Resumo: Nesse artigo é feita uma abordagem histórica do envolvimento dos jovens brasileiros com a leitura, sendo discutido o porquê do hábito de ler, tão comum em outros países, ter passado a ser sem nenhuma importância no Brasil. A culpa do fato é atribuída aos governos que se sucederam e não deram o devido valor à Educação. A correção dessa falha e a mudança devem começar pelo voto nas eleições.
Confesso que, quando menino, eu não gostava muito de ler. Porém, diferentemente da garotada de hoje, apesar de pouco gostar, eu até lia bastante. Todavia, se comparado aos meus exemplos em casa, ainda era muito pouco, porque minha avó paterna era livro maníaca e meu pai, um verdadeiro devorador de livros. Eu era um menino que se ocupava muito da leitura, mas meu pai e sua mãe liam absurdamente além de mim.
Aliás, é curioso que os irmãos da minha avó, meu tio e minhas tias, também liam muito. E minha tia, irmã de meu pai, era outra viciada em ler. Engraçado que cresci imaginando, absurdamente, que o interesse pela leitura também poderia ter um componente genético, ao menos, na minha família. E, mais interessante e que, graças a Deus, meus filhos também desenvolveram o mesmo hábito.
Hoje os pedagogos modernos entendem que a criança só deve ser alfabetizada entre os 6 e 7 anos de idade, quando estiver cursando o primeiro ano do Ensino Fundamental. Quando ingressei na escola, aos 6 anos, já sabia ler. Havia aprendido em casa entre os 4 e os 5 anos, pela ação dos meus pais sob orientação particular.
Não quero contrariar a Pedagogia, nem me vangloriar ou me considerar melhor que qualquer pessoa. Porém, naquela época era comum, ao menos na cidade do Rio de Janeiro, que as crianças aprendessem a ler ainda com pouca idade, começando o processo em casa. Contudo, devo dizer que minhas duas filhas e meu filho aprenderam a ler de acordo com os preceitos da nova Pedagogia, da qual não tenho nada a reclamar, haja vista que todos são exímios leitores e escritores.
Quando menino, li basicamente todos os clássicos das histórias infantis. Depois, um pouco mais crescido, iniciei as leituras mais robustas, como Vinte Mil Léguas Submarinas, Moby Dick, Dom Quixote e os Contos de Edgar Allan Poe. Durante a puberdade e a juventude, foi o período de leitura da ficção de Arthur Clarke e Isaac Asimov. Ah! Eu ia me esquecendo! Sempre li muitos gibis também, como Fantasma, Super-Homem e Cavaleiro Negro – meus preferidos. E Flash Gordon, embora nunca tenha achado muito legal.
Por influência da Igreja Católica e da minha avó materna – portuguesa e super devota –, li sobre a vida de vários santos, pois ela me trazia. Não me lembro de todos, mas certamente sobre a vida de São Francisco, São Lucas, Santa Bernadete, Santa Cecília, Santa Tereza, São Paulo, Santa Catarina e São Cosme e São Damião. Eram revistas sobre a vida dos santos, um formato que desapareceu. Aliás, estava me esquecendo de dizer que, durante minha infância, pude ler quase todas as histórias fabulosas de Hans Christian Andersen.
Obviamente, também li sobre todos os personagens de Walt Disney e, a propósito, meu preferido sempre foi o Pato Donald. Quando foi publicada a primeira Revista da Turma da Mônica, fui à banca de jornais, comprei, li e não gostei. Mas, ainda assim, li vários exemplares. Nessa época eu tinha entre 14 e 15 anos, portanto já me interessava por literaturas menos infantis. Hoje, tristemente, os gibis quase não existem mais.
Na faculdade, além das minhas obrigações voltadas à formação profissional, li os (já aqui citados) autores de ficção e quase tudo o que encontrava sobre humor. Lembro-me de ter adquirido todos os volumes de As Anedotas do Pasquim, os livros do Chico Anísio e do Carlos Eduardo Novaes, os textos e livros do Juca Chaves e do Jô Soares e tantos outros. Enfim, ainda era pouca leitura, se comparada à do meu pai e à da minha avó, mas era significativa e estimulada por meu pai, que sempre me trazia mais livros e sugestões de leitura. Na verdade, eu não lia mais porque escrever era, para mim, mais importante. E podem acreditar, desde menino eu já escrevia bastante. Produzi poesias, letras de músicas, piadas e pequenos contos.
Meu pai e sua mãe tinham outro vício: fazer palavras cruzadas! Nisso, certamente, eu não só copiei o hábito deles, como acredito ter superado ambos. Desde menino até hoje, sou viciado em palavras cruzadas. Naquela época havia competições entre escolas, bairros, cidades e até mesmo entre estados e países. Nunca participei das grandes competições, mas venci muitas das locais.
Em suma, com o estímulo de meu pai e minha avó, eu sempre fui freguês de livrarias, bancas de jornais e bibliotecas. Na faculdade eu era um “rato de livrarias e de bibliotecas” e já pensava na minha carreira como futuro Biólogo e Professor. Porém, hoje as bancas de jornal praticamente foram extintas, as livrarias físicas são raras, as pequenas bibliotecas praticamente acabaram, e as grandes bibliotecas funcionam mais como museus, devido aos seus grandes acervos, do que efetivamente como lugares de leitura.
Mas, por que estou falando de minha vida quando jovem e das coisas que eu lia? Porque hoje, o hábito de ler praticamente não existe mais. Infelizmente, a maioria dos jovens não tem interesse na leitura e, assim, o hábito de escrever existe menos ainda. Como quase ninguém lê, pouca gente desenvolve a escrita, que se limita a siglas e abreviações absurdas e muitas vezes sem nenhum sentido ou necessidade. O ser humano está emburrecendo aqui no Brasil e acredito que isso, talvez, esteja acontecendo no mundo todo.
Parece que a humanidade está se esquecendo de que Voltaire, no início do século XVIII, nos ensinou que “a leitura engrandece a alma” e, deste modo, talvez a leitura seja “o melhor caminho para o céu”. Isso mesmo, eu acredito que, sem leitura, não se caminha para a felicidade. Pois é, meus amigos, muitos dos seres humanos têm preguiça de ler e, em consequência disso, não sabem escrever nem conseguem raciocinar direito. Ou seja, a vida desses seres humanos deve ser um inferno!
Ainda pior, o governo brasileiro, historicamente, tem dado o maior apoio a essa situação, quando não faz absolutamente nada para impedir que a avalanche de ignorância se amplie. Também pudera, com o nível dos exemplos que temos nos cargos públicos, mormente os eletivos, onde qualquer idiota pode tomar assento, desde que receba os votos e seja eleito. Pois é, somos responsáveis pelo inferno coletivo que se estabeleceu no país, já que todos nós votamos nesses cargos.
Contudo, se não bastassem os políticos, também há muita pobreza linguística nas letras das músicas, que antes eram verdadeiras obras de literatura e que, atualmente, não passam de textos abjetos e promíscuos, sem nenhum valor intelectual ou mensagem de conotação significativa e efetiva. Realmente, sem leitura, tudo fica muito difícil. São jornalistas e atores que falam e escrevem errado e muitos que não entendem o que falam, apenas decoram frases e textos. E vai por aí. A coisa está muito feia. Todavia, tem gente que acha que está tudo bem.
Para muitos, tanto faz, desde que a comunicação seja feita e entendida, ainda que erroneamente, tudo está valendo. Não há controle, porque todos erram e assim o erro vira acerto e vamos em frente, que atrás vem gente. Aliás, como não há controle, em certo sentido, real e, tristemente, não há nenhum erro. Quem sofre é a nossa língua pátria. A língua portuguesa não é apenas “a última flor do Lácio, inculta e bela”, como disse Olavo Bilac. Mas, agora, está realmente ficando burra e feia porque é mal falada e não é escrita corretamente.
Meus amigos, está faltando leitura e a situação já chegou às raias do absurdo. Antes, costumavam ser os mais pobres e humildes que não sabiam ler e, assim, também não sabiam escrever. Mas hoje a situação é generalizada e quase ninguém está nem aí para a língua portuguesa. Os pobres e humildes ampliaram a condição de falar e escrever erradamente e os ricos criaram línguas novas – o “pseudoinglês”, o “internetês”, o “whatsappês”, o “quase português”, o “comediantês” – todas com vários sotaques. E, ainda, existem inúmeras “línguas tribais” por aí que, embora tribais, fogem bastante do português, do “nheengatu” e mais ainda – do tupi.
Quero dizer, essas “novas línguas” nada têm a ver conosco. Ou melhor, talvez tenham a ver com alguns “brasileiros” desinteressados pelo Brasil e pela sua gente. Uns “brasileiros” que estão apenas preocupados com o dinheiro fácil, que podem ganhar iludindo inúmeras pessoas humildes e de boa-fé. O lugar desse tipo de “brasileiro”, que usa outros para roubar, deveria ser a cadeia e não os cargos políticos e administrativos do país.
Estudar o português mesmo, que é bom e necessário para o crescimento intelectual, “neca de pitibiriba”, haja vista que quase ninguém conhece, realmente, a língua. A propósito, até as nossas expressões mais chulas e simples foram esquecidas. O português castiço, então, nem pensar que saibam. Os próprios corretores de texto dos programas de computador sugerem mudança das palavras quando você usa um termo pouco conhecido.
Então eu pergunto: por que isso acontece? Quem colocou essa informação no programa? Por que o programa de computador tem que fazer esse tipo de “correção” que, na verdade, está mais para distinção e exclusão de determinadas palavras? Tomara que eu esteja errado, mas penso que seja exatamente para que as pessoas fiquem, cada vez mais, limitadas quanto às suas capacidades argumentativas, como consequência de suas deficiências e limitações linguísticas. Limitar a fluência e a diversidade de termos, evitando novas palavras e impedindo a diversidade de aplicação de conceitos, certamente, também é uma maneira de tentar controlar e dirigir o pensamento da população.
A mesmice dos termos é uma forma de controlar as conversas e assim, de criar discursos únicos. E acho que estamos caminhando muito rapidamente para essa situação absurda, onde se perdem totalmente o direito de pensar, de falar e de escrever com liberdade de expressão e de significado. Meu Deus, onde vamos parar com essas restrições incoerentes e inconsequentes? E há alguns sujeitos que ainda insistem em dizer que vivemos numa democracia.
Como disse Fernando Pessoa: “minha pátria é minha língua”. Se essa é uma verdade, e eu penso que seja, então também acredito que se alguém acabar com a língua, certamente, exterminará a pátria. E me parece que esse seja o projeto de alguns indivíduos. Mas, como disse antes, tomara que eu esteja errado. De qualquer maneira, nós, amantes da língua portuguesa e sabedores de sua importância para todos, não podemos mais deixar que essa avalanche de absurdos linguísticos continue acontecendo.
Precisamos dar um basta nessa situação nojenta que se estabeleceu. Devemos começar votando em gente que tenha a educação da população como meta principal do país e a língua portuguesa como uma prioridade nacional. Chega de idiotas travestidos de políticos, liderados por picaretas, sendo eleitos para cargos políticos. O voto tem que representar a vontade real que temos de demonstrar que o Brasil tem jeito e que esse jeito começa, sobretudo ao investir em educação e respeitar o idioma pátrio.
Incentivemos e voltemos massivamente ao bom hábito de ler, que vem sendo esquecido principalmente pelos jovens, os quais, por óbvio, são os mais necessitados de informação e conhecimento. Consequentemente, eles são também os mais prejudicados. Trabalhemos para fazer com que eles entendam essa verdade, adquiram e desenvolvam o hábito de ler. Lutemos para demonstrar que a leitura pode, realmente, ajudar a transformar a vida das pessoas e, consequentemente, do país.
Nossos jovens necessitam compreender que, guardadas as devidas proporções, ler é tão necessário quanto respirar, comer ou reproduzir. Porém, como ninguém morre se não fizer sexo, ninguém também morrerá por carência total de leitura. Todavia, a pessoa que não desenvolve essas capacidades ficará, por outro lado, pendente e dependente de várias outras questões, além da simples falta de leitura ou de sexo.
Quem não reproduz tem sua vida limitada, em certo sentido, porque jamais compreenderá, por exemplo, a glória de ter um filho. Da mesma forma, como disse Monteiro Lobato: “Quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê”, ou seja, quem não lê não sente e não percebe e não discute. Quem não lê não vive de fato; apenas segue sobrevivendo enquanto consegue.
Enfim, precisamos compreender que aquele ser humano que não lê é um ser humano como nós, mas que se encontra incompleto e que só será capaz de se completar de acordo com a leitura que adquirir ao longo da vida. A verdade é que o que se come alimenta o corpo, mas é o que se lê que alimenta a mente. Ou melhor, o que se lê enriquece o espírito e melhora a percepção do ser humano. Seres humanos melhores só aparecerão nesse país de picaretas com a leitura e o conhecimento dela oriundos.
Enquanto tivermos no poder políticos que tratam a educação do povo brasileiro como simples diletantismo, sem nenhuma importância e que se orgulham de dizer: “Não tive educação e cheguei aonde cheguei”, não mudaremos essa situação. Se não mudarmos isso, certamente continuaremos fora da realidade. E nossa língua portuguesa, que surgiu nas ruas do Lácio, estará fadada a ser sempre algo que também não interessa aos “donos” do poder.
Senhores, a coisa é séria, pois a modernidade de outros países não afeta suas línguas pátrias. Somente aqui no Brasil os “poderosos” têm esse interesse. Por que será que isso acontece? Antes de votar, pensem nisso também, particularmente se os senhores têm ou pretendem ter filhos, netos, bisnetos e daí para frente. Que país vocês querem deixar para seus descendentes? Tenho certeza de que não sou o único a pensar que as coisas podem ser muito melhores para o Brasil.
Pois então, o respeito à língua pátria e ao conhecimento sobre ela são fundamentais para garantir que o país possa galgar o respeito que precisa ter, mas que, ultimamente, tem sido desconsiderado por vários outros países, tanto mais desenvolvidos quanto menos. Temos que corrigir essa nossa condição de “vira-latas”, que também passou a ser sinônimo de sem brio e sem valor.
Se quem dirige não tem brio e assume essa condição vexatória, esse é um problema dos dirigentes, mas a população do país não pode ser desrespeitada e considerada sem valor, costumeiramente como tem sido, por qualquer outro país, maior ou menor. O pior é que a “caravana passa”, a “banda segue” e tudo continua, como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, a língua pátria se mantém, tristemente, sendo tratada como algo sem valor, com respaldo e incentivo político e administrativo da maioria dos dirigentes nacionais.
Luiz Eduardo Corrêa Lima (70), é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.