Inteligência Artificial x Língua Portuguesa: um problema mais sério do que parece.

Resumo: A Inteligência Artificial é uma verdade, mas há muita gente fazendo mentira a partir dessa verdade. Para acabar com isso temos que agir rapidamente no intuito de salvar os nossos escritores e a nossa língua portuguesa. O artigo é mais um alerta sobre o uso abusivo e indevido da Inteligência Artificial. Todos precisam estar atentos, particularmente, os escritores e as editoras.


Neste nosso país do absurdo, uma das muitas verdades históricas é que, além dos vários políticos e de um presidente semianalfabeto, pouquíssima gente sabe efetivamente escrever. Por outro lado, mesmo entre aqueles que escrevem, quase ninguém conhece realmente a língua pátria. Deste modo, como semelhante atrai semelhante, o que tem de coisa errada e de besteiras escritas e impressas por aí é uma grande “festa da incompetência linguística”. Aliás, o saudoso Sérgio Porto (“Stanislaw Ponte Preta”) e os seus 3 volumes do FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), já nos contaram bastante sobre isso, desde a década de 1960.

Entretanto, agora, com o “internetês” e a infinitas siglas que não dizem nada e só atrapalham, mas que todo mundo usa discriminada e aleatoriamente, pois já são costumeiros em muitos textos, a coisa está cada vez mais degradante. Contudo, nada é tão ruim que não possa piorar. Assim, com o advento da Inteligência Artificial (IA), essa piora está acontecendo muito mais rapidamente do que poderia ser imaginado.

A Inteligência Artificial certamente é uma ferramenta interessante, importante e que pode, de fato, ajudar muito a todo mundo, porém, infelizmente, ela já está sendo mal utilizada. Alguns estão usando como muleta, principalmente aqueles que têm preguiça e aqueles que não sabem escrever, absolutamente nada. Imaginem só: um desses sujeitos pede a Inteligência Artificial que faça um determinado texto e ela faz, então, alguém afirma. “Poxa, que coisa legal! E em seguida, solta a pergunta: então para que saber escrever”?  Pois é, meus amigos, escrever deixou de ser algo necessário para os humanos. Pelo menos, para aqueles aqui do Brasil, que deveriam falar e escrever na nossa Língua Portuguesa, “a última flor do lácio, inculta e bela”, no dizer de Olavo Bilac.

Porém, é preciso lembrar que, em contrapartida, também ficam outras perguntas, que ninguém tem questionado. É isso mesmo, simplesmente, ninguém levanta dúvidas sobre essa questão. Quem avalia se o texto feito é bom?  Se o texto é correto e faz sentido? Se o texto condiz com a verdade?  Então, dessa maneira, aquele texto, produzido por Inteligência Artificial, é publicado, repetido e multiplicado muito rapidamente, sem que seja avaliado e analisado. Depois ela cai nas redes sociais e aí, meus amigos, somente Deus sabe o que pode acontecer.

Ou seja, a pessoa manda a Inteligência Artificial fazer um texto e usa esse texto sem nenhum escrúpulo. Entretanto, isso gera, pelo menos, três problemas que necessitam ser discutidos: primeiro é a falta de ética do indivíduo ao assumir, descaradamente, a propriedade um texto que não é seu. O segundo é que, nem tudo que a Inteligência Artificial faz é necessariamente correto ou verdadeiro. Terceiro, como o sujeito não sabia escrever, ele pediu a Inteligência Artificial que fizesse o texto e isso leva diretamente ao fato de que, mais pessoas agora estão, cada vez menos compreendendo a língua pátria, até porque na cabeça dessas pessoas, isso deixou de ser importante saber e assim, não precisa ser feito, porque a Inteligência Artificial faz sozinha e resolve o problema rapidamente.

Quer dizer, com essa possibilidade, tristemente, já praticada em larga escala, muitas pessoas passaram a ter uma preocupação e um trabalho a menos. Entretanto, produzem besteiras a mais e ampliam a falta de conhecimento da língua pátria. Simplesmente as palavras são, progressivamente, jogadas e assim, por óbvio, acabam sendo menos entendidas, tanto na grafia, quanto na semântica. E tanto por quem “escreve”, ou melhor, quem manda a Inteligência Artificial escrever, quanto por quem apenas lê o eu está escrito.

Quem lê, ainda pode sofrer menos, porque, quando existe dúvida, sempre é possível “consultar a Inteligência Artificial novamente”, no intuito de compreender o significado das palavras e das sentenças. Todavia, isso também não é bom, porque, de qualquer maneira, quase ninguém consulta mais as pessoas ou os livros e seus autores. Todo mundo fica satisfeito com a informação da Inteligência Artificial, haja vista que “ela não erra”. Aqui cabe ressaltar que, sempre é bom não esquecer que a Inteligência Artificial é uma criação humana e que “errar é humano” (Sêneca).

Mas, esta situação ainda pode gerar um quarto problema, que a Inteligência Artificial aparenta não conhecer, ou. se conhece, não costuma utilizar e que o seu usuário costumeiro, conhece menos ainda. Estou me referindo às regras nas citações e usos aleatórios de siglas e palavras de outros idiomas. Desta maneira, o que já era ruim, está, progressiva e agravantemente, ficando muitíssimo pior e muitos textos importantes estão sendo grafados de maneira ilógica e incoerente, ou seja, “sem pé e nem cabeça”.

Por outro lado, graças ao nosso colonialismo cultural, as palavras e os termos de outras línguas estão sendo, cada vez mais empregadas, sem nenhuma filtragem e sendo assumidos, descaradamente, sem critério e sem nenhuma cerimônia. O Português está passando a ser qualquer coisa escrita ou dita, sem nenhum padrão linguístico. Enfim, a coisa está muito difícil e, lamentavelmente, só tem piorado. Agora que, já quase acabamos com a Língua Portuguesa, estamos também começando a acabar com as outras línguas. O clássico exemplo para isso é o “cheese” (queijo em inglês), que no “novo português”, faz algum tempo que já virou “X”. Foi assim, que o “cheeseburger”, virou “Xburguer”, nesse “novo português” que anda por aí.

A ferramenta Inteligência Ambiental, transcendeu o seu limite e deixou de ser mais uma ferramenta boa, passando a ser uma muleta e as pessoas a estão usando para tudo, o tempo todo e ainda, sem nenhuma parcimônia. Ou seja, se foi a Inteligência Artificial que falou (escreveu) é “verdade” e, por óbvio, está valendo. Entretanto, não é bem assim. Aliás, não deveria ser nem “meio assim”. O português é uma língua difícil e uma língua dessa estirpe não pode funcionar como um “macaco pesado”, servindo para quebrar qualquer galho de outra “língua”, que nem existe oficialmente.

 Imaginem se as coisas interpretativas que a Inteligência Artificial, usando os seus algoritmos, não consegue ver e se, “por acaso” até vê, como decidir linguisticamente sobre eles. Se quem está utilizando a Inteligência Artificial também não tem nenhum conhecimento dessas coisas, certamente, os erros interpretativos vão continuar se acumulando e se ampliando.

De qualquer maneira tem gente adorando porque os acentos vão perder o sentido totalmente e, por óbvio, vão, simplesmente, deixar de existir. A pontuação então, nem se fala. Pontuação, para quê? Vai ser difícil entender se Deus disse que: nós nos amássemos ou que nos amassemos. Pelo menos, não ficaremos mais preocupados com ao maneira de escrever: Por que, porque, por quê ou porquê e muito menos de saber quando usar cada uma de suas formas. É, tem muita gente torcendo para ser assim, porque, certamente, vai ser bem mais fácil, já que assim, qualquer porquê serve.

Pior do que os ignorantes e incautos, que são apenas incapazes, são os espertos, que acham que estão ganhando tempo e fazendo um bom negócio, mas, na verdade, eles ainda não entenderam que “malandro demais se atrapalha” ou, como disse Jorge Bem; “se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem”. Hoje, inventamos um novo português, que até pode se aproximar do verdadeiro português, mas que, certamente, não é português. É uma outra língua, onde se misturam coisas e se esquecem regras gramaticais básicas e onde se interpretam coisas, a partir de conceitos totalmente errados e incoerentes.

Meu Deus, alguém tem que impedir que isso continue acontecendo, para que nossa gente volte a tentar escrever e falar na nossa língua, ainda que esteja falando naturalmente errado, porque, deste modo, pelo menos existe a coerência de ideias e sentido. Isto é, do tipo: “nós fumo de bliscreta para ver a largatixa na sambambaia”, mas “agente” entende. E se a gente não for nenhum agente? Duro vai ser, quando a Inteligência Artificial concluir que Sertão é um lugar em que tudo dá certo ou um lugar que tem um jeito de ser tão “serto”, que nada dá errado ou ainda que “o problema é sempre um pobrema, ou que às vezes pode ser um plobrema”? Ou, pior ainda, quando ela concluir que “o progressio e o desenvolvimento são contrários à sustentabilidade e que só tem sustentabilidade aquilo que fica em pé”. Meus amigos, parece que a coisa vai ficar muito feia, mas, não se assustem, que pode ficar bem pior.

A Inteligência Artificial e seus infelizes e costumeiros usuários parecem desconhecer certos erros e assim, sem nenhuma vergonha, deverão assumir abertamente que esses erros ainda poderão continuar existindo, porque isso não tem nenhuma importância. Considerando que hoje a “Internet” é a mãe de todas as mídias e que o ócio é o pai de muitos homens de comunicação e, principalmente, que a velocidade com que as notícias correm é fantástica, talvez já seja quase impossível tentar frear essa situação constrangedora.    

O pior ainda é que, se isso é ruim para o cidadão adulto comum, imaginem para as crianças e jovens que precisam aprender a escrever e para certos profissionais, como os jornalistas, professores, advogados, escritores e pesquisadores que vivem quase que exclusivamente do que escrevem? Ou esses profissionais acabarão, pois morrerão de fome ou o uso da Inteligência Artificial terá que, necessariamente, ser regrado por legislação federal, haja vista que, certamente, teremos muita bobagem sendo discutida, publicada e ensinada, além de muita “gente boa” defendendo essas bobagens.

Para quem não conhece nada de nada, no que se refere a língua portuguesa, apenas tentar “aprender” a escrever por conta dos textos elaborados pela Inteligência Artificial, certamente, será uma grande lastima. Acredito que se está decretando o fim da nossa querida língua portuguesa. E como disse Fernado Pessoa (heterônimo Bernardo Soares): “Minha pátria é a língua portuguesa”. Talvez, por isso mesmo é que estamos também perdendo a própria noção do que seja pátria.

A lógica linguística da Inteligência Artificial, se é que existe, é uma lógica puramente comercial e comunicativa e não tem nenhuma conotação realmente linguística. Isto é, por exemplo palavras semelhantes ou mesmo iguais terão sempre uma conotação mais comercial, a qual, muitas vezes, vai levar a um entendimento errado daquela ideia que se queria. Eu não sou contra a Inteligência Artificial ou contra o comércio. Aliás, muito pelo contrário, sou até favorável ao seu uso em determinadas situações, mas nunca como regra geral.  Senhores, nós somos seres pensantes e temos que, necessariamente, ser capazes de entender e explicar as coisas, primeiramente em bom português, antes de apenas repetir (“papagaiar” ou “macaquear”) alguns termos.

Se já era difícil escrever e ser entendido em português, porque a língua portuguesa é realmente muito difícil e complexa, agora, então, está ficando muito mais difícil, porque não se está mais escrevendo, efetivamente, em português, mas sim, numa língua mista cuja base pode até ser a língua portuguesa, porém sem que haja qualquer pensamento e nem mesmo preocupação com os princípios da língua em si. É preciso entender que a língua tem vida e não é um simples conjunto de palavras, ou um vocabulário especial, que somente define quando e como se deve usar determinados termos.      

De qualquer maneira, é fundamental que alguma coisa seja feita para conter o avanço absurdo dessa situação. Nós membros de Academias de Letras e, em certo sentido, guardiões da nossa língua pátria, temos a obrigação de ficar de olho e de agir contrariamente ao contínuo crescimento dessa questão, que já passou do estágio de ser apenas uma preocupação, porque já está bastante disseminada na sociedade, inclusive, nas escolas, o que é mais lastimável ainda.

Nesse país, historicamente, em termos culturais, temos perdido quase tudo e agora também estamos perdendo a nossa base cultural maior que é a Língua Portuguesa. Precisamos mudar essa tendência, defendendo uma Língua Portuguesa mais castiça, antes que seja tarde demais. Monteiro Lobato nos disse e nos incentivou a acreditar que: “Um país se faz com homens e livros”, pois, então, meus confrades, estão querendo nos mostrar que isso não é um uma verdade e nem mesmo que isso seja algo importante, porque, hoje, a Inteligência Artificial já consegue resolver todos os problemas linguísticos por si só.

Será? Eu, sinceramente, não acredito! E espero, sinceramente, que tenha muito mais gente pensando da mesma maneira que eu penso. Pois é, talvez, apenas talvez, essa seja verdadeiramente a grande questão: para escrever é preciso pensar. Pois então, atualmente pensar não parece ser algo muito interessante para a maioria dos brasileiros, que estão sendo levados, pela mídia safada, a se digladiarem por questões infinitamente menores, enquanto inserem bobagens e picuinhas nas suas respectivas cabeças. Desta forma insólita, triste e lamentavelmente, acabam existindo muitas coisas mais importantes do que “apenas” escrever.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (70) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.

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