Resumo: Desta vez estou trazendo um texto reflexivo, através de uma crítica, a meu ver necessária, aos mecanismos que têm sido utilizados como modelos de Educação Ambiental. Esses modelos precisam ser repensados, pois na verdade eles estão progressivamente colaborando para que os recursos naturais continuem sendo explorados sem critério ou de maneira indevida
Se houver uma necessidade objetiva e
real de se identificar e de definir qual é a área do conhecimento mais
prioritária à formação e ao desenvolvimento humano, certamente haverá um
consenso de que esta é a área da Educação. Por outro lado, se também houver uma
necessidade real e objetiva de se identificar e de definir qual é a área mais
importante para a manutenção dos padrões de segurança e de qualidade de vida
dos organismos e dos grandes ecossistemas planetários, obviamente também haverá
um consenso de que esta é a área do Meio Ambiente.
Na verdade, essas duas áreas
compreendem todos os grandes problemas humanos, pois tudo decorre dessas duas
bases operacionais. Ou não se tem educação e assim não se sabe tratar o meio
ambiente, ou não se trata devidamente o meio ambiente porque se desconhece a
educação. Embora, aparente mente distintas, essas duas áreas são extremamente
associadas e conseguem unidas responder por todos as questões pendentes e
preocupantes da humanidade ao longo da história.
A Educação é muito antiga, sendo
entendida como necessária desde o surgimento da humanidade. Ensinar e aprender
são verbos obrigatoriamente presente em todas as atividades humanas e tanto os
progressos como os retrocessos humanos, obviamente são frutos da educação ao longo
da existência da humanidade. Já o meio ambiente é um aspecto novo que começou a
ser colocado formalmente dentro dos parâmetros humanitários nos últimos 50 anos
e de repente se espalhou e se misturou por todas as atividades humanas.
Há alguns anos foi criado um termo,
muito em moda na atualidade, Educação Ambiental, cujo intuito era o de tentar
associar a educação ao meio ambiente, mas sempre se reduziu essa ideia a meras
formalidades e situações específicas e, na verdade, a Educação Ambiental
continua sendo, até aqui, muito artificial, porque ela se ocupa de situações
problemáticas específicas e locais. Entretanto, o mundo hoje é globalizado e
não adianta eu me referir a determinado caso de um determinado setor de uma
certa localidade, porque isso não é educativo e muito menos é ambientalmente
correto. A educação tem que ser preventiva e o meio ambiente tem que estar
também previamente prevenido das ações antrópicas potencialmente causadoras de
dano.
Quer dizer, não adianta se
desenvolver um programa sobre uma questão localizada qualquer. Há necessidade
de que se trate o problema de maneira genérica, projetando uma maneira desse
problema não ter como existir. O planeta é um só e as demais entidades vivas
sobre o planeta, inclusive e preferencialmente os humanos, precisam estar
propensos a ter boa qualidade de vida em qualquer lugar ou situação da Terra.
Se não for assim, não se está devidamente educado e tampouco está se cuidando
do meio ambiente da maneira correta. Em suma, o termo Educação Ambiental, acaba
não sendo, nem educação e nem meio ambiente, apenas se ocupa das duas áreas
para justificar um determinado problema. Portanto, essa ideia de Educação
Ambiental é pequena para a necessidade e muito pouco abrangente para a
necessidade real.
Quando se está falando de Educação
existe a preocupação de que se esteja instruindo, guiando, ensinando. A palavra
Educação vem do latim educere (ex + ducere), que significa “guiar
para fora”, ou seja, conduzir para além das necessidades próximas, ou melhor,
instruir para resolver outros problemas. No seu sentido mais amplo a palavra
quer dizer: “levar uma pessoa para fora” de si mesma, mostrar o que mais
existe além dela.
A expressão Meio Ambiente, que é uma
redundância e um pleonasmo, “o meio do meio” ou o “ambiente do ambiente”,
porque meio e ambiente, em certo sentido são palavras sinônimas, ou seja, têm
exatamente o mesmo significado. Ambas as palavras que compõem a expressão, também
vem do latim ambiens, que significa “andar ao redor” ou “ir em
volta” e medius, que significa “meio” ou “lugar acessível a todos”.
Talvez um termo apenas, como no idioma inglês, environment, fosse
mais correto. Mas, nós não vamos discutir etimologia aqui, até porque a noção
geral da expressão parece ser bem clara a todos.
Então, a educação visa “guiar para
fora”, o ambiente visa “andar ao redor”, ambos conceitos que saem do indivíduo
e que dizem respeito ao seu exterior, objetivando exatamente o entendimento do
que está fora. Desta maneira, eu não posso fazer Educação Ambiental apenas daquilo
que está no meu entorno, se o mundo é muito maior e mais abrangente do que o
meu limite físico. Certamente um exemplo pode será mais bem interpretado.
Imagine que você é um professor de
Educação Ambiental e trabalhou a coleta do lixo e a reciclagem, aliás esse é
efetivamente um tema muito comum, nessa chamada educação ambiental. Durante sua
aula você demonstrou que a latinha de alumínio é um resíduo que pode ser
reciclado e recolocado na produção, para tanto é necessário apenas quer alguém
que coleta as latinhas usadas. Desculpe-me, mas não há nenhuma educação e muito
menos ambiental nesse fato.
Ao contrário, existe sim um fato lamentável,
que demonstra que o alumínio é reciclável e que usar as latinhas de alumínio é algo legal
porque gera “emprego” para alguém. Aliás, existe até algumas pessoas que pensam
(se iludem) e juram que reciclar é um bom negócio porque dá lucro. Então, está tudo errado e eu vou pontuar alguns
dos motivos, porque está errado.
1 – Reciclar não dá lucro, quando muito, consegue diminuir o
prejuízo de alguém e permite o lucro para outro alguém, mas de qualquer maneira
a perda para quem produziu, no caso a natureza, sempre é maior do que o lucro de
quem usou e vendeu, de quem reciclou e revendeu (“ganhou”).
2 – Reciclável ou não a latinha de alumínio é um produto
oriundo da alumina (óxido de alumínio) que é o principal componente bauxita,
que é o principal minério formador do alumínio. Portanto o alumínio é um
recurso natural não renovável e como tal, depois de retirado da natureza não há
como retorná-lo à condição inicial. Desta maneira sua exploração não deve ser
incentivada, pois à hora que acabar, simplesmente acabou.
3 – Não há nada de interessante na utilização constante e
predatória de um recurso natural não renovável, principalmente quando existem alternativas
cabíveis para resolver o mesmo problema, a custos ambientais e muitas vezes
também econômicos, mais vantajosos.
4 – Reciclar é bom e necessário, pois reaproveita material,
diminui custos energéticos e outros. Entretanto, reciclar não é fundamental
para o meio ambiente, antes é melhor repensar certas práticas e certos usos de
determinados recursos. As tecnologias e os usos alternativos, além de produzirem
um desincentivo cada vez maior ao consumo de recursos naturais, devem ser as
verdadeiras orientações e premissas básicas da Educação Ambiental.
5 – Por fim, não se deve partir para falar de Educação
Ambiental já assumindo a reciclagem como uma prioridade, pois as prioridades
educacionais para o meio ambiente devem ser: não utilizar recursos
indevidamente e não produzir resíduos.
A partir do exemplo dado, vejam bem
que, se até houve alguma educação, não foi mito boa para o Meio Ambiente, isto
é não foi Educação Ambiental. Talvez tenha sido boa educação comercial ou
educação industrial ou sei lá o quê, ou ainda educação de como conseguir obter
algum dinheiro com o resíduo dos outros, através da degradação do planeta.
Ambientalmente então, na verdade, se estimulou para que se continue usando
latinhas, porque elas vão gerar recursos para alguém. Aliás, aqui a coisa é
mais complicada ainda, porque sempre se pensa, infelizmente, em alguém pobre
que vai conseguir alguma coisa através do resíduo de alguém rico e isso, a meu
ver é até preconceituoso e deveria ser evitado.
Quero crer que haveria educação se
fosse informado e trabalhado o fato de que o uso do alumínio é apenas conveniente
para quem vende o produto e que o custo da lata já está inserido no referido
produto, portanto não houve perda econômica, houve apenas perda ambiental. Por
outro lado, deve ser dito também que o lixo (resíduo produzido), isto é, a
latinha, que pode dar lucro para alguém, acaba, infelizmente, atraindo as
pessoas mais necessitadas ou menos esclarecidas e indiretamente intensificando
mais a desqualificação profissional e prejudicando o desenvolvimento de outras formações
e profissões, que talvez possam produzir melhores salários às pessoas.
O melhor lugar para a bauxita, assim
como de qualquer recurso natural, é onde ela se formou, isto é, na própria natureza.
Se o homem decidiu se apropriar e utilizar a bauxita porque esse é um tipo de
minério interessante, que se presta a vários produtos de interesse humano,
então que o seu uso seja exatamente do mesmo tamanho de sua necessidade e que
não haja excesso na sua exploração. A sustentabilidade é um conceito que deve
fazer parte primária de qualquer ação ligada à questão ambiental e a Educação
Ambiental, para cumprir seu propósito de maneira efetiva, não pode deixar a
sustentabilidade de lado.
O consumo exacerbado não cabe dentro
do conceito de sustentabilidade e os humanos que ainda não nasceram têm tanto
direito de usar a bauxita quanto nós temos, mas se o uso continuar do jeito que
está, eles só poderão conhecer o minério bauxita num Museu de História Natural.
Mas, isso também só será possível se alguém lembrar de guardar uma porção de
bauxita para tal fim. Muitos recursos naturais não renováveis já não existem
mais na natureza e nem estão presentes na maioria dos museus.
Mas, vejam bem, me utilizei de um
recurso natural não renovável como exemplo, mas eu também poderia utilizar de exemplo
um recurso natural renovável. Por exemplo o Jacarandá-da-Bahia é (ou era) uma
árvore frondosa, de madeira nobre e dura, bastante utilizada na indústria moveleira
e na construção civil. Pois então, por conta de seu uso indiscriminado está em
processo crônico de extinção na natureza e já desapareceu totalmente em alguns
estados, como São Paulo, por exemplo. Restam poucas áreas no estado da Bahia e
praticamente desapareceu no restante do Leste brasileiro. Primitivamente,
ocorria de Pernambuco até o Paraná. Será que o neto do seu filho será capaz de
ver um Jacarandá na natureza?
A Educação Ambiental deveria ensinar
primeiro o que é o Jacarandá-da-Bahia como espécie de planta, depois dizer como
manter a espécie e da importância das reservas naturais da espécie por questões
biológicas e só depois deveria falar de sua utilidade paro o interesse humano.
Mas, infelizmente não é assim que se costuma proceder e por isso progressivamente
espécies são extintas, tanto as espécies vegetais, como é o caso do Jacarandá,
mas, principalmente, as espécies animais, que estão por aí, sendo dizimadas sem
nenhum critério, para atender a vontades infundadas e utilidades indevidas
(algumas vezes absurdas) de quem quer que seja.
Já passou da hora de brincar com Educação
Ambiental. Está na hora de fazer coisa séria, entendendo que educação é um
processo genérico e que o meio ambiente é diferente de um local para o outro,
mas que qualquer local é um meio ambiente e que há necessidade de uma maneira
devida e certa de tratar com esse local. Entretanto, é preciso estar claro que
essa maneira não pode e não deve ser a mesma em locais diferentes, exatamente
porque esses locais são diferentes, a dinâmica é diferente, os organismos são
diferentes as condições físicas e químicas são diferentes. E mesmo nas cidades
ou nas indústrias, os mecanismos e os processos são diferentes e assim o
procedimento em cada caso deve e tem que ser diferente. A Educação ambiental
deve levantar e discutir os problemas, mas para resolvê-los, cada situação será
uma situação e assim, terá certamente uma resposta diferente.
Não é possível tratar educação e meio
ambiente isoladamente ou apenas como causa e efeito de um processo local. O
ambiente é teoricamente tudo e a educação teoricamente tem que ser capaz de
resolver ou pelo menos de pensar a cerca de tudo, pois do contrário não é
educação é apenas e tão somente treinamento, ou melhor adestramento. Isto é,
ensina e resolver um problema, mas não cria a possibilidade de gerar novas
situações a partir daquela. No meio ambiente sempre vão existir novas situações
e o homem precisa estar preparado para atendê-las da melhor maneira, sempre
atentando para o fato de que a natureza e os inúmeros ambientes planetários são
para todos os organismos, atuais e futuros, terem vida com qualidade.
Educação e Meio Ambiente têm que ser
tratados de uma maneira globalizada, porque ainda que os interesses primários
sejam locais, o interesse de qualquer questão ambiental planetário, pois atinge
direta ou indiretamente todos no planeta. A educação que se presta a esse tipo
de interesse planetário tem que ser interessante para toda humanidade, porque
deverá servir como forma de orientação para todo e qualquer ser humano e não
como simples modelo de uso de uma situação ou localidade, que necessita de uma
solução momentânea.
Continuarei sendo um crítico desse
modelo de Educação Ambiental que se limita a fazer curativos em situações, mas
que não se preocupa de fato com a origem da doença. Precisamos pensar preventivamente
antes de propor qualquer programa de Educação Ambiental. Não devemos apenas
resolver problemas, a profilaxia ambiental tem que ser o objetivo primário da
Educação Ambiental. Ao invés de controlar a dengue matando mosquitos, porque
não ensinamos aos nossos alunos e pesquisamos o porquê da dengue não se transmitir
a partir das bromélias, se elas estão cheias de água parada e repletas de
larvas de mosquitos.
Quando nós partirmos para esse tipo de Educação Ambiental, que envolve o todo e não as partes isoladamente, veremos que não haverá diferença na abordagem entre a Educação e o Meio Ambiente, porque ambos estão relacionados ao cuidado com o entorno, com o que está ao redor. Mas, é bom lembrar ainda que a expressão “ao redor”, também é relativa, porque esse “ao redor” está limitado ao espaço planetário.
Luiz Eduardo Corrêa Lima (63)