17 set 2014

Agrotóxicos e Transgênicos

Resumo: O Prof. Luiz Eduardo apresenta mais uma Curtinha, dessa vez enfocando uma questão muito controvertida, na qual o Brasil é campeão mundial e que está na mesa de todo cidadão brasileiro: os alimentos com substâncias químicas tóxicas e os alimentos modificados geneticamente (Agrotóxicos e Transgênicos). O texto é relativamente curto e chama a atenção da falta de controle sobre o uso dessas substâncias no país. A questão é assustadora, se considerarmos a quantidade de veneno de certos alimentos e a quantidade de transgênicos que já estão na nossa casa e que a gente nem imagina. Leiam o texto que vocês poderão comprovar o que estou dizendo e quem sabe vocês passem a somar comigo na luta contra esses absurdos.


Agrotóxicos e Transgênicos

A grande maioria dos brasileiros certamente desconhece os fatos de que, desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos e que, desde de 2010, é o segundo maior produtor de transgênicos da Terra, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Só para dar uma ideia, no ano de 2010, o país utilizou mais de 800 milhões de litros de veneno nas lavouras e nesse mesmo ano a área plantada com transgênicos no país atingiu 25 milhões de hectares e de lá para cá, obviamente, os números só ficaram maiores. Mas, e daí? Qual a importância desses números e dessa situação?

No que diz respeito aos alimentos transgênicos ou organismos geneticamente modificados (OGMs), eu particularmente considero um absurdo e uma incongruência, no mínimo bastante estranha, que o país que possui a maior biodiversidade planetária, ao invés de trabalhar para garantir essa biodiversidade e procurar investir em pesquisas para conhecer melhor o seu patrimônio natural e, quem sabe, até mesmo identificar novas fontes alimentares agrícolas, prefere pagar “royalties” às multinacionais detentoras das sementes e dos direitos sobre os alimentos transgênicos. Além disso, o país ainda facilita a distribuição dessas sementes sem nenhuma parcimônia, algumas vezes até, em detrimento das chamadas “sementes caboclas” ou “crioulas” (nativas) de determinadas plantas.

Por outro lado, no que diz respeito aos agrotóxicos, eu considero um grande equívoco que o Brasil, sendo um país continental e já com imensas áreas desmatadas e degradadas por força de atividades agrícolas condenáveis e suspeitas ao longo da nossa história recente, ainda não tenha aprendido que é possível cultivar sem envenenar as plantas, o solo, a água e os organismos vivos que se utilizam dessas plantas, inclusive o homem. Além disso, também deve ser ressaltado que é possível produzir alimentos sem ter que comprar fertilizantes e “defensivos agrícolas” (venenos) de grandes indústrias químicas multinacionais.

Por outro lado, os transgênicos e os agrotóxicos também são dois contrassensos aos interesses ambientais e planetários e o Brasil não deveria estar de maneira nenhuma tão envolvido nessas questões. Entretanto, como os interesses das multinacionais e a força da bancada ruralista é muito grande no Congresso Nacional e a preocupação desses setores é única e exclusivamente econômica, eis que somos recordistas nessas coisas ruins. Pior ainda é que por conta desse grupo político o Brasil deixou de assinar, recentemente (agosto de 2014), a adesão às discussões do Protocolo de Nagoya que trata sobre biopirataria e que interessa muito de perto aos países de grande biodiversidade. Pois então, é como diz o ditado: “em casa de ferreiro o espeto é de pau”.

Desta maneira, nós vamos seguindo envenenando os nossos solos, nossa água e nossa comida com agrotóxico e, o que pior ainda, continuamos a licenciar e autorizar o uso dessas diferentes substâncias químicas, que já passam de 8.000 (oito mil) utilizadas no país, com o aval da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Também seguimos ampliando as áreas das essências já existentes e plantando novas essências transgênicas, com a autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Cabe esclarecer ainda, que nada sabemos sobre os transgênicos, nem do ponto de vista comercial, nem industrial e muito menos ainda, do ponto de vista biológico, particularmente genético, haja vista que somente a citada comissão e os detentores da patente podem trabalhar com o produto.

A única verdade é que os nossos supermercados, padarias, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais ligadas à alimentação estão repletos de alimentos geneticamente modificados e alimentos ricos em veneno e ninguém sabe dizer exatamente o que isso pode significar ou pode produzir na saúde humana e animal. Por outro lado, estamos cientes de que certos males, como os índices de câncer, principalmente de intestino e de órgãos digestivos aumentam; os quadros depressivos crônicos, que incrementam as taxas de suicídios em certas comunidades rurais, também aumentam; a contaminação de crianças através do leite materno de suas respectivas mães que trabalham ou que vivem em comunidades rurais e agrícolas, estão cada vez mais comuns. Enfim, esses e outros aspectos estranhos e recentes que estão relacionados à saúde do cidadão brasileiro são cada vez mais frequentes e há inúmeros indícios de que as causas são os agrotóxicos.

Em alguns casos a dependência do agrotóxico (veneno) é tal que certas plantas só conseguem se desenvolver por conta quase que exclusiva dos agrotóxicos que lhes são ministrados. O morango, o tomate, a batata e outros estão entre os campeões em quantidade de veneno. A utilização de alimentos oriundos de agricultura orgânica e isenta de agrotóxicos, talvez sejam a melhor solução para não nos envenenarmos, porém ainda não dá (provavelmente nunca dê) para competir com a agricultura comercial e lamentavelmente algumas vezes também não dá para confiar se, na verdade, alguns desses alimentos são efetivamente orgânicos, porque o controle e a fiscalização ainda são muito insipientes.

Por sua vez, os transgênicos, que pela legislação têm que trazer essa condição de transgênico informada nas suas respectivas embalagens, burlam deliberadamente a lei e muitas vezes não trazem nenhuma indicação. Não entendo como nem a ANVISA, nem a CTNBio, nem a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), nem o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO) e nem qualquer outra entidade normalizadora ou fiscalizadora não conseguem fazer as empresas que produzem ou que têm produtos transgênicos na sua composição cumprirem a lei, pelo menos nesse aspecto.

Desta maneira, quero ressaltar que embora o consumidor não seja informado e consequentemente ele não deva saber, hoje mais de 50% dos produtos encontrados nas prateleiras dos supermercados são originários ou têm na sua composição organismos geneticamente modificados (transgênicos). Só para dar um exemplo, até mesmo a nossa cerveja, bebida preferida dos brasileiros, já vem tendo seu malte originado de 45% de milho transgênico. Quer dizer, o consumidor não tem nem a possibilidade de escolher e decidir não usar transgênicos, porque esses produtos são passados e vendidos por debaixo do pano e sem nenhuma informação aos interessados.

Eu confesso que não sei qual deve ser o mecanismo, entretanto alguém precisa tomar as devidas providências no sentido de informar a população e tentar moralizar o verdadeiro estado de coisas que tem acontecido na área de alimentação no Brasil, porque alimentos ricos em veneno ou geneticamente modificados são riscos potenciais à saúde humana, à saúde animal e principalmente ao meio ambiente e precisam ser efetivamente tratados como “coisas perigosas” pelas autoridades, em particular pelos órgãos de fiscalização, em benefício da população brasileira e não de interesses puramente comerciais.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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13 set 2014

A Qualidade de Vida tem que estar acima de tudo

Resumo: O Prof. Luiz Eduardo apresenta um texto chamando a atenção para o fato de que as pessoas e entidades que podem realmente intervir para melhorar a qualidade de vida planetária, efetivamente não se envolvem diretamente nas questões ambientais, porque estão preocupadas apenas com questões econômicas. O texto é denso, porém claro e objetivo. O tema é preocupante e paralelamente palpitante, por isso mesmo precisa ser muito discutido, até porque temos eleições pela frente e precisamos ter informações para cobrar as ações relacionadas com o meio ambiente e com a qualidade de vida, que atualmente devem ser as metas prioritárias de qualquer gestor. Leiam o texto que é muito elucidativo e certamente vocês não irão se arrepender.


A Qualidade de Vida tem que estar acima de tudo

Enquanto a humanidade segue se arrastando para entender e tentar superar alguns problemas geoclimáticos e geopolíticos graves, alguns homens que detêm grande parte do poder econômico planetário continuam trabalhando na contramão dos interesses dessa mesma humanidade.

Ora, a situação descrita no parágrafo acima consiste num grande contrassenso, o qual fica mais agravado ainda, quando os diferentes governos, principalmente aqueles que dirigem as grandes potências econômicas, agem de acordo com a vontade manifesta desses grupos econômicos empresariais dominantes, indo contra os interesses comunitários da grande maioria da humanidade e, mais particularmente, contra os interesses planetários naturais.

Em suma, vivemos uma crise planetária ambiental que é insuflada pelos seres humanos mais ricos com a anuência e a colaboração dos dirigentes e administradores públicos mundiais e contra os interesses maiores do planeta e da qualidade de vida da própria humanidade. Os governos se prendem ao capital e ficam na dependência das pessoas físicas ou jurídicas economicamente mais poderosas e assim não fazem o dever de casa e não cumprem as suas obrigações primárias de atender as necessidades humanitárias fundamentais, porque ficam à mercê dos interesses estritamente econômicos daqueles que possuem dinheiro.

Dessa maneira, exatamente quem poderia e legalmente deveria estar atuando no sentido de buscar melhorias para as diversas questões que afligem a humanidade é quem mais está intensificando os efeitos indesejáveis dessas questões e consequentemente aumentando as mazelas que cada vez mais destroem o planeta e prejudicam a qualidade de vida de toda a humanidade. Os governos necessitam reassumir suas respectivas funções na ordem social, pois a continuar assim, a humanidade rapidamente entrará numa situação irreversível de extermínio.

Como é possível reverter esse quadro?

Do ponto de vista teórico, a solução ideal está na produção de um modelo de Educação Básica para todas as comunidades humanas, na qual sejam revitalizados, intensificados e incentivados os estudos dos mecanismos naturais que permitiram e mantiveram a vida na Terra até aqui, a fim de que a humanidade possa ser fiadora da manutenção desses mecanismos, independentemente dos interesses particulares de alguns grupos. Entretanto, não parece haver muita vontade política e nem muita força efetiva para que essa situação ideal se transforme em plano real de ação, haja vista que esse é um processo caro e que atrapalharia principalmente aos interesses daqueles que dominam o poder econômico. Por isso mesmo, Educar, ainda que apenas basicamente a população humana mundial, lamentavelmente permanece sendo uma utopia pensada por poucos seres humanos e praticada por um contingente menor ainda.

Além do mais, mesmo que fosse possível o estabelecimento desse sonhado mecanismo de Educação, o tempo necessário para que os processos educacionais fossem assumidos pelas diferentes comunidades seria relativamente longo para disponibilidade temporal que ainda existe. Infelizmente, nós não temos mais tempo suficiente para depender de ações meramente educativas. Quer dizer, chegamos num nível tal que, somente a Educação não será suficiente. Há necessidade de agir imediatamente, pois a situação, além de calamitosa, também é urgente.

Assim, considerando que não dá mais para conduzirmos as questões pensando somente nos mecanismos educativos que possam produzir mudanças comportamentais e minimização progressiva dos problemas, resta agora a necessidade real e efetiva de implementarmos posturas radicais e atividades de choque, até mesmo algumas atitudes ditatoriais, que possam induzir e produzir mudanças significativas. Algumas dessas mudanças terão que ser, além de rápidas, também profundas e até drásticas, para conseguir viabilizar a melhoria das condições ambientais do planeta e consequentemente da qualidade de vida da humanidade. Não há mais o que negociar, agora só nos resta fazer as mudanças e obviamente cumpre aos diferentes órgãos governamentais a tarefa de estabelecer as normas e os procedimentos o mais rápido possível.

Até aqui, as inúmeras reuniões internacionais que têm tentado discutir sobre os grandes problemas ambientais planetários, cada vez mais, têm terminado sem nenhum acordo positivo. Discute-se, discute-se e não se chega a lugar nenhum. O que se decide é apenas e tão somente a data da próxima reunião e nada de positivo acontece. Dessa maneira, o tempo tem passado, a desgraça só tem se ampliado e a humanidade e o planeta só se deterioram cada vez mais. Quer dizer, estamos vivendo num ciclo vicioso que discute o que se deveria fazer, mas que não se propõe a fazer exatamente nada e assim nada se resolve.

É preciso que os governos parem de pensar e agir apenas no interesse do viés econômico, pois foi exatamente essa prática contumaz que nos trouxe a esse “status quo”. Além do mais, é preciso também lembrar que dinheiro só serve para a espécie humana e que nossa espécie só poderá utilizar esse dinheiro enquanto estiver vivendo no planeta. Quer dizer, se não pretendemos continuar aqui no planeta, também não precisamos de dinheiro. Quero crer que viver seja prioritário sobre ter dinheiro, mas não parece que os governos pensam desta forma e assim deve ser perguntado: queremos viver ou queremos ter dinheiro?

Os governos necessitam ser mais pragmáticos em relação a vida planetária e as comunidades, por sua vez, necessitam ser mais fortes para contestar, provocar e forçar os governos a tomarem as decisões e agirem no interesse maior da humanidade e do planeta e não no interesse dos grandes grupos econômicos. Aliás, está na hora dos próprios seres humanos que compõem os grupos econômicos privilegiados entenderem que o fim será de todos e não só dos pobres, pois o dinheiro sozinho não conseguirá fazer a mágica de manter a vida. Isso quer dizer que os ricos, se quiserem continuar ricos, terão primeiro que continuar vivos e do jeito que está a situação essa hipótese está ficando cada vez mais remota.

Para a humanidade, doravante, a busca constante pela melhoria da qualidade de vida deve ser a única moeda de valor, para que possamos conseguir reverter o atual estado de coisas e tentar salvar a nossa espécie da extinção prematura. Fomos nós humanos quem criamos esta situação e somos nós humanos quem temos que resolvê-la. Pois então, baseado no exposto, eu conclamo a todos os Senhores que façam suas respectivas opções no sentido de salvar a nossa espécie. Nós já passamos do ponto da conversa, agora temos que ter ações efetivas. Obviamente a Educação deverá continuar trabalhando para a orientação e o aprimoramento das novas práticas que serão transmitidas continuamente às futuras gerações e que garantirão a continuidade da espécie. Assim, as futuras gerações de humanos deverão estar preparadas para permitir o futuro efetivo do Homo sapiens.

Sinceramente eu não tenho mais muita crença nos dirigentes, mas como disse Zé Rodrix: “eu quero a esperança de óculos” e eu ainda acredito que o homem como espécie não deve ter vontade, de fato, de desaparecer do planeta. Certamente o que está faltando é encarar a questão com a devida seriedade e esse é um compromisso que os poderes constituídos podem e devem assumir, fazendo a verdadeira divulgação das reais condições planetárias para toda a humanidade e orientando os procedimentos a serem tomados. Talvez, o problema maior que ainda temos, seja o pensamento errôneo de que a situação ainda está toda sob o nosso controle ou, o que mais terrível ainda, de achar que Deus vai nos ajudar a superar o problema.

É preciso ter coragem de dizer para a humanidade que nós, os seres humanos, os pretensos “donos do planeta”, nunca tivemos as rédeas nas mãos e, o que é pior, agora temos a certeza de não possuímos efetivamente controle sobre nada. Ao contrário, nós sempre fomos dependentes do planeta e a nossa apropriação indevida da Terra e o consumo exagerado dos seus Recursos Naturais foram e são as principais causas dos problemas planetários e da grande ameaça que paira sobre nós. Por outro lado, também deve ser lembrado que Deus está em outro plano e que Ele não vai resolver nenhum problema causado pela humanidade. Nós criamos os problemas e nós temos que solucioná-los, independentemente da ajuda divina.

Se tudo isso acontecer de maneira contundente e efetiva, não há dúvida de que as diferentes comunidades, por si próprias, progressivamente arregaçarão as mangas e começarão a exercer as suas respectivas ações no que se refere a recuperação planetária, independentemente dos interesses particulares dos grandes grupos econômicos. Desta maneira, com apoio das comunidades, os governos ficarão livres para também agir e todos os humanos trabalharão no sentido de resolver todas as questões que ainda puderem ser sanadas. Assim, o poder econômico se dobrará aos interesses maiores da humanidade e do planeta.

Não tenho nenhuma dúvida de que, por mais que alguns queiram admitir, lá no fundo todas as comunidades e todos nós, seres humanos, sabemos que a vida é única coisa que realmente importa, todo o resto é supérfluo e por isso mesmo, nós entendemos que a qualidade de vida é o bem maior e tem que estar acima de tudo. Por conta disso, mesmo sabendo que será muito difícil, eu ainda continuo torcendo e acreditando e acreditando na nossa espécie. Vida longa ao Homo sapiens no planeta Terra.

 Luiz Eduardo Corrêa Lima

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10 set 2014

A Capacidade de Falar da Espécie Humana

Embora não se saiba ao certo como e nem quando o homem começou a falar, essa condição talvez seja a maior diferença que o homem apresenta em relação aos demais animais. Embora não sejamos os únicos animais a emitir sons como forma de comunicação, ao que parece a nossa linguagem é a mais complexa do reino animal. Entretanto, ainda há muito que se estudar sobre esse assunto, porque há alguns animais de comunicação sonora bastante diversificada e complexa, como é o caso dos Mamíferos Cetáceos (Baleias e Golfinhos), de algumas Aves e também de alguns Répteis Quelônios (Tartarugas e Cágados) e Anfíbios Anuros (Sapos, Rãs e Pererecas).

A fala humana resulta da existência de dois pares de cordas ou pregas vocais musculosas na laringe, as quais aproveitam o ar de retorno do processo respiratório para vibrarem ondulatoriamente e produzir os diferentes tipos de sons. A articulação desses sons em fonemas, através da movimentação da língua foi o que permitiu que nossa espécie fosse capaz de falar. Porém, é necessário que se diga que a fala também tem a ver com o alto grau de desenvolvimento de nosso sistema nervoso, da nossa sociabilidade e de nossa inteligência, pois a simples produção de sons não representaria e não desenvolveria por si só a nossa capacidade de falar.

As aves também têm uma estrutura parecida, a siringe, que as permite emitir sons, porém esses sons não são articulados dentro de uma possibilidade sistematizada e programada pelo sistema nervoso. Isto é, embora algumas aves até possam até produzir frases longas, elas não têm a consciência exata desse ato. Na verdade, isso é uma mera repetição de alguns sons que elas conseguem “gravar” e não existe nenhum controle lógico e consciente desses sons.

No caso dos Cetáceos (baleias e golfinhos), pesquisas recentes têm indicado que eles efetivamente desenvolveram um mecanismo bastante complexo de comunicação através dos sons que emitem, mas ainda há muito que estudar sobre esse assunto e não se tem certeza de quase nada sobre a comunicação nesses animais. De qualquer maneira, não se espera que esta complexidade da comunicação entre os Cetáceos seja significativamente comparável ao que acontece no caso humano.

Desta forma, parece que até aqui, somos realmente a única espécie da qual temos certeza da linguagem comunicativa através da emissão de sons, articulando palavras dentro de um princípio lógico que traduzem pensamentos e se diversificam quase que infinitamente. Porém, ainda não sabemos ao certo, nem quando e nem como surgiu essa característica tão importante para a nossa espécie, que nos coloca numa condição de destaque e efetiva superioridade em relação aos demais representantes do reino animal.

Temos certeza que a nossa espécie, desde que surgiu no planeta, sempre emitiu sons, porém ela não surgiu já falando literalmente. Nossa fala foi consequência de nossa evolução e de nosso desenvolvimento cultural na elaboração de sons cada vez mais específicos para definir determinados aspectos em nossa vida evolutiva. Além disso, também cabe lembrar que grupos humanos diferentes em locais distintos e com culturas diferentes produziram sons distintos e definiram as diversas línguas.

A comunicação falada dos humanos é algo realmente muito complicado e ainda pouco conhecido do ponto de vista evolutivo, pois se sabe apenas como ela acontece e de sua grande importância para a nossa espécie, entretanto não se pode efetivamente demonstrar como ela apareceu na história evolutiva do homem. A única certeza que temos é que se não fosse a nossa maneira de comunicarmos e a imensa velocidade como a comunicação evoluiu certamente nossa espécie não teria alcançado o nível de desenvolvimento que alcançou até aqui.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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06 set 2014

Casamento e Consanguinidade

Na semana passada uma aluna me perguntou sobre a veracidade de que os casamentos entre primos geram filhos com anomalias, eu procurei esclarecer a jovem e estou aproveitando para fazer um pequeno texto sobre o assunto. Para começar devo dizer que casamentos consanguíneos são aqueles que ocorrem entre parentes próximos, muitos considerados incestuosos e por isso mesmo ilegais.

Essa discussão sobre casamento e consanguinidade é muito antiga, mas até hoje traz no seu escopo inúmeras marcas errôneas de crendices que produziram vários conceitos equivocados e inverdades sobre a questão e que a transformaram num tabu social, numa definida impossibilidade jurídica e numa certeza efetiva da ocorrência de anomalias genéticas. Entretanto, a realidade não é bem assim. Todas as maneiras de encarar a consanguinidade guardam preceitos muitos dos quais são, na verdade, preconceitos à luz das leis de herança genética. Por conta disso, vou tentar esclarecer aqui, quais são realmente as verdades e as mentiras pertinentes ao tema.

A legislação estabelece que casamentos consanguíneos devam ser proibidos até o segundo grau, dessa maneira deve ser entendido que casamentos consanguíneos são aqueles que acontecem entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, entre tios e sobrinhos ou ainda entre primos e primas até o segundo grau de parentesco. Apenas esses quatro tipos de cruzamentos são os que a lei efetivamente proíbe, mas não impede quando o fato já está consumado, nos dois últimos casos. A quantidade desses casamentos, independentemente da proibição, pode chegar até cerca de dez por cento (10%) do número total de casamentos em determinadas localidades e esse número já foi maior em outros tempos. Principalmente o casamento entre primos é bastante comum e ele acaba acorrendo com certa frequência porque quando a justiça descobre o fato ocorrido, obviamente ele já está consumado e assim o casamento acontece de qualquer maneira.

Considerando as leis de herança genética, o casamento entre pais e filhos ou entre irmãos e irmãs, coloca lado a lado dois padrões genéticos que são cinquenta por cento (50%) iguais e isso gera um risco muito alto (da ordem de dois para um) de repetir genes que sejam pouco interessantes a espécie, além de também poder produzir genótipos com homozigoses (repetição de pares de genes iguais no indivíduo) dominantes excessivas, o que pode originar anomalias genéticas ou mesmo produzir genótipos que levem a letalidade do embrião. O casamento entre tios e sobrinhos ou entre primos e primas coloca lado a lado padrões genéticos vinte e cinco por cento (25%) e doze e meio por cento (12,5%) iguais, respectivamente, que, embora em menor risco, ainda consistem em taxas altíssimas de proximidade genética e obviamente devem ser evitados pelos mesmos motivos já citados.

Entretanto, a genética trabalha com probabilidades, isto é, com possibilidades matemáticas e “certezas” estatísticas, o que não garante afirmar efetivamente qualquer acontecimento antes do encontro entre os dois genomas que se cruzam. A genética permite calcular a chance de algo acontecer, porém raramente é capaz de determinar como será o resultado final.

A única verdade que se pode estabelecer do ponto de vista genético é que, quanto mais distantes (diferentes) forem os dois padrões genéticos cruzados, menor será a probabilidade matemática de ocorrer anomalia oriunda do cruzamento. Isto quer dizer o seguinte: o sucesso de um casamento é maior quando os genomas que se encontram são mais diversificados entre si. Ou melhor, a chance de acontecer problemas genéticos na prole é significativamente menor, mas ainda assim a genética não dá nenhuma garantia de que anomalias não vão existir. Em outras palavras, a genética só diz o que pode mais ou o que pode menos, porém ela não tem como afirmar absolutamente nada sobre a efetividade (certeza) prévia de alguma situação, independentemente do casamento ser consanguíneo ou não.

Sendo assim, quando a linguagem popular afirma que “os casamentos consanguíneos geram filhos anormais”, certamente essa afirmativa se constitui numa inverdade genética, porque o que acontece é que esses casamentos têm maior possibilidade matemática de produzir anomalias do que os casamentos não consanguíneos, porém não existe absolutamente nenhuma certeza do que poderá resultar em qualquer dos casos, pois tudo acontece por conta da combinação ocasional entre os genomas. Em suma, os casamentos consanguíneos podem produzir prole normal e os casamentos não consanguíneos podem produzir prole anormal.

A meu ver, o tabu social que se estabeleceu com relação aos casamentos consanguíneos tem mais relação com questões sociais, mormente éticas e religiosas, do que propriamente genéticas e as normas jurídicas oriundas desses casamentos são consequência exclusiva das questões sociais que permeiam o assunto. Além disso, eu penso que, do ponto de vista jurídico, houve necessidade de se estabelecer algumas bases de orientação de herança genética nas leis que cuidam desses casamentos e de outras questões. No que diz respeito ao direito de herança de bens para esclarecer determinadas situações, por exemplo, a genética tem como provar que dois primos são menos parentes do que um tio e um sobrinho e isso não se relaciona apenas aos casamentos consanguíneos, mais é uma verdade geneticamente estabelecida que pode ser empregada em qualquer questão de herança.

Para concluir, devo dizer que os casamentos consanguíneos se constituem num aumento do risco potencial genético para produzir anomalias e por isso mesmo esses casamentos devem ser evitados, porém penso que esse fato, por si só, não deva se estabelecer como base jurídica e muito menos como base social para definir critérios de possibilidades de união entre casais. Acredito que isso deva ser uma questão que só interessa aos parceiros no casamento, que devem ser orientados geneticamente, mas não podem ser impedidos legalmente de se relacionarem entre si.

Como eu já disse, o resultado reprodutivo é consequência do encontro entre os genomas e não é possível definir antecipadamente o que irá acontecer, haja vista que tudo ocorre ao acaso e penso que as leis humanas não devem interferir nessa situação fortuita. Ao longo da história do homem, certamente existiram inúmeros casos de casamentos consanguíneos e esse fato não foi uma característica que possa ter tido significância ou que possa ter impossibilitado a nossa evolução biológica e muito menos nossa evolução moral, cultural ou social.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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03 set 2014

A Biologia, o Pensamento Evolutivo e a Sociedade

Se formos levar em consideração o fato de que a Biologia como Ciência não pode existir sem a Teoria da Evolução, facilmente iremos entender e concordar que nós, Biólogos, somos pessoas diferentes da maioria das pessoas e acabamos incomodando bastante a sociedade por conta de nossas atitudes naturalmente desenvolvidas em prol do evolucionismo. Essa nossa maneira generalizada de pensar e de agir evolutivamente contraria direta e indiretamente certos preceitos e desagrada muitos setores da sociedade, mormente alguns dogmas religiosos. Além disso, essa nossa postura ainda questiona certos conceitos inverídicos (crendices) e padrões sociais absurdos arraigados em muitos indivíduos dentro dos mais diversos grupos sociais. Isso obviamente também esbarra no conceito que a Sociedade em geral tem sobre nós e nossa profissão.

Há momentos em que somos venerados por conta de nossa preocupação com a vida, somos quase “super-heróis da natureza” e há outros momentos em que somos odiados pela nossa pretensa condição ateísta, manifestada por alguns setores da sociedade, no intuito exclusivo de nos colocar contra a opinião pública. Assim, quando nos referimos as questões relacionadas a salvar a vida humana no planeta e a biodiversidade, por exemplo, somos adorados pela sociedade em geral, porém, quando nos referimos ao pensamento darwiniano básico da seleção natural ou ao nosso parentesco evolutivo com os demais Primatas, por exemplo, vamos ao inferno no conceito social.

Em suma, a Sociedade nos vê de uma maneira bastante controvertida e às vezes totalmente contraditória, embora cada um de nós seja uma pessoa única, parecemos ser camaleões, como se sofrêssemos uma adaptação mimetista no pensamento social. Nossa profissão, por sua vez, flutua desde a mais total pureza, chegando às raias da ingenuidade, até a absoluta maldade, com todos os ares de perversidade que se puder conceber. Num instante somos bons e justos e no momento seguinte somo maus e perversos.

Eu tenho mesmo alguns amigos que aparentemente me adoram pela minha preocupação com a natureza e com a vida, porém sou proibido de comentar com eles sobre qualquer tema relacionado à Evolução das espécies. Pois é, por mais que a Evolução tenha a ver com a Biodiversidade planetária, grande parte da sociedade separa essas questões de forma diametralmente oposta. Quer dizer, a verdade natural do processo evolutivo que permitiu construir toda diversidade orgânica do planeta ainda não consegue ser percebida pela maioria da sociedade e, o que é pior, por questões alheias ao problema em si.

Conheço mesmo algumas pessoas que acreditam que Darwin e seus seguidores (eu inclusive) são pessoas incoerentes e mal intencionadas que querem negar a existência de Deus e descaracterizar toda e qualquer crença divina. Por outro lado, fico pensando o que é mais incoerente: o Deus bom que deixa acontecer coisas ruins ou o homem ignorante que se mantém alheio à realidade planetária e que atribui a Deus os absurdos que são cometidos pelo próprio homem contra a natureza? Além disso, parece que para alguns basta pensar assim: “como foi Deus quem criou as espécies, então Ele que cuide, pois o homem não tem nenhuma responsabilidade sobre a natureza”. O homem se coloca numa condição de exclusão da natureza, esquecendo que também é produto dela e, o que é pior, que tem tudo a ver com o atual estado de coisas.

Assim, a humanidade pode ficar esperando que Deus resolva todos os problemas naturais que a própria humanidade criou, porque, segundo esse pensamento, a espécie humana obviamente é uma entidade diferente, que se encontra acima de toda a Biodiversidade planetária. Essa transferência de responsabilidade é, no mínimo, mais cômoda para a humanidade, entretanto, é tremendamente drástica para o planeta. A atitude humana, oriunda desse pensamento incoerente e inconsequente é mais ou menos o seguinte: “Deus que se vire e o planeta que se dane!” Até aqui, com esse pensamento irresponsável e anti-evolucionista da sociedade humana o planeta e a própria espécie humana só tiveram prejuízo.

Mas, por que isso acontece dessa maneira? O que faz a maioria das pessoas pensar e agir dessa forma tão radical e antagônica aos interesses planetários e mesmo humanitários? E nós, Biólogos, temos realmente alguma coisa a ver com isso?

Provavelmente eu também não tenha as respostas corretas para nenhuma dessas questões propostas, entretanto eu gostaria de dar alguns palpites e opinar um pouco sobre o assunto. É bem possível que eu não convença ninguém com meus argumentos, mas discutir certas questões é um bom exercício de intelecto, além de ser algo fundamental para o desenvolvimento final de conceitos e eu quero aqui expor e defender o meu pensamento.

Primeiramente eu quero dizer que independente de qualquer religião ou filosofia de vida, não dá mais, de maneira absolutamente nenhuma, para não se aceitar a Evolução como um fato natural, ao qual estão sujeitas todas as espécies vivas do planeta, inclusive nós, os seres humanos. Até porque, além da incoerência apresentada anteriormente, já está cientificamente provado, faz pelo menos 60 anos, que a vida teve uma origem bioquímica a cerca de 3,5 bilhões de anos atrás e a Evolução foi o mecanismo que permitiu a existência da grande diversidade de espécies vivas. O que ainda se discute e provavelmente nunca se deixe de discutir, são os diferentes mecanismos que propiciaram e capacitaram o acontecimento evolutivo ao longo do tempo.

Aliás, é exatamente aqui, onde a Ciência discute o “como acontece”, que os anti-evolucionistas, os embusteiros e os picaretas de plantão, teimam em questionar o “que acontece”, alegando os maiores absurdos possíveis e tentando negar à realidade científica, através de argumentos risíveis e que chegam às raias da idiotice. Lamentavelmente a opinião pública é facilmente direcionável e sofre grande influência da mídia, enquanto a Ciência não faz proselitismo de suas descobertas e convicções, até porque essa não é sua função. A Ciência apenas tenta progredir no conhecimento das coisas para tentar melhorar a vida da humanidade, enquanto alguns segmentos retrógrados dessa mesma humanidade querem continuar a demonstrar o que não existe para defender interesses questionáveis, burlescos e algumas vezes até mesmo escusos.

De qualquer maneira, é claro que eu entendo que seja pouco provável que a maioria das pessoas simplesmente abandone, de uma hora para outra, a ideia de que um demiurgo seja o criador de todo o Universo e do planeta Terra em particular, com todas as formas vivas nele existente. Até porque, isso envolve uma série de questões que, lamentavelmente, ainda não podem ser entendidas pela maioria da população humana, por conta da falta generalizada de informações e de conhecimentos, mormente conhecimentos científicos. Assim, não vou aqui tentar brigar com as crendices e nem com os picaretas de plantão, que se aproveitam da situação de ignorância da população. Vou apenas apresentar a minha opinião e sugestão sobre a questão que poderia ser bem aproveitada pela mídia, se existisse, de fato, um interesse em tirar a humanidade da ignorância.

Proponho que sejam unidas as duas maneiras fundamentais de pensar e que se crie uma terceira maneira oriunda dessa união e que possa ser admitido o demiurgo e também a Evolução concomitantemente. Quero deixar claro que não é impossível pensar assim, até porque eu e muitas outras pessoas que conheço somos exemplos vivos desse tipo de pensamento. Ao contrário do que muitas pessoas são levadas a pensar, acreditar em Deus não impede que se admita a Evolução e muito menos a Evolução impede ou desqualifica a crença em Deus. Como eu já disse lamentavelmente isso é um mito desenvolvido pelos picaretas de plantão, infelizmente reforçado pela mídia e distribuído para sociedade. Na minha maneira de pensar, Deus e a Evolução não são apenas compatíveis, ambos podem até serem concludentes.

Admitindo, a priori, que Deus tenha efetivamente criado o Universo como ele está até hoje e considerando o grau de diversidade biológica e de fenômenos naturais que existem no universo, certamente não haveria possibilidade nenhuma de manter o controle efetivo de todas as coisas ao mesmo tempo, pois o grau de complexidade de fenômenos é quase que infinito. Assim, certamente as coisas se organizam por processos físicos e químicos que acontecem por causas estritamente naturais e assim a Evolução, independente de Deus, segue seu curso. Deus pode ter definido os extremos, mas não tem como controlar indistintamente todos os processos ao mesmo tempo e assim esses processos só podem ocorrer aleatoriamente, isto é, ao acaso e por conta dos mecanismos evolutivos. As coisas que existem aqui no planeta podem até terem sido estabelecidas, a priori, por um Deus, mas sua continuidade é obra da seleção natural e do acaso evolutivo.

É bom a gente recordar que a Seleção Natural não dimensiona o acaso, mas dimensiona os resultados evolutivos como sendo obras do acaso que tenham valor de sobrevivência para as espécies. Na verdade, o que se chama de acaso é a escolha da melhor opção entre as inúmeras que são apresentadas. O que é vantajoso tende a sobressair sobre o que não é vantajoso e assim tende também a se manter evolutivamente. É importante que não se coloque uma condição totalmente aleatória e desvinculada do interesse da espécie em sobreviver quando se pensa em Evolução, porque é exatamente isso que as pessoas de má índole, que estão apenas preocupadas em negar o processo evolutivo a qualquer custo, fazem para tentar ridicularizar o pensamento e a lógica evolutiva aos que desconhecem totalmente o assunto.

A Evolução não tem nenhum propósito em si mesmo, a vida é que tem objetivos estabelecidos. O principal propósito da vida, aquele que realmente interessa, é continuar a viver e vivendo cada vez melhor. Isto é, a vida está sempre querendo melhorar a vida e o resultado dessa melhora é o que se chama Evolução. Assim, a Evolução se estabelece através de mudanças ocasionais boas e ruins. Entretanto, como as mudanças boas (aquelas que favorecem a vida) são mais interessantes ao propósito da própria vida, então elas tendem a se manter e a continuar ao longo do tempo. Já as mudanças ruins (aquelas que não favorecem ao propósito da vida) tendem a não se manter e assim desaparecer ao longo do tempo. Esse mecanismo que tende aglutinar o bom e rechaçar o ruim é muito fácil de ser entendido e não há nenhuma necessidade de interferência divina para que ele possa ocorrer. Além disso, também não há, a priori, nada de imoral, de herege ou contra a aceitação de um Deus nessa maneira de pensar e proceder. Esse é apenas um mecanismo natural e admitir que isso ocorra não é, em hipótese nenhuma, negar a existência de Deus ou tentar reduzir sua importância.

Se existe mesmo aquilo que grande parte da sociedade convencionou chamar de pecado, quero acreditar que pecado é negar a realidade biológica e natural para satisfazer interesses outros e se aproveitar da condição de dependência intelectual ou mesmo psíquica das outras pessoas, como fazem alguns setores da sociedade, particularmente certas religiões e alguns falsos profetas de determinadas religiões. Entretanto, em contra partida, é bom lembrar que existem outras religiões que entendem e acatam perfeitamente o processo evolutivo como sendo a única maneira possível de esclarecer o alto grau de diversidade biológica planetário.

Não há pecado e nem crime nenhum em admitir a Evolução e muito menos certamente existe ateísmo nessa maneira de pensar. Ao contrário, para os mais religiosos, talvez até o mecanismo evolutivo possa ser considerado uma maneira mais eficaz de demonstrar a beleza, a capacidade e a grandeza de Deus, quando deixa a vida traçar o seu ritmo a partir do interesse e da necessidade natural da própria vida em se manter e continuar. A genialidade de Deus poderia estar demonstrada no fato de ter permitido a existência de um mecanismo que se auto gerencia e se mantém independente de qualquer infortúnio ou ação externa. A natureza segue seu caminho no interesse único da vida.

A perfeição de Deus poderia ser dimensionada quando atribuiu a possibilidade da Evolução produzir uma espécie como a nossa. Pena que as pessoas são tão pequenas que se quer se disponham a parar, pensar e tentar compreender que se Deus existe, Ele é algo muito maior e está muito acima dessa discussão tola que só favorece a alguns embusteiros e que acaba por garantir à manutenção da ignorância de muitos indivíduos da espécie humana.

Mas a manobra articulada foi tão bem feita, que os embusteiros de plantão polarizaram a coisa de tal forma que parece que humanidade é composta apenas de dois grupos radicais e distintos de pessoas: os cegos pela fé e os cegos pela razão. Talvez, seja melhor a espécie humana começar a enxergar e ver que cegueira nenhuma é boa e que a manutenção do planeta e da vida independem das pessoas serem evolucionistas ou não. Com ou sem pensamento teísta, pelo menos até aqui, só destruímos o planeta e a vida. Isso certamente não é bom e o pensamento evolucionista sempre nos mostrou essa verdade, mas a maioria de nós nunca se dispôs a ver a realidade natural.

Alguns amantes da Biologia e os Biólogos mais especificamente, talvez componham o grupo profissional em que a realidade do processo evolutivo esteja mais clara, mais evidente e mais presente. Por isso a sociedade algumas vezes desconfia desses profissionais de Biologia. Estou convicto de que a sociedade quer estar do nosso lado, mas ela precisa ser mais bem informada sobre a realidade e nós temos que continuar fazendo o nosso trabalho, procurando trazer a sociedade cada vez mais próxima de nós. Isso só será possível, quando conseguirmos fazer com que as verdades sejam ditas e popularizadas nas populações sem qualquer conotação pejorativa e sem qualquer atitude inconveniente dos setores que querem manter o atual status quo.

Albert Einstein disse certa vez que só existem duas maneiras de pensar sobre milagres: “ou os milagres não existem ou todas as coisas são milagres”. Pois então, eu sugiro que fiquemos com a segunda alternativa, isto é, que “todas as coisas são milagres”, inclusive Deus e a Evolução. Porque só assim, independente de nosso nível intelectual e de nossa posição pessoal em relação à aceitação da Evolução Biológica e dos processos evolutivos, seremos capazes de deixar o milagre da vida continuar existindo em nosso planeta. Que Deus tenha pena de nós, mormente daqueles entre nós que insistem em negar a realidade natural, pois, a meu ver, esses é que são os verdadeiros ateus e que fazem um grande mal à humanidade e ao planeta.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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30 ago 2014

A Mobilidade Urbana e a Realidade das Pequenas e Médias Cidades

A grande maioria das cidades brasileiras não tem nem 20 mil habitantes, isto é, são cidades quase sempre muito pequenas. Entretanto, a muitas dessas pequenas cidades já apresentam trânsito caótico, pelo menos em suas áreas mais centrais. Mas, por que será que esse fenômeno ocorre, haja vista que não há gente e nem veículos (carros, ônibus, caminhões, tratores, carroças, motocicletas, bicicletas e outros) suficientes para produzir os engarrafamentos e outras complicações de trânsito nessas cidades?

Penso eu que isso acontece primeiramente porque nesse país se outorga Carteira de Motorista indiscriminadamente para qualquer pessoa, independentemente dela possuir ou não condições intelectuais ou psíquicas para se locomover no trânsito e, o que é pior ainda, independentemente dela possuir de fato qualquer habilidade para desenvolver a prática de dirigir. Os “DETRANs” são meros guichês de distribuição de carteiras de habilitação para qualquer indivíduo, que a partir daí passam a estar devidamente autorizados pela Lei e podem sair pelas ruas dirigindo carros e fazendo todo tipo de absurdo no trânsito. Além disso, e óbvio que, por outro lado, existe também a carência generalizada de educação e mais especificamente a falta de educação direcionada para os problemas de trânsito das cidades, sejam essas cidades quais forem e independentemente do tamanho que elas possam ter.

Os problemas relacionados ao trânsito e à morosidade urbana decorrem exatamente dos aspectos acima e também porque as orientações teóricas são oriundas de Legislação Federal, o que está corretíssimo, enquanto a prática do trânsito é dada pela orientação estadual e normalmente essa prática segue os modelos das capitais estaduais que costumam ser cidades grandes e cheias de outros problemas que favorecem a complexidade do trânsito, o que está completa e tremendamente errado. As práticas de trânsito devem ser desenvolvidas em função da necessidade local. Isto é, o trânsito de qualquer cidade deve ser trabalhado no sentido e na vocação própria daquela cidade e não ser adaptado a partir de outra, principalmente quando essa outra é muito maior e repleta de outras complicações, como acontece na maioria das principais capitais estaduais brasileiras.

O trânsito em São Paulo, por exemplo, ou em qualquer outra megacidade brasileira é um caos e não pode ser modelo para nada. Sua resolução, se é que existe, deve ser encontrada a partir da realidade da própria cidade de São Paulo e não pode de maneira nenhuma ser aplicado como orientação para outra cidade que não tenha os mesmos problemas. São Paulo é uma cidade imensa, a maior do Brasil, tem um grande número de pessoas, de carros, de ruas, de obras e outros transtornos. Enfim, em São Paulo, como em qualquer megalópole, tudo é mais complicado e como a base em que se implantou todo o sistema de trânsito nessas cidades costuma estar totalmente ultrapassada e desajustada, dificilmente haverá solução possível para a maior parte dos problemas de trânsito, quando muito poderá haver minimização de algumas questões em alguns locais, mas é quase impossível admitir resolução com eficácia total.

Pois então, as cidades pequenas não podem e não devem, de maneira nenhuma, seguir esse modelo, porque essas cidades estão em outra situação e seus problemas são localizados e muitas vezes fáceis de serem resolvidos, basta interesse real, boa vontade e bom senso de quem administra. Entretanto, os administradores do trânsito das pequenas cidades vão ser orientados a partir de aulas e palestras ministradas nas grandes cidades, por agentes de trânsito das cidades grandes, que orientam sobre o trânsito dessas cidades e aí o administrador da pequena cidade volta à sua cidade e quer fazer nela, aquilo que acontece na cidade grande. Obviamente isso não pode dar certo, pois as realidades são diferentes. Dessa maneira, ao invés de melhorar o trânsito e resolver os problemas, o administrador acaba piorando e muito a situação, porque ele está projetando e atuando para o trânsito da cidade grande e não para a sua realidade (cidade pequena). Penso que todas as pessoas que vivem no trânsito cotidianamente como eu, têm inúmeros exemplos do que acabo de dizer e estão cansadas de ver como isso, lamentavelmente, é uma verdade recorrente em inúmeras cidades pequenas do interior.

Embora a Legislação seja Federal e a orientação prática do trânsito seja estadual, a funcionalidade e a aplicabilidade têm que ser locais. Não é possível e muito menos pertinente aquilo que acontece no trânsito de uma cidade de 1 milhão ou mais de habitantes, seja aplicado da mesma maneira para uma cidade de 10 ou de 100 mil habitantes. As realidades físicas do espaço e de sua ocupação são imensamente diferentes, as necessidades são diferentes e até mesmo as pessoas e os seus respectivos comportamentos são diferentes. Uma cidade com 10 mil habitantes tem, quando muito, cerca de 2 mil carros, enquanto que uma cidade com 10 milhões de habitantes tem, no mínimo, cerca de 3 milhões da carros e isso gera um grau de necessidades específicas no trânsito que transcende infinitamente o limite do próprio trânsito.

Por conta desse disparate de números e do treinamento errôneo do pessoal, as cidades pequenas estão repletas de sinais de trânsito absurdos, de mãos de direção incoerentes, de caminhos confusos, de estacionamentos ilógicos, de orientações esdrúxulas, de investimentos (gastos) desnecessários, de agentes de trânsito mal formados e algumas vezes até mesmo mal intencionados e de várias outras coisas inoperantes e ineficientes, como acontece nas grandes cidades. Isso ocorre exatamente porque as cidades pequenas “querem imitar” as cidades grandes, ou seja, os administradores das pequenas cidades projetam os seus respectivos sistemas de trânsito da mesma maneira que as cidades grandes. Ora, não pode dar certo e o resultado só pode ser o caos.

É preciso que os administradores de trânsito das pequenas cidades tenham sensibilidade, não queiram perder tempo, nem jogar dinheiro fora e que atentem para o seguinte detalhe: o trânsito de uma cidade é diferente de outra, principalmente se uma delas for uma megalópole e a outra for uma cidade pequena. Por exemplo, não faz sentido absolutamente nenhum ter um sinal de 4 tempos numa cidade com menos de 100 mil habitantes. Também não faz sentido impedir o acesso à direita num cruzamento, obviamente com atenção. Também não há porque encher a cidade de lombadas, ou, o que é ainda muito pior, de valetas nas esquinas. Outro absurdo é achar que mão única é uma necessidade. A mão única é muitas vezes bem-vinda, mas não deve ser entendida como uma necessidade (obrigação) do trânsito nas cidades pequenas, como querem algumas pessoas ligadas aos setores de trânsito, em algumas situações a mão dupla não só é útil, como necessária para manter a velocidade controlada em níveis urbanos satisfatórios e mesmo facilitar o acesso de moradores e trabalhadores em certas áreas. Aliás, é bom lembrar, que os limites de velocidade definidos também são absurdos em muitos casos, pois não existe nenhum critério na sua definição, além da vontade pessoal de alguém. Na maioria das cidades pequenas, certamente metade dos sinais de trânsito são desnecessários. Enfim, são tantos exemplos de absurdos que não é possível entender.

Outras coisas que acontecem nas cidades pequenas e que eu não entendo é o seguinte: uma determinada via tem três faixas de rolamento, mas não sei o porquê, todos andam pela faixa do meio e as outras duas ficam vazias. Além disso, agora se criou uma ideia de “orientar” (forçar) o trânsito e obrigar o motorista a fazer o que os outros querem que ele faça, através de tachões de sinalização no chão. Entretanto, quem inventou esse absurdo, se esqueceu que quem está dirigindo é o motorista e que somente ele é quem sabe como conduzir o veículo durante uma determinada situação de trânsito. Assim, por exemplo, três quarteirões antes de um cruzamento o motorista já é obrigado a levar seu carro na direção a ser seguida lá na frente e se, por ventura, acontece algum problema, aí para tudo, porque se ele sair daquela faixa certamente será multado. Caramba! Não é mais fácil deixar o trânsito seguir o seu curso naturalmente, até mesmo para que o motorista possa desviar se preciso for, porque é isso que favorece a mobilidade urbana e a fluidez do trânsito. Talvez, numa cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro, isso possa ser importante, por causa da grande quantidade de carros, mas certamente isso não é importante para uma cidade pequena. Entretanto, esse tem sido um fator significativo de causa de engarrafamentos de trânsito.

Outra coisa que precisa ser discutida é o seguinte: qual a função da Secretaria ou do Departamento de Trânsito de uma Prefeitura? Se eu não estiver errado, penso que, obviamente, seja cuidar do trânsito. Isto é, fazer com que o trânsito flua e que não haja morosidade na sua fluidez. É bom lembrar que só existe trânsito quando efetivamente está havendo movimento (fluxo), pois o verbo transitar está diretamente relacionado com a mobilidade. Os diferentes fatores que interferem nesse desejo de fluidez, certamente são adversidades ao trânsito e obviamente devem ser pensados, mas não são prioridade para o trânsito. Por exemplo, a arborização urbana não é um problema do trânsito, mas interfere diretamente nele, constituindo-se numa adversidade à fluidez. A segurança dos pedestres e dos motoristas, a educação dos pedestres e dos motoristas também interferem na fluidez do trânsito. Todas essas coisas são adversidades aos interesses do trânsito e não devem ser as prioridades para o trânsito, até porque existem outros setores que devem cuidar dessas atividades. É claro que o trânsito deve estar em concordância com esses fatores, porém eles não podem ser as prioridades do trânsito como querem alguns. Até, porque, se for assim, não há necessidade nenhuma de existir um Departamento ou Secretaria de Trânsito.

Vejam bem, eu não estou dizendo que Segurança e Educação não são importantes para o trânsito. Eu estou dizendo que essas atividades são secundárias ao interesse primário do trânsito. Obviamente que temos que ter segurança e educação no trânsito, mas isso, embora necessário, não é prioritário para o trânsito em si. Uma característica oriunda de outro setor deve ser pensada e tratada em comum acordo com o outro setor, mas há de existir um ponto de estabilidade média entre ambos os setores envolvidos. A Educação para o Trânsito é quem deve estabelecer os critérios, os limites e mesmo os mecanismos de orientação de pedestres e motoristas. O guarda ou agente de trânsito deve orientar, mas não pode querer ser o “dono da verdade”, até porque, na maioria das vezes eles são jovens que pouco ou mesmo nunca dirigiram diuturnamente e não têm experiência prática como motoristas.

Enfim, dirigir é uma tarefa complicada, que depois de muita prática parece ser simples e algumas vezes até prazerosa. Pois é, essa tarefa, além de cada vez mais perigosa, também está ficando chata, desagradável e terrivelmente mais complicada do que sempre foi. O pior de tudo é que os carros são melhores, as vias são melhores, a educação é melhor, tanto para pedestres como para motoristas, a sinalização é melhor. Enfim, a única coisa que piorou foi a qualidade de quem organiza e orienta o trânsito, principalmente nas pequenas cidades.

Aqui no Vale do Paraíba, só para dar uns exemplos, sugiro que as pessoas venham conhecer o trânsito de Guaratinguetá. Uma cidade média com um centro velho, cheio de ruas estreitas, que quase não possui sinais de trânsito, nem lombadas, nem valetas e que o trânsito funciona muito bem, perto de outras tantas que conheço na região. Lorena é uma cidade cheia de bicicletas e de ruas de paralelepípedos, onde a velocidade é efetivamente baixa, mas o trânsito flui relativamente bem. Faz pouco tempo que a Prefeitura criou uma coisa absurda: uma rua no centro (que antes era a rua principal da cidade, por onde passava todo o trânsito) e que agora só pode passar um carro, pois suas margens são para ciclistas, pedestres e também para estacionamento, mas mesmo assim o trânsito flui bem, porque não existem sinais desnecessários atravancando o trânsito. São José dos Campos, apesar dos cerca de 700 mil habitantes, tem um trânsito melhor que muitas cidades da região, porque o trânsito da cidade é bem planejado e sinalizado, além disso o anel viário facilita muito o deslocamento dos veículos pelas diferentes regiões da cidade. Em Caçapava, o trânsito começou a melhorar nas áreas centrais porque vários sinais de trânsito incoerentes que existiam, começaram a ser desligados ou mantidos em atenção, mas ainda existem algumas coisas sem sentido no trânsito da cidade que podem ser melhoradas. Enfim, vários são os bons exemplos, mas ainda há muito por fazer.

Por outro lado, Aparecida tem uma avenida de mão única e com faixa extra de acostamento, fora do centro da cidade, com cerca de 4 quilômetros, mas cuja velocidade máxima é de 40Km/h e ainda por cima cheia de radares e lombadas, o que não faz o mínimo sentido, a não ser como fonte adicional de renda para a Prefeitura através da aplicação de multas aos turistas desavisados. Nessa mesma cidade, outra avenida que atravessa grande parte extremamente populosa, cuja faixa da direita serve de estacionamento e que ainda é repleta de áreas comerciais tem o mesmo limite de velocidade. Quer dizer, ou uma das avenidas está com limite abaixo ou a outra está com limite acima do que deveria ser, o que não pode é ter a mesma velocidade nas duas, haja vista que são ambientes de trânsito tão diferentes. Na cidade de Jacareí, as avenida que ligam a cidade com a Dutra, têm excessivos radares e sinais e por outro lado falta sinalização para as pessoas que não conhecem a cidade. Em Taubaté, com as ruas estreitas do centro, o trânsito é historicamente caótico e quanto mais se mexe, mais a coisa complica e agora, por conta de uma série de novos erros, a complicação atingiu também outras áreas mais afastadas do centro.

Enfim, o trânsito das pequenas cidades da região pode e deve melhorar, mas essa melhora está na relação direta da qualidade educacional e prática do motorista e do bom senso do dirigente de trânsito das cidades. É preciso exigir a formação de bons motoristas e acabar com técnicas de trânsito importadas das cidades grandes, pois só assim poderemos ter um trânsito mais confiável e compatível com a dimensão real de nossas cidades. Talvez dê um pouco mais de trabalho, mas certamente não é impossível produzir um trânsito de qualidade e efetivamente menos perigoso nas cidades da região.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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26 ago 2014

Existe apenas um Planeta Terra

O título desse artigo, por mais óbvio que possa parecer, de vez em quando precisa ser lembrado, para que todos os humanos possam manter esse pensamento efetivo e ativo nas suas respectivas mentes. Digo isso, porque a grande maioria das pessoas, embora saiba; que existe apenas um Planeta Terra e que todos os recursos naturais que nós humanos utilizamos são tirados direta e exclusivamente desse único planeta que habitamos; parece que se esquece desse detalhe fundamental na sua vida cotidiana e acaba usando os recursos naturais indevida e levianamente, desperdiçando esses recursos absurdamente e, o que pior, produzindo alguns resíduos que a natureza muitas vezes não conhece e que nós humanos resolvemos chamar de resíduos ou simplesmente lixo.

É bom lembrar que na natureza não existe lixo e assim o lixo é um produto de origem exclusiva da espécie humana. Existe uma boa parte desse material, que nós chamamos de lixo, que pode ser reaproveitado e reutilizado para outros fins e hoje há muitos humanos trabalhando no sentido de tratar melhor esses resíduos e conhecer suas diferentes utilidades. Mas, por outro lado, também existe uma boa parte desses resíduos que não pode ser reutilizada e outra que nem a natureza e nem nós mesmos sabemos como usar ou mesmo exterminar. Desta forma, esse tipo de material totalmente inútil e principalmente indesejável, vai se acumulando pelo planeta afora, ocupando espaço e degradando novas áreas que também poderiam ser utilizáveis.

Em suma, cuidamos muito mal do Patrimônio Natural, pois usamos pessimamente os recursos naturais e pioramos a qualidade do meio ambiente e da vida que nele se insere, inclusive e principalmente a nossa. Desta maneira, precisamos estar constantemente nos lembrando que temos apenas um Planeta Terra, do qual tiramos absolutamente tudo o que utilizamos, para sempre tentarmos agir no sentido de garantir que os recursos naturais sejam utilizados de maneira respeitosa, precisa, coerente e, sobretudo, sem desperdício.

O uso do planeta de forma precisa e coerente pelo homem recebeu recentemente o nome de SUSTENTABILIDADE e é sobre isso que vamos conversar um pouco. Primeiramente devo dizer que a Sustentabilidade consiste num princípio básico que determina que nenhuma geração tem direito de esgotar os recursos planetários, pois todos os humanos e as demais criaturas vivas que já viveram, que estão vivos hoje e aqueles que ainda irão viver tem os mesmos direitos ao uso do Planeta Terra e de seus recursos naturais.

A apropriação do planeta não é um direito exclusivo do homem, mormente do homem atual. Nenhuma espécie, em momento nenhum pode se considerar “dona do planeta”, até porque, na verdade nós e as demais coisas vivas é quem pertencemos a Terra. Isto é, a Terra é que a “dona de todos nós”. O Homo sapiens tem um compromisso maior com a preservação do planeta, primeiro porque é quem mais o explora e segundo porque é a única espécie capaz de explorar os recursos planetários até a exaustão, como já aconteceu em alguns casos.

Por outro lado, devo esclarecer que a ideia de Sustentabilidade transcende bastante essa nefasta capacidade de apropriação indébita que a espécie humana assumiu com o Planeta Terra. O conceito de Sustentabilidade tenta conter a progressão e mesmo impedir esse absurdo. A Sustentabilidade está basicamente contida num tripé que envolve o Ambiente, a Sociedade e a Economia, de forma tal que qualquer mecanismo só pode ser considerado sustentável se todos esses três itens estiverem satisfeitos de forma igualitária na sua composição. Sendo assim, não é possível conceber mais, nos tempos atuais, qualquer tipo de mecanismo que prestigie, mas esse ou aquele aspecto do tripé.

Durante muito tempo a humanidade sempre procurou priorizar o lado econômico, como sendo o mais importante para o seu desenvolvimento. Entretanto, nos últimos tempos, por conta da necessidade imperante e do crescimento do pensamento sustentável nas diferentes sociedades humanas, a visão estrita da Economia precisou perder um pouco de sua avidez. Desta maneira, o componente social passou a ser mais bem considerado nas diferentes situações e também, o componente ambiental, que antes nem era pensado pela maioria dos humanos, passou de insignificante para uma posição de igual importância na escala de prioridades a serem atendidas. Assim, o Desenvolvimento Sustentável passou a ser o mecanismo principal para que se possa tentar alcançar e garantir a Sustentabilidade planetária.

Algumas ações individuais e coletivas, não só podem como devem, ser estabelecidas pelas pessoas físicas (indivíduos humanos) e jurídicas (empresas e grupos socais) no sentido de trabalhar em prol da sustentabilidade e dentre essas, podemos destacar as seguintes:

1 – Desenvolver uma postura ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável, visando o interesse das futuras gerações, ou seja, aqueles seres humanos que herdarão o planeta a partir de nossas ações atuais. Lembrar que o mundo não é só meu, nem é só dos outros seres humanos, mas que também existem inúmeras outras formas de vida que tem o mesmo direito que eu tenho ao planeta. Lembrar, principalmente que dinheiro é um meio e não um fim, o qual só interessa ao homem e não serve em absolutamente nada para as demais criaturas do Planeta.

2 – Redução do Consumo de Recursos Naturais, não comprando coisas supérfluas ou desnecessárias, investindo em Reutilização, no Reaproveitamento e na Reciclagem de materiais e minorando a produção de lixo e resíduos indesejáveis. Avaliar efetivamente a real necessidade do produto antes de adquirir. Não comprar por impulso, nem porque está na moda, ou porque o seu amigo tem aquele produto. É bom lembra que essa também é uma das principais causas da violência urbana. Se você tem uma bicicleta e o outro não tem, ele toma a sua.

3 – Redução e racionalização do Consumo de Energia, principalmente a energia oriunda da queima de Combustíveis Fósseis, que geram muita poluição, gases de Efeito Estufa e que atuam fortemente para o Aquecimento Global e consomem Recursos Naturais não renováveis. Reduzir o uso do carro, do chuveiro elétrico, da geladeira e mesmo da pilha e das baterias elétricas, as quais produzem resíduos tóxicos e altamente contaminantes. Se o quarto está vazio, por que a luz está acesa?

4 – Investimento em Tecnologias Limpas que propiciem novas formas alternativas de obtenção Energia não poluentes e que não ofereçam risco à saúde humana ou planetária. Ser proativo em relação a Energia Solar, Eólica, das Marés, das Correntes e outras não poluentes e naturais que possam existir. Ser atuante em práticas ambientalmente corretas. Pequenas ações como apagar a luz e usar mais a luz solar, desligar o computador, a TV e os demais eletrodomésticos quando não estão sendo usados, não desperdiçar água, reaproveitar o papel, as caixas, reduzir, ou mesmo acabar com o uso de sacolas plásticas e outros produtos descartáveis, que têm grande custo energético e levam anos para se decomporem na natureza.

5 – Buscar a ampliação das Áreas de Preservação Naturais e a Recuperação de Áreas Verdes Urbanas, no sentido de garantir a manutenção dos Ecossistemas Terrestres com seus respectivos Bancos Genéticos e sua Biodiversidade e também de melhorar a qualidade do ar nas cidades. Por exemplo, plantar árvores e não cortar as existentes é um mecanismo simples que garante a absorção da água pelo solo, diminui aquecimento global, refresca os ambientes, atrai pássaros e embeleza os ambientes sobremaneira.

6 – Recuperar, dentro do possível, os ambientes naturais degradados, a fim de minimizar as áreas comprometidas com ações antrópicas insustentáveis ocorridas no passado. Reaproveitar áreas antes impermeabilizadas, onde calçamento indevido ocorreu, aumentando as áreas de jardins e quintais. Nas áreas urbanas é onde mais há necessidade de melhorar a qualidade do ar, portanto faça a sua parte para que isso aconteça.

7 – Educar ambientalmente as populações dentro do preceito de que a sustentabilidade é a única maneira possível de garantir a qualidade e a continuidade da vida humana no planeta. A prática educativa tem que trazer no seu bojo os princípios de garantir a manutenção e a continuidade dos recursos naturais não renováveis e a recuperação efetiva dos renováveis; de não degradar; de não sujar e efetivamente de chamar a atenção de quem age de forma contrária aos interesses do Planeta e da Sociedade, independentemente da justificativa apresentada.

8 – Definir criteriosamente as áreas agricultáveis e as culturas nelas desenvolvidas, visando minimizar o uso indiscriminado de Agrotóxicos e Defensivos Agrícolas, garantindo a manutenção dos solos naturais como forma de produção agrícola. Isso começa na sua casa, não usando veneno nas suas plantas ornamentais e também desenvolvendo sua pequena horta orgânica, da qual você pode tirar a sua alface, o seu tomate e outros alimentos.

9 – No plano político-administrativo, devemos procurar apoiar políticos e administradores públicos que estejam determinados a investir em políticas públicas, que favoreçam a sustentabilidade e que priorizem o interesse ambiental planetário, antes de qualquer interesse econômico particular ou qualquer grupo social específico, de acordo com a máxima ambientalista que diz: “agir localmente, pensando globalmente”. Oriente as pessoas de que as suas ações cidadãs em prol do planeta começam nos seus respectivos votos. Lute e trabalhe para que os seus candidatos tenham postura proativa, para que proponham as mudanças devidas que são necessárias à Sustentabilidade.

10 – Enfim, como ação precípua, procure ser um exemplo daquilo que pregar. Ninguém vai acreditar em você, se realmente você não demonstrar aquilo que fala. Acredite e pratique a sustentabilidade em todas as suas ações, pois assim você estará demonstrando que não é impossível, basta apenas vontade, coerência e persistência. Se você consegue, certamente também é possível que outros consigam.

Por fim, quero dizer que é preciso repetir muito a frase: “Existe apenas um Planeta Terra” e esta é a única morada; o único planeta; a única nave espacial dentro da qual estamos todos nós, mergulhados no espaço universal. Todos nós somos passageiros e estamos na mesma viagem dentro do mesmo veículo denominado Terra. Não é muito pedir para que cada um faça a sua parte no processo de garantir que a viagem continue sem conturbações e realmente não é necessário nada mais que isso, porque se cada um fizer efetivamente a sua parte o todo estará sendo feito.

Sempre vale a pena ressaltar que “os maiores interessados em manter o planeta somos nós mesmos”, pois só assim garantiremos a nossa existência. Isto é: “o planeta não depende de nós, nós é que dependemos dele”. Então, cabe lembrar também, que para que o planeta continue seguindo em frente e com segurança, só depende de nós mesmos, os seres humanos. A nossa continuidade no mundo vivo está em nossas mãos, pois só nós temos o poder da escolha e da definição. Nossas atividades atuais definirão sobre a nossa existência planetária futura.

 

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Este artigo foi inicialmente publicado em www.recantodasletras.com.br/autores/profluizeduardo, em 23/06/2011, tendo sido modificado e atualizado para esta publicação.
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23 ago 2014

Alfândega Brasileira

Importa e exporta,

Tudo passa pela mesma porta.

Legal e ilegal,

Tudo dá na mesma, tudo é imoral.

Doutor ou marginal.

Tudo é permitido, aqui é tudo igual.

Certo ou torto,

Tudo entra pelo mesmo aeroporto.

Com ou sem autorização,

Tudo é possível na mesma estação.

Com ou sem gosto,

Tudo atravessa o mesmo entreposto.

Com ou sem propina,

Tudo se acerta ali na mesma esquina.

Com ou sem nota.

Tudo é válido e ninguém nem anota.

Na guerra ou na paz,

Tudo acontece naquele mesmo cais.

Primeiro ou terceiro mundo,

Tudo é igual nesse mesmo submundo.

Dólar ou Real,

Tudo é moeda e tem o mesmo final.

Euro ou Libra,

Tudo será útil na mesma medida.

Papel higiênico ou dinheiro,

Tudo é idêntico nesse grande chiqueiro.

Ladrão ou banqueiro,

Tudo está certo, não é companheiro?

Importa ou exporta,

Mas será que alguém se importa?

Não?

Então abre mais a porta.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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20 ago 2014

O Cordel da Energia

O tempo passa e todo dia,

se precisa de mais energia.

Energia para coisa boa

e energia para porcaria.

Energia que traz desgraça

e energia que traz alegria.

Energia que cresce as cidades,

mas também destrói suas crias.

Energia que desenvolve

e energia que contraria.

Dos vários tipos de energia

há uns que são muito bons

e outros que são bem pior,

então temos que conhecer melhor.

Tem a tal da Energia Eólica,

que está contida no vento

e dá para usar todo o tempo,

em qualquer situação comum,

com garantia e segurança,

sem causar perigo algum.

Também tem a Energia Solar,

essa é mesmo boa de amargar,

pois parece que nunca vai acabar,

enquanto o rei sol brilhar.

O sol, a nossa estrela imensa,

é mesmo uma dádiva de Deus.

O calor que ele manda ao planeta,

desde o começo dos tempos

é que mantém a vida na Terra

e gera todo nosso alimento.

Das pior, tem a Hidrelétrica,

embora não cause poluição do ar.

É ruim porque destrói a vegetação

e tudo que nela possa se encontrar.

Toda beleza que há na mata,

desde os bichos até as cataratas,

acaba tudo debaixo da água

e a paisagem se transforma.

O que era belo e diverso

fica na água, preso em comporta.

Mas também tem Termelétrica.

Essa tem vários modelos ruins.

Tudo que dá para queimar,

em princípio pode se utilizar.

Mas, carvão, óleo, madeira e gás

costumam ser mais comuns.

Porém, como todas são muito más,

é melhor nenhum delas usar.

As Termelétricas não prestam,

causam degradação de assustar.

Além da poluição do ar,

usam a água sem parar,

para tentar diminuir o calor.

Muito da água desaparece,

pois acaba virando vapor,

o resto dela, ainda quente,

é levada para dentro de um rio,

através de um novo efluente,

que mudará todo seu ambiente.

a quantidade de água é ampliada

e sua temperatura elevada.

prejudicando a vida que o rio tem

e as criaturas aquáticas também.

Mas, não para por aí não.

As Termelétricas são bem pior.

Elas também geram resíduos sólidos,

que não podem ser guardados,

precisando ser transferidos para longe,

para lugares determinados,

onde possa ser garantido,

que eles jamais serão reutilizados.

Mas ninguém sabe direito se isso

é verdadeiro e também se é melhor.

Termelétrica é mesmo muito ruim,

mas tem uma tal de Nuclear,

essa, então é uma desgraça.

a danada da Nuclear é muito pior.

Também não causa poluição do ar,

mas pode matar muito melhor.

Essa serve até para matar gente.

Isso mesmo, gente que nem nós,

gente de tudo quanto é ideal,

Basta aproveitar a Usina para o mal

ou não tratá-la com segurança.

que muita gente pode morrer,

acabando com a toda esperança.

A Nuclear usa metais radiativos,

césio, urânio, plutônio e polônio.

deles se aproveita a tal radiação,

mas a coisa é danada de perigosa,

não havendo como controlar

e qualquer descuido na ação

pode gerar um pandemônio.

Há muitos casos conhecidos

dos problemas causados pela Nuclear,

desde produção de Bombas Atômicas

até doenças crônicas no lugar.

O mundo ainda se lembra da bomba

que explodiu em Hiroshima,

e hoje, lá no mesmo Japão,

acompanha a usina de Fukushima,

Onde já até morreu gente

e a radiação ainda domina.

Mas eu poderia falar aqui

de Goiânia, Chernobyl ou Mururoa,

Pois em qualquer um desses lugares

Morreram gente e organismos à toa.

Nuclear é mesmo um pecado,

é arriscada e dá muito medo.

É melhor deixar ela de lado

e cuidar da Terra e da vida com apego.

Mas então, como fazer,

já que precisamos tanto de energia?

Como vamos arranjar a energia

necessária ao nosso sossego?

Como vamos superar as necessidades

do nosso dia a dia?

É simples, basta pensar numa fórmula,

que não é nada original.

Não há nem porque inventar,

vamos investir em energia eólica e solar,

além de descobrir novas fontes,

desde que mal não venham causar.

Desta forma teremos energia

e a vida no planeta vai continuar.

Então, nossa obra maior será

garantir energia e vida bem melhor.

Rio de Janeiro, 21/22 de abril de 2011.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

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16 ago 2014

A Transitoriedade do Homem

Quando o homem apareceu aqui na Terra, todo o resto do que existe no planeta ou, pelo menos, a maior parte do que existe na Terra, aqui já se encontrava há muito tempo. Essa é uma verdade insofismável.

Se nos utilizarmos do modelo do “Calendário Cósmico”, proposto por Carl Sagan, na década de setenta, vamos observar que, naquela analogia, o homem surgiu somente nas duas últimas horas do último dia do ano, num ano de trezentos e sessenta e cinco dias. Mais precisamente, os primeiros Homo sapiens teriam surgido às vinte e duas horas e trinta minutos, do dia trinta e um de dezembro. E mais, a nossa história só começa a ser conhecida e contada efetivamente a partir das vinte e três horas e cinquenta e nove minutos daquele mesmo dia. Pois é, tudo que sabemos sobre nós mesmos, resume-se a pouco mais de um minuto do Tempo Geológico.

Se continuarmos a analogia, podemos dizer que estamos vivendo o primeiro segundo do ano novo. Todo o nosso conhecimento do homem moderno, não ultrapassa a marca de um minuto e um segundo do “Calendário Cósmico”. Há de se convir que somos quase nada no tempo, nossa existência é insignificante perante a grandiosidade do Tempo Geológico.

Por outro lado, parece que somos o nível máximo de organização biológica em nosso planeta, pelo menos até aqui, e nenhuma espécie desenvolveu-se tão rápida e perigosamente como a nossa. Mas, por que evoluímos tão rapidamente? Por que queremos e podemos tanto? Por que surgimos? Qual o nosso significado? Como chegamos até aqui?

É muito difícil entender porque o processo evolutivo parece ter estacionado na forma humana, pelo menos aqui na Terra. Porém, mais difícil ainda é se admitir um “salto evolutivo” tão grande, apesar de tanta semelhança morfológica e fisiológica entre o macaco e o homem. Ainda que, biologicamente, sejamos macacos (não há como negar nossa condição de Primata), intelectualmente, somos muito superiores a qualquer macaco, por mais evoluído e inteligente que ele possa ser. Talvez, a distância intelectual entre nós e os macacos seja equivalente à distância temporal entre nós e a grande explosão que originou o Universo.

Não há dúvida que algo aconteceu evolutivamente entre os macacos não humanoides, macacos humanoides e o homem, pois esse algo, talvez nunca saibamos explicar fisicamente, ou para explicarmos, deveremos nos reportar a explicações metafísicas e abordagens religiosas, que transcendem a intenção desse artigo.

Por outro lado, temos certeza de nossa transitoriedade. Como tudo que existe e que é vivo, nós também nascemos, crescemos e morremos. Nesse sentido, somos tão frágeis como qualquer outro organismo vivo. Aliás, nesse aspecto, talvez sejamos até mais frágeis do que as outras espécies vivas, porque somos a única espécie que tem consciência desse fato e isso nos faz temer a morte.

Então eu pergunto: se estamos aqui, dependemos daqui, nascemos aqui, crescemos e embora tenhamos medo de morrer não conseguiremos evitar a morte e morreremos aqui, por que então não pensamos em melhorar ao invés de destruir o planeta? A Terra é a nossa casa, por enquanto a única que temos e é bem possível que jamais encontremos outra casa para nós em todo o Universo. Por que não nos utilizamos de nossa razão para tratarmos de preservar as condições de vida do planeta, o que, em última análise, significa tentar preservar a nossa própria vida.

Só existem três respostas compatíveis com essa situação antagônica em que nos colocamos, em relação ao planeta: ou somos alienígenas, ou somos loucos ou somos ignorantes.

Como alienígenas talvez tenhamos tido nossa origem em outro corpo celeste, que se destruiu por qualquer motivo desconhecido e chagamos aqui na Terra e nos mantivemos, até hoje, com o espírito e a índole do colonizador que só quer para si. Mas, se isso for verdade, tudo o que escrevemos sobre evolução, particularmente sobre evolução do homem com todas as analogias e homologias entre nós e outros organismos vivos do planeta, inclusive os macacos, são, na verdade, homoplasias, Isto é, meras coincidências fortuitas e sem nenhum relacionamento evolutivo.

Como loucos, talvez sejamos loucos o bastante para não termos consciência de nada. Se assim fosse, jamais teríamos nos preocupado com a evolução e com a nossa origem, porque sendo loucos, o que menos pesaria em nossas mentes seria a responsabilidade histórica, tanto futura, quanto a passada. Nesse sentido, não valorizaríamos a família, hábitos culturais, arte e outras coisas.

Como ignorantes talvez todos os nossos problemas residissem no nosso desconhecimento generalizado das coisas a nossa volta. Por mais que cada um de nós saiba, sempre há uma infinidade de coisas muito maiores que cada um de nós não sabe. A nossa ignorância não tem limites. Mas isso também não justifica a nossa desunião e as nossas discrepâncias ideológicas e morais, a ponto de se desenvolverem culturas tão diferentes em áreas geográficas tão próximas. Por exemplo, um palestino e um israelita, ou mesmo uma civilização grega e outra romana, para quem quer lembrar-se do passado.

Alienígenas ou não, temos um mundo, o planeta Terra, e estamos saindo à busca de outros. Já estivemos na Lua, conhecemos Marte, Vênus, Saturno, e vamos por aí a fora. Sabemos que esse nosso mundo, o planeta Terra, é nosso. Nosso no sentido mais estrito da palavra, pois somos as únicas criaturas que temos o poder de modificar o ambiente a nossa volta e, consequentemente, podemos mudar toda a fisionomia do planeta. Sempre é bom lembrar, que nós podemos até destruir todo o planeta em poucos segundos. Ou seja, muito mais rapidamente que a natureza levou para produzi-lo e para deixá-lo conforme se encontra nos nossos dias. Mas, por que chegamos a esse nível? Que força maligna ou benigna nos move para tanto? Aonde chegaremos?

Loucos ou não, vivemos. E a maioria de nós não só vive como gera filhos, aumentando assustadoramente nossas populações. Fabricamos crianças, como se fôssemos todos crianças irresponsáveis, que acabamos de ganhar um brinquedo novo de presente. Nosso brinquedo novo é o sexo, do qual fazemos uso indiscriminadamente e que a história nos mostra que sempre foi assim. Sigmund Freud disse que o sexo está presente em todas as nossas atividades e que nós somos quase que totalmente movidos por esse brinquedo diabólico. Nossa loucura chega assim, muito mais para um fanatismo sexual do que para uma neurose, uma psicose, uma demência ou outra doença neurológica qualquer. Somos, generalizadamente, “doentes neurossexuais”.

Ignorantes ou não, muitos de nós procuram abrangência dos conhecimentos e tentam começar a entender o porquê das coisas e das situações. Muitos de nós são conscientes de que existem situações corretas e situações errôneas e, por isso mesmo, procuram acertar mais do que errar. Muitos de nós seguem princípios, mais ou menos, rígidos de conduta ética e moral e, esses princípios não justificam a nossa ignorância, nem nossa loucura e, muito menos, a nossa alienação para com as coisas, em qualquer situação ou lugar, sobre a superfície do planeta.

Que estranho ser o Homo sapiens. Que mistura de coisas e situações produziu essa espécie diferente de todas as outras que vivem no planeta, se não dos pontos de vista anatômico e fisiológico, pelo menos, do ponto de vista comportamental?

Uma espécie que age como um estranho em seu próprio planeta, pois o destrói indiscriminadamente. Que age como um louco em seu próprio planeta, pois se reproduz sem avaliar a consequências do aumento exagerado de suas populações. Que ignora quase tudo que acontece em seu próprio planeta, pois só faz o que não deve, quando não deve e onde não deve, no que tange a preservar a vida na Terra.

O homem é uma anomalia, cuja origem e o entendimento talvez estejam fora dos limites físicos, mas ainda assim, é preciso que se discuta sobre o que fazer. Por menos que nos importemos sobre nossa própria existência, devemos ter em mente que ela é transitória e que essa transitoriedade será maior ou menor em função do destino que dermos a ela. Se temos medo de morrer, é melhor que assumamos o nosso medo abertamente e cuidemos para que nossas vidas valham um pouco mais para nós mesmos.

É possível que não sejamos nem alienígenas, nem loucos e nem ignorantes o suficiente. É possível que sejamos uma espécie suicida, que da mesma forma repentina que surgiu, poderá também desaparecer. Não gostaria de discutir aqui, as questões metafísicas e religiosas que envolvem o problema, mas é possível que as respostas estejam nessas questões. Quantos de nós não preferimos cruzar os braços, alegando que “Deus sabe o que faz”.

Sinceramente, eu espero que Deus saiba realmente o que faz e que em breve ele arrume um novo Noé, uma nova arca e novos passageiros (se sobrar alguma). Do contrário, essa anomalia biológica, esse contrassenso filosófico, essa entidade fisicamente inexplicável, esse monstro ideológico, essa figura ímpar chamada homem, terá acabado com o planeta.

Mas, por outro lado, eu prefiro não ter que depender de Deus para resolver os problemas terrenos criados pelo homem. O ano novo está apenas começando agora, estamos apenas no primeiro segundo do ano novo do “Calendário Cósmico” e o homem tem que ser capaz de sair da ignorância, da loucura e da alienação em relação às coisas do planeta. Nossa espécie não pode morrer tão jovem, dentro de um Universo tão velho.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

*Artigo escrito em 1994 e publicado na Revista Ângulo, Lorena/SP, Número 61, p. 4-5, jan/fev. 1995; também publicado no site www.recantodasletras.com.br/autores/profluizeduardo, em 25/04/2009.
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