os seus amigos ou os seus grupos sociais (profissionais) são pessoas iguais as demais, obviamente com características próprias, mas não são necessariamente melhores ou piores que outras pessoas e muito menos podem são “os donos das verdades”. As ações e funções, apesar de diferentes daquelas de seus interesses próximos, também são importantes ao todo da sociedade e, deste modo, também precisam ser aceitas e respeitadas. Por outro lado, os espaços físicos, os ambientes, sejam eles quais forem, também merecem cuidado e respeito.   

Se passarmos a investir numa política pessoal de nos antenarmos um pouco melhor com o restante do mundo, certamente isso será bom para todo mundo, mas podem acreditar que será especialmente bom para cada um de nós mesmos. A preocupação com o outro, um pouco mais de humildade e zelo, menos egoísmo e arrogância são características valiosas no trato com o outro, mesmo nos grupos sociais de INTERNET.

Precisamos parar de criar “grandes ilusões”, precisamos ouvir mais para entender mais e aprender efetivamente mais. Nosso grupo social (profissional), por melhor que seja, é apenas mais um dos milhares (milhões) de grupos que existem. Nossos interesses são simplesmente mais alguns dentro da infinidade de interesses que podem ser identificados. Mas tanto nossos grupos, quanto nossos interesses envolvem pessoas, seres humanos, e nossa humanidade é que deve ser sempre valorizada nas relações sociais. Pois então, esse detalhe final, que tem passado despercebido da grande maioria, talvez seja o mais importante de todos.

Antes de terminar, quero deixar quatro sugestões estratégicas, que talvez, possam ser bastante positivas para evitar as “grandes ilusões”, as quais, como foi visto, podem trazer problemas sociais intensos e algumas vezes até causar conflitos mais sérios.

  1. – Antes de emitir uma opinião, por mais certeza que você tenha sobre ela, pense bem na maneira de como ela deve ser referida, às vezes é melhor sugerir uma reflexão sobre o assunto.
  2. – Não assuma verdades pessoais como como situações imutáveis e invioláveis. Aquilo que você crê não tem que ser aquilo que outro tem que crer, seja humilde, principalmente quando o outro parece conhecer mais do assunto em questão que você.
  3. – Diversifique seus grupos sociais, evite as “rodinhas” e as “panelinhas”, diversifique seus contatos e suas relações, porque isso, ao menos teoricamente, lhe tornará naturalmente mais eclético e intelectualmente mais capaz de questionar certas coisas.
  4. – Aprenda um pouco de tudo, mas lembre-se, principalmente, que você não precisa necessariamente emitir opinião sobre tudo. Deixe que os verdadeiros especialistas discutam as questões para as quais se especializaram. Quanto aos outros “especialistas”, talvez seja melhor dar de ombros para eles.

Meus amigos essas sugestões talvez não façam vocês pessoas mais felizes, mas certamente elas ajudaram a que você seja uma pessoa mais agradável às outras pessoas e isso vai naturalmente fazer com que vocês produzam progressivamente menos “grandes ilusões”, o que fará você e seus grupos sociais mais felizes ou, pelo menos, mais capazes de suportar as adversidades da vida, mormente da vida na INTERNET.   

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.

17 maio 2021

A CONSTRUÇÃO DE UM “MUNDO MELHOR”

Resumo: Nesse texto proponho uma análise generalizada da situação atual do mundo, da humanidade e das possíveis alternativas que, de fato, nunca aparecem para solucionar as questões mais básicas. Concluo que a humanidade precisa realmente se envolver mais nas questões globais e deixar de simplesmente ouvir opiniões. Deixo um recado aos que almejam o “mundo melhor”, solicitando que se envolvam nas questões e que sejam exemplos visíveis do que querem. A Humanidade está repleta de “heróis de vitrine” e precisamos entrar no mundo real, antes que seja tarde demais.


“A palavra convence, o exemplo arrasta.”

Quando uma pessoa diz: “eu faço a minha parte pela construção de um mundo melhor”, na verdade essa pessoa está apenas tentando dizer, que faz aquilo que que ela pensa que pode ser o melhor para a sua própria concepção de mundo. Entretanto, três perguntas surgem a partir dessa situação:

1 – A concepção de “mundo melhor” dessa pessoa é, de fato, o “mundo melhor” que a maioria da humanidade deseja e que todos precisam ter?

2 – Admitindo que essa pessoa tenha, de fato, uma boa concepção de “mundo melhor”, será que o que ela efetivamente diz que faz é suficiente, dentro daquilo que poderia ser feito para a construção de um verdadeiramente “mundo melhor”.

3 – Será que a concepção de “mundo melhor” pode ser definida e concebida a partir da mente de uma única pessoa?

Quer dizer, simplesmente acreditar que se está agindo certo e procurar fazer coisas boas, não é necessariamente trabalhar para um “mundo melhor”. Talvez, isso até possa ser uma condição básica para não piorar o mundo, mas certamente não garante a melhora dele. Aliás, eu acho que dependendo de que coisas estejamos nos referindo, muitas vezes fazer essas coisas, é, tão somente, uma obrigação moral do ser humano. Na verdade, fazer coisas boas, pode livrar alguma responsabilidade pessoal, que a pessoa envolvida acredita ser benéfica (útil) à humanidade, mas será que isso é mesmo verdade? Então, eu gostaria de discutir um pouco sobre essa questão: como realmente trabalhar para um mundo melhor?

Primeiramente há de pensar se um indivíduo pode, por si só, trabalhar para um mundo melhor. Sim, me parece que ele pode, mas apenas como exemplo a ser multiplicado. Porém, se esse indivíduo se omite, naquilo em que deveria ser exemplo, certamente sua contribuição ao mundo melhor não existe. Deste modo, não adianta realizar nenhuma ação isolada e distante do grupo social. Toda ação que visa melhorar o mundo deve ser divulgada, pois, do contrário, o mundo não toma conhecimento e assim, não pode se conscientizar daquilo que não conhece.   

Por outro lado, vários indivíduos (grupos sociais) podem efetivamente idealizar, propor e produzir manifestações diversas que gerem comportamentos diferentes, que levem à mudanças e que condicionem o enriquecimento socioambiental da humanidade (mundo melhor) ou o empobrecimento socioambiental da humanidade (mundo pior). Mudar pensamentos, muda atitudes e muda comportamentos. Esse é um conceito muito forte na mídia e no “marketing”.

Infelizmente, do ponto de vista histórico, parece que temos investido nesse conceito, apenas na direção do empobrecimento socioambiental. Penso que seja uma pena, que o interesse pela melhoria do mundo não esteja na pauta de prioridades da grande mídia e do “marketing”, que não produzem absolutamente nada para tentar melhorar o mundo. Aliás, esses setores têm trabalhado efetivamente em contrário da melhoria do mundo, investindo fortemente em “fake news” e inverdades. Quer dizer, para agir no sentido de melhorar o mundo, de fato, é preciso, além da vontade individual, um grande poder coletivo e fortemente contrário aos interesses midiáticos e marqueteiro atuais, cujo intuito passa muito longe do mundo melhor.

Considerando que hoje o mundo tem quase 8 bilhões de pessoas, há de se convir que, individualmente, a priori, ninguém tem nível de poder capaz de causar impacto global positivo, ou trazer vantagens socioambientais para o mundo isoladamente. Então, como construir, se é que é possível construir, esse tal mundo melhor? O “novo mundo” fantástico e cheio de benesses, que todos falam, esperam e almejam pós COVID-19 e que, aliás, deve ser o mesmo que era esperado depois da gripe espanhola ou mesmo depois da segunda guerra mundial.

Pois é, nesses dois exemplos acima, no primeiro caso, o “novo mundo” foi a primeira guerra mundial e no segundo caso foi a guerra fria e o medo generalizado. E agora, o que será esse “novo mundo”, a terceira guerra mundial e a destruição total da humanidade?  Ou não haverá necessidade de guerra, basta apenas mais um novo vírus ou um pouco mais do próprio aquecimento global pelo excesso de C02?

Peço vênia, mas eu, particularmente, não acredito nessas sonhadas mudanças radicais que irão produzir o tão sonhado “novo mundo”, que muitos têm falado. Acredito que após o COVID-19, se existir realmente um após-COVID-19, as pessoas irão gradativamente voltando as suas atividades e principalmente às suas atitudes comportamentais costumeiras, até que algum tempo depois, tudo volte a ficar como Dante no quartel de Abrantes, porque infelizmente a espécie humana é assim e as mudanças, quando existem, são sempre muito gradativas.

A humanidade não gosta de sofrer, mas prefere sofrer ao invés de agir de maneira que contrarie alguns princípios básicos e costumeiros. Assim, qualquer mudança exige progresso, aprimoramento e sobre tudo muito tempo. Nada vai acontecer de imediato, ou seja, não existe esse novo mundo pós COVID-19. Um desse princípios básicos, talvez o mais importante deles, seja o afã do ser humano por liberdade individual e isso, me perdoem, nunca vai permitir uma ação coletiva e uníssona imediata sobre qualquer atitude que possa melhor viabilizar o mundo.

Por favor, que fique claro, que obviamente isso não é feito e pensado pretensamente para acontecer assim, definitivamente não. Isso é apenas uma necessidade vital presente nos indivíduos de nossa espécie.  Infelizmente, nós ainda não temos e pode até ser que um dia venha existir, um gene que nos permita agir de maneira diferente. Assim, vamos continuar nossa vida sem grandes mudanças, até que se prove o contrário e que se estabeleça, por aprendizado gradativo ou por evolução genética. De qualquer maneira, isso levará algum tempo e, lamentavelmente, tempo é o que a humanidade menos tem.

Deste modo, na atual conjuntura, pensar em fazer a sua parte para a construção de um mundo melhor, acaba sendo uma grande balela, além de aparentemente também ser uma inverdade natural, que a maioria dos seres humanos na realidade não quer que aconteça. Existem pessoas altruístas e boas, eu gostaria que a maioria fosse assim, mas existem também pessoas otimistas demais, pessoas pessimistas ao extremo e ainda existem pessoas egoístas e ruins (maldosas), que querem manter o atual status quo e se aproveitar da situação.

Geralmente esse último tipo de pessoa, a pessoa ruim, até pelos seus interesses acaba sendo mais capaz de modificar momentaneamente o mundo. Basta que se olhe a história da humanidade para ver a que grupo pertence a maioria dos sujeitos que, de alguma maneira, mudaram ou interferiram significativamente na história humana. Certamente existem honrosas e maravilhosas exceções, como Jesus, Buda, Gandhi e outros, mas a regra são as pessoas de “má índole”, nas quais o interesse coletivo não existe.

Coloquei a expressão “má índole” entre aspas, porque não possa afirmar que essas pessoas ruins tinham “má índole” de fato, entretanto a história parece dizer que sim. Bem, a verdade é que esses sujeitos não foram bons para a humanidade e assim, certamente nunca almejaram o “mundo melhor”, apenas trabalharam para si próprias, explorando outra característica bastante marcante da maioria dos indivíduos de nossa espécie, que é o egoísmo.

Enfim, construir o “mundo melhor” é o desejo de muitos, inclusive o meu, mas creio que nenhum humano tenha realmente o poder para fazer isso sozinho. É claro que, como disse François La Rochefoucauld: “nada é tão contagioso como o exemplo”, e assim, obviamente, os bons exemplos sempre serão muito bem-vindos no interesse da humanidade, mas certamente eles nunca garantirão nada, se a própria humanidade não se manifestar e se contagiar positivamente em relação a eles.

Então, trabalhemos com afinco e sejamos exemplos verdadeiros do “mundo melhor” que a maior parte de nós, seres humanos, de alguma maneira, continua desejando. Levará tempo, mas a seleção natural, que nos trouxe até aqui, certamente nos direcionará e nos tornará melhor, na medida que a nossa necessidade de adaptação for maior. O resultado almejado, obviamente nunca chegará em absoluto, mas continuaremos sempre caminhando na sua direção. Isto é, progressivamente seguiremos para o “mundo melhor”.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65)

26 abr 2021

Desabafo de um “Velho Mestre”

Resumo: O artigo chama a atenção para o fato de que muitas das pretensas “modernidades educacionais” que estão sendo apresentadas para melhorar a Educação, não passam de mera enganação e de maquiagem que servem apenas para esconder a péssima qualidade da Educação no país, além de  desprestigiar os professores e de favorecer a outros interesses não ligados à Educação. 


Ultimamente tenho pensado bastante a respeito do que estão atualmente chamando de “Metodologias Ativas” para a Educação e sinceramente não estou vendo nada que eu, com todo meu conservadorismo, já não tenha feito há, pelo menos, 50 anos atrás.  Na verdade, o que mudou foram os alunos e a escola que, querendo, não sei o porquê, evoluir, acaba ficando cada vez mais retrógrada, quando precisa se modernizar. A propósito modernizar a escola não é fazer modismos na escola ou na sala de aula. Mudar a escola é tentar trazê-la para a realidade do seu tempo, sem comprometer seus interesses primários, isto é, o processo ensino-aprendizagem e a educação como um todo. 

Pelo que tenho observado, em muitos casos, a escola está querendo deixar de ser escola para virar espetáculo artístico e muitas vezes circense, mas não vamos discutir sobre esse aspecto nesse momento. Cabe apenas lembrar que, o professor e a sala de aula, dentro ou fora da escola, são os mesmos e as metodologias, os artifícios e mecanismos para ensinar, também são os mesmos que sempre existiram, pois ensinar continua sendo, apenas e tão somente ensinar. Quer dizer, a escola em essência não mudou e nem pode mudar, porque se isso acontecer ela em entrará em contraste com seus preceitos básicos.

O que tem mudado bastante são as tecnologias aplicáveis ao ensino e algumas destas realmente são muito boas, para quem sabe fazer uso delas. Eu confesso que tenho imensa dificuldade com certos materiais, mas não me sinto inferior por causa disso, até porque costumo saber do que estou falando, quando ministro minhas aulas, o que, infelizmente, não costuma ser verdade para grande parte dos professores que andam por aí. Assim, a ferramenta, o acessório e toda parafernália instrumental que deveria favorecer ao processo ensino-aprendizagem, acaba não funcionando da maneira como seria esperado e consequentemente atrapalhando, porque não existe mágica. 

A verdade é uma só, ninguém é capaz de ensinar aquilo que não sabe, com ou sem parafernália tecnológica e o que temos visto por aí é um festival de absurdos, onde os materiais acessórios atrapalham mais que ajudam, por conta da incapacidade profissional de muitos “professores”, além da passividade e do desinteresse da maioria dos alunos. O que está faltando, de fato, é conhecimento por parte de quem deveria ensinar e vontade de adquirir conhecimento por parte de quem deveria aprender.

É claro que eu sei e todo mundo sabe, que os tempos são outros, que os jovens de hoje têm pensamentos e anseios diferentes e que existe muita dificuldade de atraí-los para as aulas, até porque, para muitos, “aula é uma coisa chata”, “estudar toma tempo e é bastante complicado” e várias outras coisas poderiam ser ditas para confirmar que, lamentavelmente, hoje existem inúmeras opções mais atraentes para os alunos do que a escola e as aulas. O problema está exatamente aí: como fazer para tornar as aulas e as escolas mais interessante aos alunos, sem ridicularizar a escola como entidade formadora de indivíduos melhores moral, social e culturalmente?

Certamente o aluno é o sujeito mais importante da escola e isso não é moderno, pois só existe escola porque existem alunos. Ao aluno se deve todo o processo educacional, então esse sujeito foi, continua sendo e sempre será a parte mais fundamental no processo. Entretanto, o aluno atual tem visado outros interesses, deixando a escola para planos inferiores na sua escala de prioridades. Cabe ao professor a missão de redirecionar o aluno aos interesses primários da escola e obviamente a parafernália instrumental pode e deve ajudar nessa missão. Mas, a figura do professor deve dirigir os instrumentos de acordo com os objetivos do ensino e não fazer espetáculos tecnológicos infundados.

Não existe essa história de que a escola hoje é centrada no aluno e a escola de ontem era centrada no professor, pois escola nenhuma nunca foi centrada no professor. Se existiu escola assim, em algum momento, ela estava muito errada e desconexa de seu interesse primário. O que talvez existisse, no passado, era uma pretensa “superioridade” do professor como indivíduo, sobre o aluno, o que também, na minha maneira de entender, sempre foi uma falácia desagradável, perigosa e que contraria a própria noção de educação.

Outra coisa que também poderia ser considerada, é que antes o respeito à pessoa do professor era muito maior e hoje, em muitos casos, simplesmente esse respeito deixou de existir. Mas, eu quero crer que isso também tenha a ver, lamentavelmente com a falta de competência do próprio professor. Entretanto, não vou me ater a essas discussões no momento e vou deixá-las para outra oportunidade. Vamos em frente.

Ainda que o aluno seja o sujeito mais importante em qualquer escola, o agente principal da sala de aula sempre foi e continuará sendo é o professor. As técnicas didático-pedagógicas podem e devem mudar e evoluir sempre, mas o professor continuará sendo imprescindível. Pois então, o que está faltando nas escolas é mais trabalho profissional efetivo dos professores, que hoje, na maioria das vezes, são pessoas totalmente despreparadas e, o que é pior, sem conhecimento efetivo de sua matéria e sem cultura geral. 

Lamentavelmente, a própria profissão de professor está bastante desgastada pela sociedade, pois atualmente, para a maioria das pessoas, o professor é tido como alguém que não conseguiu fazer outra coisa mais importante e assim foi “ministrar” aulas. Infelizmente a má qualidade do professor é que acaba sendo realmente o grande problema, porque quando o professor tem interesse real e prazer em ensinar, ele procura efetivamente saber o que tem que saber e aí, com ou sem ferramentas de última geração, ele consegue ensinar. Com seriedade profissional, algumas vezes, ele consegue ensinar até mesmo aquele aluno que não quer aprender.

Cabe lembrar que esse tipo de aluno que, não quer aprender, sempre existiu. O que acontece é que hoje o contingente é aparentemente maior, porque a escola concorre e obviamente acaba perdendo de longe para outras coisas mais interessantes no pensamento do aluno. Coisas, que lamentavelmente são reforçadas pela sociedade atual, principalmente através da mídia e que acabam tomando grande parte do lugar que deveria ser ocupado pela escola, como já foi dito. 

Por outro lado, não adianta toda a parafernália instrumental se o professor não conhece do assunto que deveria ensinar. É triste o quadro, mas hoje, infelizmente, qualquer um está ministrando aula de qualquer coisa, em qualquer lugar e, dessa maneira, realmente não é possível continuar, principalmente no terceiro grau, onde é relativamente comum encontrarmos professores lendo “slides” para os alunos e coisas parecidas. Tudo bem; quer dizer, na verdade, tudo mal; porque existem muitos alunos que são analfabetos funcionais no Ensino Superior e assim, não sabem ler, mas isso, além de ser uma incongruência, também é uma enorme indecência que a escola e o sistema educacional permitem. Mas, essa também é outra história que fica para depois.

Uma aula tradicional, sem enganação, ainda é capaz de atrair muitos alunos, mas uma aula tecnológica sem coerência, sem lógica e sem relacionamento, certamente não atrai ninguém. Ou melhor, talvez atraia apenas aos “festeiros de plantão”. Qualquer aula necessita ser estimulante para vencer a concorrência, mas o estímulo tem que ser dado pelo professor e não pela parafernália instrumental. O professor como principal agente do processo educacional tem a obrigação de criar os mecanismos para atrair o público da escola presente na sua aula, mas obviamente sem exageros.

Cabe lembrar que não é qualquer um que pode ser professor. Em toda área profissional existem exigências mínimas para o exercício profissional, porque com a função de professor essa questão é diferente. O verdadeiro professor tem que ser um sujeito devidamente preocupado com a educação e preparado para ensinar, possuindo conhecimento efetivo de sua disciplina e visão genérica do processo educacional. Ser professor vai muito além de estar à frente de uma turma e tentar ministrar aulas.

Então, me desculpem, mas essas “Metodologias Ativas” não existem, o que existe é incompetência generalizada e por isso se criou um subterfúgio para mascarar as deficiências do ensino. É claro que muitas vezes funciona, se quem aplica é sério, tem conhecimento de sua área, sabe o que faz na aplicação do recurso e está mesmo a fim de ensinar. Entretanto, na maioria das vezes é só mais uma enrolação moderna sem tamanho, acerca de coisa nenhuma, como sempre existiu, mas agora com muito atrativo, que acaba sendo uma cilada da alta tecnologia moderna. 

Na verdade, muitas vezes o professor acaba esquecendo que está numa escola e procura chamar a atenção dos alunos, apenas para os modismos tecnológicos, que são interessantes e algumas vezes até fantásticos, mas que, sozinhos, não têm capacidade de levar ninguém a aprender alguma coisa se esse alguém não quiser. Aliás, pelo que tenho visto, para enganar, de ambos os lados fundamentais da escola, o aluno ou o professor, com tecnologias brilhantes é mais fácil e mais interessante do que parece. 

Talvez, por isso o mundo esteja cheio de mascates, mercadores, marreteiros, embusteiros, “hackers” e outros picaretas tecnológicos, vendendo bugigangas para as escolas. Além disso, sempre é bom lembrar que, para muitas escolas, isso acaba sendo bastante interessante, haja vista que investir na aquisição dessas bugigangas costuma ser mais barato, a longo prazo, do que pagar melhor os professores e possuir em seu quadro profissionais mais competentes. Mas, essa também é outra história. 

A tecnologia compõe-se de algumas ferramentas muito boas, mas elas devem ser usadas e tratadas apenas como ferramentas para auxiliar ao processo de ensino-aprendizagem e não como truque fantástico de ilusionismo. Essas ferramentas devem ser usadas por quem sabe, para servir ao interesse a que se propõem, no caso os interesses da Educação, mas infelizmente não é isso que se tem observado, em grande parte das “escolas modernas”. 

Em alguns casos e momentos o “professor” fica totalmente dependente da ferramenta e passa, desgraçadamente, a ser ele a ferramenta. Isto é, o sujeito vira objeto e assim, a ferramenta passa a ser o ator mais importante da escola. O pior é que no meio do caminho tem o aluno e entre esses alunos, existem alguns que realmente querem aprender, mas não encontram base e nem respaldo na figura do professor, que está ali apenas para “quebrar um galho” ou para “ganhar um dinheirinho” que lhe permita sobreviver.

Ensinar é uma tarefa nobre e algo realmente prazeroso e sensacional, mas precisa de gente séria, bem-intencionada, bem-preparada, com capacidade e sobretudo com conhecimento de causa, o resto se consegue na conversa, na troca de informação, com os alunos. Obviamente que: uns vão aproveitar e outros não vão. Sempre foi assim e continuará sendo, mas a escola tem que parar de querer justificar o injustificável e transferir problemas inventando novos nomes para coisas velhas que e sempre existiram. 

O uso do computador, do celular, da INTERNET e dos mais diversos recursos audiovisuais são excelentes para auxiliar as aulas e facilitar o processo de ensino-aprendizagem. Particularmente nesse momento, em que temos que trabalhar com aulas remotas, por conta a da quarentena condicionada pelo Pandemia de Corona Vírus (COVID-19), toda parafernália de material tecnológico tem sido grande aliada e tem demonstrado sua importância à educação. Porém, é preciso que fique claro, que todas essas coisas são ferramentas e como tal, devem ser usadas com parcimônia e coerência. 

Por outro lado, é fundamental que se entenda e que não se deixe de dar a devida importância a principal ferramenta para o ensino e que por isso mesmo, é a mais importante ferramenta para que a escola possa cumprir bem a sua missão de ensinar, que é o professor. O professor sempre foi e certamente continuará sendo, a única ferramenta efetivamente capaz de cumprir a missão de ensinar a alguém.

Então, ao invés de ficar dando nomes novos a coisas velhas e de ficar desenvolvendo novos programas de informática e novas técnicas eletrônicas, talvez fosse muito melhor investir mais na formação de professores de qualidade e respeitar um pouco mais aos “velhos” professores. Isto é, se preocupar em adquirir e manter professores que tenham conhecimento e que sejam capazes de ensinar sem a mágica da tecnologia. Cabe lembrar que, o professor, independente da sua área específica de conhecimento, tem que ter conhecimento geral, tem que ter cultura, pois só quem tem cultura pode realmente ensinar. 

Temos que parar com esse negócio de achar que qualquer um pode ensinar, porque na verdade, ninguém ensina aquilo que não sabe. Muitas vezes o espetáculo (“show”” teatral) da aula é muito bom, mas não há aprendizado absolutamente nenhum, porque a aula (qualquer aula em qualquer nível) não é e não pode ser apenas um “show” teatral, principalmente quando está se falando em formação de novos professores. Aula tem que ser coisa séria, que pode e deve até ser alegre e divertida, mas não pode fugir ao seu propósito fundamental de ensinar e formar o aluno. 

As técnicas obviamente são importantes, mas elas não são preponderantes, pois a importância maior, salvo melhor juízo, tem que estar a cargo do professor, seu conhecimento e toda sua bagagem cognitiva. O exercício da atividade profissional de professor exige profissionais competentes e cônscios da importantíssima função social que é atribuída ao magistério. Assim, a prática efetiva do magistério não pode ficar à mercê de qualquer curioso ou picareta ornamentado de parafernálias eletrônicas.

O dia que todos os envolvidos na escola, inclusive os alunos em todos os níveis de ensino e formação, estiverem realmente preocupados com a escola e com suas respectivas formações, certamente as coisas começarão a acontecer de maneira correta e obviamente os resultados do processo ensino-aprendizagem serão melhores. Entretanto, eu penso que isso ainda seja uma utopia, porque estamos falando de seres humanos e nada é mais complexo do que o ser humano, particularmente o ser humano brasileiro. 

O ser humano é dotado de vontade e deve ser sempre respeitado nesse direito. Mas, por outro lado, é preciso ficar evidente à toda sociedade que o direito de um termina quando começa o do outro. Na escola o direito é estudar e o aluno que não quer estudar, não deve, a priori, fazer parte da escola. Da mesma forma, o professor que não quer ou que não pode ensinar, também não pode estar na escola e a escola que não quer formar bem seus alunos não deve existir. O resto é balela. As coisas só funcionarão bem quando a principal preocupação de todos na escola for, apenas e tão somente, a educação para fazer o aluno estudar e aprender. 

Deste modo, peço vênia pelo meu radicalismo, pela minha impetuosidade e pela minha veemência nessas afirmativas, mas acredito que as mudanças necessárias efetivas não são de “Metodologias Ativas” ou de “Técnicas Modernas de Ensino”, mas sim de comportamento, de interesse real, de comprometimento, de seriedade e de competência de todos envolvidos no processo educacional. Ou seja, eu acredito que se existirem governantes sérios, dirigentes comprometidos, professores capacitados e alunos ávidos por saber, com ou sem parafernália tecnológica, conseguiremos fazer uma escola de qualidade. 

Mas, a pergunta que fica é seguinte: será que existe interesse verdadeiro e efetivo de que essa escola de qualidade realmente exista no Brasil? Ou será que, como disse o saudoso e eterno Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil, não é uma crise, é um projeto”?

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65)

07 abr 2021
Religiosidade, Doutrinação, Proselitismo, Intolerância e Conflitos Religiosos

REFLEXÕES SOBRE CRENÇA, RELIGIOSIDADE, PROSELITISMO E DOUTRINAÇÃO

Resumo: Parece que está cada vez mais próximo um conflito entre certos grupos religiosos, mesmo aqui entre nós, por conta de questões ideológicas oriundas de aspectos e fontes religiosas. Essa situação é esdrúxula, perigosa, preocupante, absurda e precisamos estar atentos para que esse problema continue longe de nós, aqui no Brasil. 


A ideia do religioso e do sagrado sempre existiu naturalmente na grande maioria das várias civilizações humanas e na atualidade isso não é diferente. Assim, a maioria das pessoas possui algum tipo de crença. Essas crenças são as mais diversificadas possíveis e muitas delas crenças podem ser definidas dentro do conceito mais estrito de religiões. Entretanto, as maneiras como cada um desses grupos de pessoas veem (entendem ou assumem) uma ou mais situações determinadas de crenças é o que produz realmente as diferentes religiões.

Desta maneira, existem várias religiões definidas e várias seitas religiosas ainda não definidas ou identificadas sociologicamente como religiões de fato, mas em todas essas situações existem crenças, que devem ser respeitadas por todos. Assim, também existem diferentes formas do ser humano individual ou coletivamente se ligar ou se relacionar, ou não, com o sagrado e toda humanidade deve respeitar esse fato, concordando ou não com a ideia que ele apresenta.

Essa é uma realidade da humanidade que precisa ser entendida e legalmente garantida em todos os lugares, mas, infelizmente, não é isso que temos visto. Deste modo, a intolerância religiosa tem se intensificado progressivamente na humanidade e está ficando cada vez mais difícil que determinados grupos religiosos aceitem o direito à religiosidade de outros grupos. A partir disso, surge a intolerância e os conflitos por questões religiosas.

Na maioria dos países da Terra, os grupos sociais humanos sempre foram livres para escolherem entre o que consideram sagrado e o que consideram não sagrado à sua maneira e consequentemente assim definir a sua crença religiosa específica. Porém, dentro daquilo que se tem como sagrado, algumas religiões se assumiram no “direito” de entender que elas são as mais responsáveis diretamente por muitas dessas situações.

Isto é, tem religiões achando que só elas têm direito e razão. Ou seja, parecendo querer ser mais religião do que outras. Esse problema, se é que se pode chamar essa situação caótica, apenas de problema, é que muitas religiões em seus respectivos dogmatismos criaram líderes, que são seres humanos como quaisquer outros, mas que acreditam que são “seres superiores”, porque lideram grupos que acreditam ter os únicos princípios religiosos corretos.

Esses indivíduos que se assume pretensamente como “seres superiores” costumam ser carismáticos e em função disso, passam a ser muito mais proselitistas, preocupados em arrebanhar mais seguidores de sua causa e da sua vontade, do que propriamente religiosos e seguidores de sua pretensa fé naquilo que primitivamente idealiza sua religião. Assim, muitos deles terminam por esquecer os propósitos religiosos primitivos relacionados ao sagrado e enveredam por questões ideológicas pessoais ou de grupos de interesse próximos. O pior é que, essa condição cria muitos fanáticos que seguem esses líderes sem nenhuma contestação.

Nesse padrão, a “religiosidade do líder” termina por ver a si mesma como solução, quando, na verdade, ele deveria ser o caminho que poderia levar a solução verdadeiramente religiosa, que, para a grande maioria delas deveria ser Deus, Alá, Oxalá ou algum outro nome que identifique, o verdadeiro ser superior, ou uma entidade equivalente. Essa situação conflitante do sagrado com o pessoal, acaba criando conflitos sociais e ideológicos, os quais geram conflitos religiosos, a partir de líderes proselitistas mais radicais e se irradia por seus infelizes seguidores.

Historicamente muitos desses conflitos pessoais se transformaram em guerras sangrentas que ocorreram em vários momentos da humanidade. Mas, nós estamos no século XXI e não deveria mais ser possível que alguns de nós ainda quisessem guerrear por causa exclusiva de divergências religiosas. Entretanto, ainda não estamos livres dessas mazelas e muitas guerras ainda fluem pelo mundo afora, por conta exclusiva das religiões e principalmente de seus líderes.

Esses líderes proselitistas passam a se sentir como emissários de Deus ou de qualquer Ente Superior e se acham capazes de resolver as questões, simplesmente exterminando seus desafetos e suas causas, enquanto os seguidores acompanham piamente os líderes. Na verdade, Deus, o Ente Superior, seja lá que nome tenha, não entra nessa briga, porque as “Guerras Santas” ou “Jihads” não têm nenhum sentido religioso, são meras visões ideológicas de alguns indivíduos, que criam fanatismos em determinados grupos sociais.

Essa situação se acentua mais ainda, quando os proselitistas passam efetivamente também a ser tipos de doutrinadores. Isto é, aquele que disciplina e orienta o preceito “religioso”. Normalmente isso acontece, quando o líder já aumentou bastante o rebanho e agora assume a postura autoritária de obrigar o rebanho a fazer o que ele quer e da maneira que ele quer, mesmo contrariando preceitos da sua pretensa religião. Esse é o grande perigo dos líderes religiosos tendenciosos e de má índole. Esses sujeitos acham que seus respectivos pensamentos são os únicos pensamentos certos e assim não aceitam outras maneiras de pensar.

De qualquer maneira, um indivíduo acreditar que seu pensamento esteja correto é uma coisa que até pode ser salutar, boa e obviamente natural, mas querer que o outro obrigatoriamente pense exatamente como ele é que consiste numa arbitrariedade e num autoritarismo. As “guerras santas” derivam principalmente desse fato, até porque muitas vezes elas acontecem dentro de religiões que possuem a mesma base e o mesmo fundamento religioso. Se os líderes entram em conflito e os seguidores também acabam entrando.

Pois então, talvez por isso, apesar do proselitismo, as religiões têm perdido valor e adeptos valorosos exatamente nesse ponto, porque o sagrado e verdadeiramente religioso acaba desaparecendo no meio da confusão ideológica e dos interesses escusos de seus líderes. A questão toma novos rumos e acaba se perdendo nas mais diversas teias ideológicas, gerando alguns conflitos insanos e intermináveis, onde a culpa é sempre do outro que pensa diferente e que não aceita aquilo que se quer impor a ele.

A noção teológica, sagrada ou religiosa fica de lado, sendo relegada a segundo ou terceiro plano e a essência da religião acaba se desintegrando totalmente. Muitas vezes, a própria religiosidade do grupo se perde nesse contexto e o culto vira uma espécie de “teatro do absurdo”, sem nenhuma conexão com o sagrado, passando a ser uma simples dramatização da vida a serviço de alguém, sem nenhuma conotação religiosa.

Mas aí vem a pergunta; existe solução para essa questão? Obviamente, eu acredito que sim. Tem que existir. Entretanto a solução quase sempre dependerá do aparecimento de novas lideranças que possuam novas ideias sobre as questões e que se proponham a discuti-las. Mas, ainda assim, dificilmente um líder concordará integralmente com o outro. Mas, essa concordância parcial, se existir, até poderá criar outra seita, com uma nova maneira de pensar, o que, poderá resolver os problemas, mas também poderá trazer novos conflitos para o futuro.

Em suma, é bastante difícil estabelecer condições que propiciem respeito mútuo entre os grupos religiosos, não por culpa das religiões, nem mesmo pelos cultos religiosos em si, mas pelas pessoas que delas fazem parte, principalmente os líderes. Desta maneira, é preciso que as diferentes religiões, coloquem um pouco mais de humildade em seus preceitos, de humanidade em suas práticas e um pouco mais de sanidade na indicação e escolha de seus líderes, para evitar situações de confronto, tanto efetivamente religioso, quanto pessoalmente ideológico. Se o sagrado visa o bem, por que criar conflitos por religiões, já que, a priori, todas elas são boas e preocupadas com o bem?

A vida humana não pode ser menosprezada e muito menos posta em risco, por conta da irresponsabilidade de alguns líderes e seguidores religiosos preconceituosos, inescrupulosos e fanáticos que se sobrepõem ao credo que dizem praticar e defender. Qualquer preceito religioso deve, antes de qualquer coisa, partir da premissa do respeito ao seu semelhante, pois caso contrário as pessoas de religiões diferentes serão sempre consideradas como adversárias e algumas vezes até mesmo como inimigas e, por isso mesmo, deverão ser excluídas de alguma maneira do ambiente próximo.

O proselitismo religioso, ainda que necessário ao crescimento das religiões, tem que ser contido e a doutrinação religiosa não pode ir além da escolha pessoal de cada indivíduo. Inclusive, também tem que ser claramente preservado o direito daqueles que não querem professar ou aderir a nenhum credo religioso. Religião é objeto de escolha e aceitação e não de imposição de quem quer que seja. O ser humano é livre para optar entre ser religioso ou não da forma como melhor lhe convier e essa é uma questão de foro íntimo, que não pode ser questionada e nem combatida por nenhum outro ser humano ou grupo social.

Pois então, meus amigos, esse assunto para muitos dos senhores deve ter soado como algo longe da maioria de nós aqui no Brasil. Entretanto, é preciso que fiquemos mais ligados aos nossos atos comuns, muitos dos quais são hábitos originários de nossa religiosidade, para evitarmos situações de intolerância. Essas situações já estão mais próxima de nós do que somos capazes de perceber e começam a existir problemas e preconceitos mais contundentes em determinados locais, que vez por outra alardeiam a mídia nacional.

A sociedade necessita estar atenta ao fato de que quaisquer das religiões existentes, a priori, devem atuar e se envolver na busca maior do bem comum e não na priorização efetiva de um determinado grupo religioso, principalmente do próprio grupo. Pensem nisso, porque estamos vendo cada vez mais, que, a exemplo de outros tipos de preconceitos, o preconceito religioso também está se exacerbando e já está deixando máculas perigosas ao convívio social e esses fatos não podem continuar prosperando.

Temos o mal hábito de comentar sobre o fanatismo religioso dos outros, mas precisamos olhar um pouco mais para dentro de nós mesmos, quando nos referimos às condutas humanas relacionadas com as religiões. A História nos mostra que conflitos religiosos sempre existiram, mas quero crer, que hoje e doravante, com o grau de informação e conhecimento que a humanidade alcançou, eles não podem mais ser justificados de maneira nenhuma. Hoje sabemos que qualquer forma forçada de doutrinação, além de não garantir nada religiosamente, também não oferece vantagem e muito menos segurança a quem quer que seja.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65)

17 jan 2021
NA ERA DA BIOLOGIA O BIOCENTRISMO PRECISA PROSPERAR

NA ERA DA BIOLOGIA O BIOCENTRISMO PRECISA PROSPERAR

Resumo: O texto traz uma reflexão sobre a necessidade de uma visão biocêntrica e da manutenção de posturas sustentáveis para garantir a permanência da Espécie Humana na Terra. É feita uma discussão breve e genérica do conhecimento científico que nos propiciou grandes avanços tecnológicos, mas nos privou de qualidade de vida e nos propiciou riscos planetários, por conta do desleixo com o planeta e os organismos vivos aqui existentes.


Como eu tenho dito, histórica e repetidamente, para os meus alunos, a verdade é que, de fato, estamos vivendo à era da Biologia, como previram NAISBITT & ABURDENE (1990) e nós, Biólogos, temos que tirar toda vantagem possível desse momento. Quero deixar claro que a palavra vantagem nesse contexto, não quer trazer nenhuma conotação de benefício pessoal ou profissional, até porque estou me referindo à Biologia como ciência, cuja preocupação primária é a vida na Terra.

Nesse contexto, estritamente científico, a Biologia e os Biólogos consequentemente não querem, não devem e não podem determinar uma vantagem exclusiva para a espécie humana e muito menos ainda admitir uma vantagem específica para um indivíduo ou um grupo social único isolado dentro de determinado ecossistema, de qualquer bioma do planeta.

A Biologia e os Biólogos estão preocupados com a vida e com o planeta e nesse momento, com a Biologia em alta, nós devemos criar os mecanismos que permitam garantir a vida planetária, inclusive a vida humana.

Estou apenas me referindo ao fato de que a realidade física e química dos diferentes ecossistemas planetários não consegue se manter sem os organismos vivos, suas atividades e suas peculiaridades, como se pensava em outros tempos, quando a Biologia ainda estava por baixo. Ou seja, na atualidade, quando o mundo científico finalmente entendeu, que qualquer ambiente resulta, além das condições físicas e químicas, também da influência exercida pelas diferentes ações dos organismos vivos nele existente a sociedade precisa fazer coro com essa condição. Deste modo, a Biologia e os Biólogos têm que demonstrar, cada vez mais à Humanidade, a importância de todos os organismos vivos para o equilíbrio ambiental do planeta.

Os organismos vivos importam, explicam, atuam e em determinado sentido, até condicionam certos mecanismos e ações planetárias. Esse fato, que ficou esquecido e não foi considerado pela humanidade ao longo da história, atualmente é protagonista das preocupações humanas e das ações dos pesquisadores nas mais diversas áreas do conhecimento. A Biologia deixou de ser considerada uma ciência pouco importante e agora tem começado a explicar melhor o seu papel, além de obrigar a física e a química a se explicarem de maneira mais efetiva no contexto planetário, onde a vida se manifesta.

Se, primitivamente, a física e a química podiam explicar o planeta, sua composição, sua estrutura e seus mecanismos, hoje nós sabemos que a ação dos organismos vivos pode modificar e certamente modifica todo o contexto inicial e isso pode interferir significativamente nos diferentes ecossistemas. Pior ainda, quando consideramos os efeitos produzidos por uma espécie tremendamente adaptável e modificadora da condição planetária e por isso mesmo cosmopolita, como é a espécie humana, principalmente nos tempos modernos com os efeitos tecnológicos influindo diretamente nos diferentes ambientes de toda Terra.

Na verdade, nossa era tecnológica, só passou a ser assumida efetiva, real e totalmente, quando passamos a aceitar e começamos a entender os padrões biológicos nela contidos. Nossa compreensão sobre os vírus e os demais microrganismos, nossa condição de qualificar e quantificar a biodiversidade orgânica, nosso entendimento do DNA e suas consequências, nossa capacidade de encarar e aceitar realmente a evolução biológica como um processo natural da vida.

O momento crucial das ações tecnológicas humanas só se efetivou quando aceitamos o fato de que os fenômenos e atividades físicos e químicos não existem apenas aleatoriamente e que, de alguma maneira, eles estão ligados à possibilidade e à existência da vida no planeta. Em suma, a presente onda tecnológica só acontece verdadeiramente, porque entendemos que Ecologia, Genética e Evolução são partes importantes da Biologia, que atuam na composição de qualquer mecanismo planetário, independentemente daquilo que possamos, a priori, pensar ou querer demonstrar sobre esse mesmo mecanismo, suas causas e suas consequências.

Quando finalmente passamos a conversar mais proximamente com Newton, Lavoisier, Proust, Einstein, Haeckel, Mendel, Darwin e alguns outros estudiosos e cientistas naturais não menos importantes, todos eles ao mesmo tempo, é que começamos a compreender um pouco mais das coisas que acontecem no nosso planeta Terra. Antes disso, criávamos “monstros tecnológicos” puramente físico-químicos, sem nenhuma possibilidade biológica e obviamente o resultado era sempre fictício e improvável, ainda que até pudéssemos dirigir alguns desses resultados aos nossos interesses. Entretanto, hoje sabemos que a realidade biológica vai além daquilo que podemos controlar e estamos meio perdidos no controle de determinadas ações.

Nos últimos anos, entretanto, a evolução da Biologia como ciência natural e a demonstração, cada vez maior, de sua necessidade na “tecnologização” do mundo, trouxe à baila resultados significativos e nos levou a um momento histórico fundamental, que nos permite afirmar que a física e a química não são capazes de produzir o “mundo ideal” sem a presença dos organismos vivos, sejam eles quais forem e que assim o homem não pode assumir seu pretenso poder absoluto sobre as atividades no planeta. Aliás, talvez, até por isso, é que a vida tenha se desenvolvido aqui na Terra, da maneira como nós a conhecemos, mas essa é outra questão, que não queremos e não vamos discutir aqui e agora.

Ao longo dos anos da história humana, sempre nos preocupamos exclusivamente com a vida humana e isso não nos permitiu, em muitos casos (a maioria deles), estabelecer parâmetros comparativos até confiáveis em comparação com a realidade natural. Criamos sempre uma cultura egoísta e antropocêntrica, na qual só tinha valor aquilo que basicamente era referente ao ser humano, as outras espécies vivas não tinham absolutamente nenhum significado na grande maioria das vezes.
Desta forma, colocamos a Sociologia à frente da Biologia e trabalhamos a natureza pela Física e pela Química caminhando sempre na direção e no interesse da humanidade. Na realidade era como se a Biologia, a exceção dos seres humanos, não existia na natureza, para a grande maioria dos pensadores e estudiosos. Tudo era sempre pensado, produzido e dirigido para a espécie humana.

O Homo sapiens, a espécie superior, sempre esteve no centro e acima de todas as demais espécies. Todo o restante do mundo vivo não era importante, pois era meramente considerado. O mundo vivo não humano, consistia apenas de uma “consequência natural” para as nossas necessidades materiais, as espécies vivas que nos servem como recursos e das nossas benesses e virtudes antrópicas, as espécies vivas que nos são agradáveis e por isso nós as deixamos dividir o nosso espaço planetário.

Isto é, toda a inteligência humana, historicamente, foi usada a serviço exclusivo dos seres humanos, como se fôssemos efetivamente a única espécie viva de importância significativa para o planeta. Nunca questionamos os seguintes fatos: por que o mecanismo evolutivo da natureza permitiu a produção de alguns milhões de espécies no planeta? Será mesmo que elas são necessárias? Para que tanto desperdício de matéria orgânica? Ou ainda, como eu já ouvi algumas vezes, para que serve, por exemplo, a barata?

Caramba! Quanto se deixou de entender e fazer sobre o planeta e sobre a vida por conta dessa arrogância humana. Por outro lado, quando se deixou de lado essa visão deturpada e caolha do planeta e dos demais organismos vivos, as coisas passaram vagarosamente a mudar. Finalmente, o mundo, na metade final do Século XX, talvez um pouco tarde, começou a pensar diferente e hoje estamos vivenciando um momento de muitas dificuldades, por um lado, mas de grandes expectativas e de crescentes possibilidades por outro. Certamente ainda existe saída para os erros cometidos pela nossa espécie, mas essa saída será difícil e bastante complicada.

Enquanto a Física e a Química desenvolveram tremendamente e a Sociologia se diversificou muito, a Biologia, até a metade do século XIX, continuava sendo puramente descritiva e informativa, apesar de algumas tentativas de cientistas importantes, como Georges Cuvier e Jean Baptiste Lamarck. Apenas em 1859, com a publicação da Origem das Espécies de Charles Darwin, onde ele apresentou a Teoria da Seleção Natural, desenvolvida com a colaboração de Alfred Wallace, houve uma sacudidela no mundo e só aí, a Biologia começou, mas ainda de maneira rudimentar, a se manifestar como ciência.

Depois vieram Gregor Mendel, Hugo de Vries, Thomas Morgan, Theodosius Dobzhansky, Ernest Mayr, Francis Crick, James Watson, Eduardo Wiley. Richard Dawkins, Edward Wilson, Stephen Gould e vários outros Biólogos menos famosos, mas não menos importantes, que com seus trabalhos contribuíram muito para a ascensão da Biologia. Assim, os Físicos e os Químicos também passaram a observar novos aspectos e outras possibilidades de aplicações de seus respectivos interesses.

A era tecnológica que já se vislumbrava e que já vinha sendo incrementada, desde a invenção da lâmpada, do telefone, do motor, do rádio, da televisão, do cinema, do transistor, do fax e com o conhecimento e aperfeiçoamento do átomo e dos estudos nucleares, passou incluir as ideias da Biologia no seu universo, e aí vieram os submarinos nucleares, os foguetes espaciais, o computador (“cérebro eletrônico”), o computador pessoal, o “chip”, o “notebook”, o telefone celular, os “vírus” e as “vacinas eletrônicas” e tantos outros artefatos assumiram conceitos de base biológica.

Entretanto, a humanidade sempre se esqueceu, ou melhor, não percebeu, que tudo vem da natureza e que todas as coisas, mesmo aquelas produzidas pelo trabalho da própria humanidade, demandam recursos naturais e que os recursos naturais não são eternos. Isto é, essas coisas criadas pela mão humana, também são feitas a partir da natureza e toda vez que se cria algo, são utilizados recursos naturais, e em contrapartida são destruídos (transformados) esses mesmos recursos. Na verdade, em essência, nada é artificial, porque tudo vem da natureza. Além disso, o homem, não sei o porquê, demorou mais enfim, também terminou descobrindo que o uso contínuo e exacerbado de recursos naturais pode levar ao esgotamento de alguns deles.

O homem pode modificar umas coisas e produzir outras, mas a base para a produção é sempre um ou mais recursos naturais e não há como fugir disso. Tudo que existe vem da própria natureza planetária. As maravilhas que a tecnologia cria seriam impossíveis se não existissem os recursos naturais. A Biologia vem gritando isso para a humanidade já faz muitos anos, mas muitos indivíduos dentro dos diferentes setores das sociedades humanas têm sido renitentes e alguns deles parecem que ainda não estão querendo ouvir.

A Humanidade nunca se preocupou muito (na verdade, não se preocupou praticamente nada) em saber, se aquele artefato ou produto que estava sendo feito (produzido ou transformado), era necessário, ou se era muito ou pouco importante, ou se era apenas algo acessório, ou ainda se era tão somente um apetrecho diletante. Quase nunca se avaliou, o quanto a existência desse artefato ou produto se contrapunha a algo (recurso natural) que poderia deixar de existir e que talvez fosse tão importante ou mais que o produto em si.

O que interessava era somente o produto, porque a “mãe natureza” foi uma dádiva do Criador, que está aí apenas para servir a humanidade. Infelizmente, em pleno século XXI, ainda existem muitos seres humanos que acreditam piamente que os recursos naturais do planeta, foram postos por Deus, simplesmente para servir aos interesses do homem. Para esse tipo de ser humano, os recursos estão aí para serem usados e as demais espécies são contingências desagradáveis da própria existência humana. E não se preocupem, porque Deus sempre nos dará recursos.

Entretanto, nós sabemos que tudo aquilo que se usa sem critério um dia acaba e esse fato já aconteceu com vários recursos naturais. Muitos recursos naturais foram destruídos e exterminados em produtos que muitas vezes acabaram sendo também inutilizados posteriormente, pela mesma tecnologia que os havia criado. Foi nessa hora que o homem entrou mais seriamente num conflito incoerente e direto com a natureza. Isto é, no exato instante em que o homem passou a produzir aquilo que não precisa, gastando sem sentido o recurso que a natureza possui pouco ou que já não possui mais. De repente, o recurso natural em questão acabou e aí, também foi o fim também daquele produto.

Além disso, é preciso considerar outro aspecto fundamental, que, no passado, foi costumeiramente deixado de lado. Todo o processo de transformação e produção ocasiona alguma sobra, algum resíduo (poluição e lixo) desinteressante, que muitas vezes é contaminante ou tóxico e pode ser danoso à saúde. Porém, mesmo não sendo prejudicial à saúde, o resíduo ocupa espaço e geralmente não tem onde ser devidamente guardado e muito menos, como ser tratado de maneira segura ao ambiente.

Aliás, aqui cabe lembrar que esse resíduo (poluição e lixo) também é uma invenção exclusiva da humanidade, porque a natureza não produz poluição e nem lixo, porque tudo que a natureza produz, ela mesma desenvolveu um mecanismo para decompor e transformar. O problema é que tem coisas que o homem produz, que natureza não conhece e assim a natureza não conhece e não tem como decompor ou que o processor de decomposição é demasiadamente lento.

Por isso mesmo, ao longo do tempo, o homem sempre teve o problema de se livrar do resíduo e sempre quis se livrar do resíduo e “jogar o lixo fora”. Entretanto, a questão é bem mais complicada, porque não existe “fora”, porque o planeta é um só e tudo fica mesmo aqui dentro mesmo.

Historicamente, nós apenas conseguimos mudar o resíduo de posição. Sendo assim, há necessidade de tratar os resíduos para resolver alguns problemas. Recomendo a leitura dos artigos anteriores, LIMA (2014a e 2014b), onde discuto melhor essa questão.

A humanidade se acostumou com essa triste situação: usar recurso natural e produzir poluição e lixo. Entretanto, ao acabar o recurso, automaticamente ela passava a se utilizar de outro e produzia mais poluição e lixo. Assim, este ciclo infeliz tem continuado indefinidamente até quando o Planeta puder aguentar e, ao que parece, a Terra já não está aguentando e tem, cada vez mais, produzido provas desse fato.

O momento que estamos vivenciando é exatamente esse: já chegamos (na verdade, já passamos) ao limiar do suporte planetário. Muitos dos recursos já acabaram ou estão acabando e muitos de nós, seres humanos, parece que não conseguimos ou não queremos entender que existe necessidade de parar de utilizar esses recursos naturais e de produzir poluição e lixo ou de usar os recursos com parcimônia e com coerência, impedindo ao máximo à formação de poluição e do lixo e reaproveitando de alguma maneira os resíduos possíveis. Precisamos mudar o nosso comportamento em relação ao planeta e ao uso dos recursos naturais.

Por outro lado, com o reconhecimento desses fatos, muitos seres humanos têm tentado frear o abuso do consumo indiscriminado de recursos naturais e da produção de lixo. Ao contrário do que alguns dizem, esses seres humanos não são contra as benesses da tecnologia, mas estão preocupados com a destruição e com o desperdício inconsequente dos recursos naturais.

Finalmente, muitos dos líderes e aficionados da tecnologia já perceberam os riscos e tem feito tudo o que podem para gastar menos recursos naturais. Isto é, usar apenas o necessário e gerar a menor quantidade de resíduos possível. Entretanto, alguns setores da sociedade continuam insistindo em manter o “status quo”, alegando interesses dúbios e se justificando com coisas e situações absurdas.

Desta maneira, estamos numa encruzilhada na qual temos duas alternativas: ou a Sociologia assume as mesmas posições da Física e da Química, fazendo coro com os interesses da vida e do planeta, antes de promover os diletantismos da humanidade ou a espécie humana está fadada à extinção precoce, por conta da carência dos recursos naturais que ela tanto necessita e por conta do acúmulo de resíduos que ela produz. Sempre é bom lembrar, que o resultado do impasse depende única e exclusivamente de nós.

Se a segunda alternativa vier realmente acontecer, a própria humanidade será a única responsável pelo fim da espécie humana. Entretanto, o problema não reside só aí, pois muitas outras espécies, que não têm nenhuma culpa no que se refere ao caos planetário instalado, também perecerão em consequência dessa ocorrência. A Biologia também permite afirmar que o planeta é resiliente e seguirá mantendo os organismos vivos que resistirem e obviamente as novas formas que ao longo do tempo surgirão. Há até quem diga que essa será a “Terra ideal”, ou seja, a Terra sem os seres humanos, mas essa também é outra discussão que fica para depois.

Para concluir, quero registrar que se essa postura for realmente assumida pelo Homo sapiens, ela será ao mesmo tempo criminosa, porque destrói e degrada parte significativa do planeta; assassina, porque mata indivíduos e extermina outras espécies vivas e suicida, porque acabará por extinguir a humanidade. Somente com uma atitude biocêntrica efetiva da sociedade, com respeito a todas as espécies vivas da Terra, com o uso parcimonioso dos recursos naturais e controle efetivo da produção de resíduos e que teremos algumas perspectivas de sobrevivência.

Enfim, na Era da Biologia temos que ter coragem para entender que somente com o desenvolvimento de uma tecnologia sustentável, favorável ao planeta e respeitando a vida nele existente é que poderemos escapar desse futuro degradante e terrível que já está assombrando a muitos seres humanos e que se aproxima rapidamente.

REFERÊNCIAS

LIMA, L. E. C., 2014. O Consumismo e o Grande Erro da Expressão; “jogar o lixo fora”,
www.profluizeduardo.com.br, 2014a.
LIMA, L. E. C., 2014. O Lixo na Natureza e a Guerra Homem X Terra, www.profluizeduardo.com.br, 2014b.
NAISBITT, J. & ABURDENE, P. Megatrends 2000 – Ten New Directions for the 1990’s. New York, William Morrow and Co., 1990.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (64) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor e Ambientalista.