Tag: Importância dos “Data Centers”

19 jun 2026

Os “Data Centers” e o Meio Ambiente

Resumo: Os “Data Centers” são necessários, porém como fica o meio ambiente com esses o aumento desses centros de dados? A vida moderna é dependente da Informática, mas os grandes centros de dados que guardam servidores e materiais dessa área, entram em confronto direto com o meio ambiente, porém a grande maioria das pessoas parece desconhecer esta situação conflitante.


A grande maioria das pessoas que se utilizam das utilidades operacionais da “Internet” e de todos os seus benefícios, inclusive e principalmente a Inteligência Artificial, não faz ideia do quanto isso implica no Meio Ambiente, interferindo drasticamente no consumo de energia, de água e ainda, na geração de resíduos eletroeletrônicos. Por óbvio, alguns já questionarão: ué, “Internet” causa problema ambiental?  E eu prontamente já respondo, a “Internet” por si só, não causa, mas os “Data Centers”, sim e, o que pior, causam muitos problemas ambientais. 

Então, afinal, o que são os chamados “Data Centers”? Por que eles se constituem em grandes vilões para o Meio Ambiente e para os Ambientalistas? Bem, vamos conversar um pouco sobre esse tipo de empreendimento, que a grande maioria das pessoas, certamente, nunca ouviu falar e assim, quase ninguém, nem sabe que existe e vamos tentar esclarecer o porquê de eles fazerem tanto mal ao Meio Ambiente das localidades onde são estabelecidos e ao planeta como um todo, haja vista que já existe um grande número desses empreendimentos nos mais diversos países da Terra.

Na verdade, para que todas as coisas continuem seguindo bem com a “Internet” e as maravilhas informáticas dela derivada, direta ou indiretamente, existe a necessidade de centrais de dados que são mantidas sob funcionamento durante 24 horas por dia. Ou seja, essas centrais funcionam “eternamente”. Os locais onde essa situação é desenvolvida e garantida denominam-se “Data Centers”, que estão espalhados pelo mundo afora. Os “Data Centers” são centrais físicas que abrigam toda a infraestrutura de Tecnologia da Informação, ou seja, os “Data Centers” são bases que abrigam e conservam toda a parafernália que mantém ativos os serviços de informática.

Aqui no Brasil, concentramos cerca de 50% (48% para ser exato), de todo o potencial desse tipo de base de dados da América Latina. Até o final do mês de abril, existiam 205 “Data Centers” funcionando no país. Só no estado de São Paulo eram 125, incluindo o maior “Data Center” do país e da América Latina, que está localizado em Vinhedo. Mas, o setor não para de crescer e certamente o Brasil seguirá como líder desse tipo de empreendimento na América Latina.

Então, mas se os “Data Centers” são centros de Tecnologia da Informação, o que eles podem produzir de tão desagradável ao Meio Ambiente?

Os “Data Centers” necessitam de grande quantidade de energia e para isso eles, na maioria das vezes, eles se estabelecem, paralelamente, com centrais elétricas, algumas delas com capacidades e consumo de energia superiores a 300 MW, no intuito de garantir a energia que os “Data Centers” necessitam para manter o seu funcionamento “eterno”. Essa energia até pode vir de outro lugar, em pequenos “Data Centers”, mas isso encarece bastante aquilo que já é muito caro. Deste modo, as fontes elétricas dos “Data Centers”, costumam estar nos próprios centros de dados.

Quer dizer, geralmente, onde existe um grande “Data Center” também existe uma grande central elétrica (Usina) que fornece a energia para manter as suas necessidades operacionais. Na maior parte das vezes, essas Centrais Elétricas são Termelétricas, movidas a óleo ou a gás e por isso mesmo, altamente poluidoras da atmosfera, pois liberam inúmeros compostos poluentes no ar atmosférico, como óxidos de Nitrogênio e de Enxofre, Ozônio, além de inúmeros particulados de Hidrocarbonetos.

Essas termelétricas, em maior ou menor escala, são usinas que geram energia muito cara, são altamente poluidoras do ar atmosférico e que, desta maneira, interferem bastante e diretamente no ambiente na qualidade do ar, do bolso e consequentemente, da qualidade de vida das pessoas e dos demais organismos vivos que estão nas suas proximidades. Se não bastasse isso, essas termelétricas também dependem de grande quantidade de água para resfriar suas caldeiras e manter uma temperatura razoável das estruturas para que possam durar um pouco mais.  Além disso, como há grande quantidade de calor, por conta da energia utilizada, a água também é utilizada para resfriar o sistema e regular a temperatura do local.

Essa água, depois de utilizada no resfriamento, simplesmente desaparece, pois é transformada em vapor d’água e acaba indo para o ar atmosférico, A pequena parte que se mantem líquida, fica bastante aquecida, sendo devolvida com temperatura muito mais elevada do que o normal à natureza do local. Esse fato, interfere diretamente na vida de toda a biota aquática do local e em grande parte da biota terrestre do entorno e, deste modo, compromete todo o ecossistema do lugar.

Pois então, à “boca pequena”, ouvimos falar que já estão sendo construídos, pelo menos, dois “Data Centers” aqui na região do Vale do Paraíba paulista, um pequeno, em São José dos Campos, previsto para entrar em operação em 2027 e outro em Pindamonhangaba (um Mega “Data Center”) previsto para iniciar o funcionamento em 2028. Entretanto, cabe lembrar que nós estamos na Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, certamente a mais importante e mais complicada do país e não podemos dispor de nossa água para essas coisas. 

Modelos pequenos como a de São José dos Campos, abrem precedentes e assustam, mas ainda não estão incomodando muito. Por outro lado, modelos gigantes como o previsto para Pindamonhangaba, precisavam ser impedidos de surgirem e se, de alguma maneira, surgirem, devem ser impedidos de se multiplicarem. Precisamos exigir os Estudos de Impacto Ambiental desses tipos de empreendimentos e acompanhar todo o tramite do licenciamento ambiental desses empreendimentos.

Senhores, das 12 grandes Bacias Hidrográficas Nacionais, vivemos numa Sub-bacia da menor delas, que é Bacia Hidrográfica do Atlântico Sudeste, com aproximadamente 229.972 km². Nossa pequena Sub-bacia do Paraíba do Sul, com aproximadamente 60.000 km² de extensão, atende e abastece diretamente cerca de 30 milhões de pessoas, um imenso parque industrial, uma área agrícola significativa e que já está com sérios problemas, no que tange à sua segurança hídrica. E agora resolvemos empreender em grandes “Data Centers”. Isso me parece algo extremamente perigoso.

E aí, eu pergunto: será podemos nos dar ao luxo de construir grandes “Data Centers” e complicar mais a qualidade e a quantidade de nossa água, que já é precária e está bastante comprometida para atender a população que tem que abastecer? Obviamente, que não podemos. Certamente, essa tendência não é nada boa. Aliás, é temerária.

Essas coisas que acontecem por “debaixo do pano” é que sempre complicam mais a realidade e que transformam esse país em terra de ninguém ou apenas, de alguns privilegiados e “sortudos”. Esse estranho hábito de querer enganar as pessoas por conta de outros interesses é que complica a vida dos lugares e principalmente dos moradores do local, onde se resolve desenvolver certo tipo de empreendimento absurdo ou, no mínimo, incoerente, bastante duvidoso e altamente questionável. 

E o pior é que a comunidade local, sempre fica sem saber, quem é o responsável pelo projeto, como foi feito o Estudo de Impacto Ambiental, se é que foi, e onde e quando serão realizadas as Audiências Públicas para discutir sobre o projeto a ser empreendido. Cabe lembrar que as Audiências Públicas, pela Lei, são obrigatórias, e podem demonstrar o desinteresse comunitário sobre o empreendimento e até impedir que ele se estabeleça. 

Assim, quando a comunidade, efetivamente, descobre certas desgraças, muitas vezes, o mal já está quase totalmente feito e muitas vezes fica difícil impedir sua construção e seu funcionamento. Por conta disso, nós, cidadãos valeparaibanos, precisamos estar atentos e ligados nessas coisas estranhas que estão acontecendo na surdina.

É preciso deixar claro para os empreendedores e para a sanha econômica deles, de que as pessoas da região do Vale do Paraíba não querem e não vão permitir facilmente a instalação de certos tipos de empreendimentos, causadores de alto teor de poluição atmosférica. Além disso, também é preciso lembrar que nossa Bacia Hidrográfica não pode mais, se dar ao luxo, de desperdiçar água, apenas para resolver questões particulares de grandes projetos e plantas industriais de empresas nacionais ou multinacionais ricas, que querem apenas enriquecer mais e o resto, incluindo os seres humanos locais, que se dane.

 A Lei Federal 9433/1997, que estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos, afirma que a prioridade da água é o abastecimento humano e a dessedentação de animais. Nossa água já está muito comprometida para perdermos água esfriando caldeiras e enriquecendo mais os bolsos de certos picaretas. Por mais importante que possam ser os “Data Centers”, nós ainda acreditamos que vida humana continua sendo a coisa mais importante e, por sorte, a Lei também pensa assim. Precisamos, apenas e tão somente, trabalhar para que a Lei seja sempre cumprida.

Mas, também é preciso ressaltar que os “Data Centers” não são ruins apenas porque geram energia, causam poluição atmosférica, degradam ambientes naturais e fazem a água desaparecer. Ou seja, além dos resíduos produzidos normalmente pelos funcionários e outros visitantes, 24 horas por dia, sem parar. Só para lembrar que o “Data Center” nunca param de funcionar. Infelizmente, eles ainda podem fazer coisas piores, haja vista que usam muitos outros recursos naturais, principalmente metais e geram muitos resíduos eletroeletrônicos. São carcaças, peças quebradas, metais corroídos, componentes químicos gastos ou parcialmente destruídos, oriundos das máquinas de emprego na Informática.

Pois então, o uso contínuo e o desgaste desses materiais é capaz de gerar muitos contaminantes e substâncias diversas, muitas das quais, ninguém sabe muito bem para onde vão e muito menos o que acontece com elas e principalmente, o que, eventualmente, podem causar.  Essa gama de resíduo gerada e acumulada necessita ser destruída e novos materiais precisam ser colocados em seus lugares para a manter o bom funcionamento das máquinas. Quer dizer, os “Data Centers” estão sempre gerando resíduos e usando novos recursos naturais para se manterem em funcionamento e, desta maneira, usam cada vez mais recursos naturais e geram sempre mais resíduos. Em outras palavras, eles consomem recursos e geram resíduos constantemente e isso tem grande custo ambiental.

Todavia, existem algumas histórias, algumas já realmente comprovadas, que mostram que esse tipo de resíduo, muitas vezes, é transportado, clandestinamente, para países mais pobres, onde o material é separado e reaproveitado para as mais diversas funções naqueles países. Há algumas nações que até agradecem o recebimento desses resíduos, pois para elas isso é fonte dos materiais raros, caros e diversos que, de outra maneira, talvez jamais pudessem ser conseguidos, ainda que isso traga prejuízos à saúde de alguns e custe a vida de outros indivíduos. É triste, mas Thomas Hobbes tinha razão, ao popularizar a celebre frase de Plauto que, antes de Cristo, já dizia: “o homem é o lobo do homem”.

Meus amigos, em linhas gerais, os “Data Centers” são mais ou menos isso que acabei de descrever e tem “gente” que vai dizer que eu sou maluco e que, como ambientalista, eu sou um “ecochato” e contra o desenvolvimento. E por óbvio, que parte dessa “gente” vai ressaltar que os “Data Centers” permitem vantagens operacionais, geram empregos e trazem ganhos econômicos.  Isso é verdade, porém os empregos só são significativos durante as obras de construção do “Data Center”. 

Isso implica em que a mão de obra empregada é temporária, costuma ser desqualificada e consequentemente é muito barata. Ou seja, gera pouca renda e por pouco tempo. Os empregos que exigem gente bem formada e especializada são pouquíssimos, haja vista que, até por questão de segurança das informações, quase tudo deve ser automatizado nos “Data Centers”.  

Pois então, por isso mesmo, eu ainda quero destacar, que esse pessoal, que é contrário ao ambientalismo, se esquece que o negócio tem que ser bom para todos ou, pelo menos, para a maioria e não para alguns. O desenvolvimento tem que ser sustentável e que há necessidade de se considerar a qualidade de vida de todos os envolvidos, de quem está vivendo hoje e de quem ainda vai nascer, quando se fala de desenvolvimento sustentável. É preciso lembrar que a qualidade de vida ainda é a principal “moeda” que deve ser considerada, quando as coisas são colocadas numa balança de custo/benefício, embora exista muitos “seres humanos” que não achem que qualidade de vida seja algo importante.

Senhores, vamos ficar de olhos abertos sobre esses e outros “Data Centers” que vão querer nos empurrar goela abaixo e vamos fazer o mesmo que já fizemos com as seis tentativas de instalação de mega termoelétricas na nossa região. Vamos trabalhar para impedir que eles se instalem, aqui no Vale do Paraíba. É lógico que sabemos da importância dos “Data Centers”, mas nós não os queremos por aqui e tampouco em outra região populosa e, muito menos, com dificuldade de dissipação do ar e pouca disponibilidade de recursos hídricos, como é o nosso Vale do Paraíba. Cabe lembrar, que a pouca disponibilidade de recursos hídricos é consequência exclusiva de escolhas erradas que foram realizadas no passado recente. 

Nós já deveríamos ter aprendido com os nossos erros do passado e hoje, não poderíamos mais permitir que ações abusivas e à revelia da Lei, como algumas, até bastante recentes, pudessem continuar acontecendo aqui na nossa região. Nesse momento, aproveito para citar e recordar um “slogan” velho, mas sempre atual, que foi muito divulgado na região há alguns anos: “no vale, a vida é o que vale”. Pois, então, precisamos demonstrar que isso é uma verdade.

Hoje, nós já sabemos que água, embora caia do céu, é um recurso natural vital que está implicado nas mais diversas funções biológicas que nos permitem manter a nossa vida e que a, já citada, Lei 9433/1997, afirma que tem valor econômico. Que o ar atmosférico, onde se encontra o oxigênio, tão necessário no nosso processo respiratório, também é um recurso natural que precisa estar limpo e em condições de ser inalado para não trazer doenças respiratórias. E por fim, sabemos que o Meio Ambiente é fonte primária de todas as coisas que nos são necessárias e, por isso mesmo, necessitamos mantê-lo em condições de salubridade e qualidade para as gerações futuras.

Os “Data Centers”, por mais necessários que possam ser, principalmente, se considerarmos as implicações da vida moderna, onde a informática e a “Internet”, em especial, têm papel importantíssimo. Todavia, certamente, não são tão fundamentais como água e ar de qualidade e em quantidade suficiente para a vida humana e de outros organismos em todos os tempos. Deste modo, não adianta absolutamente nada existirem os “Data Centers”, se não existirem seres humanos para fazer uso deles. Senhores empreendedores, pensem nisso e ajam como verdadeiros seres humanos e avaliem bem os projetos que pretendem desenvolver, porque vocês podem, sem querer, “estar dando tiros no próprio pé”. 

Senhores governantes, pensem nisso também e lembrem-se que vocês foram eleitos para cuidarem dos espaços físicos e das diferentes populações de organismos vivos que nele habitam, em especial a população humana. Ou seja, os senhores são responsáveis pelo meio ambiente e tudo que ele abriga, deste modo têm que trabalhar para garantir a melhoria constante da qualidade de vida. Nesse sentido estrito, é fundamental que os senhores tenham em mente que os “Data Centers”, se constituem num contrassenso e precisam ser tratados com coerência, parcimônia e, sobretudo, com justiça socioambiental.


Luiz Eduardo Corrêa Lima (70) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.