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22 mar 2026
O Rio “Burro” ou o Rio “Orientado por Deus?”

O Rio “Burro” ou o Rio “Orientado por Deus?”

Resumo: Nessa Comemoração do Dia da Água (22 de março), venho prestar minha gratidão ao Rio Paraíba do Sul e fazer o meu alerta sobre a situação. O artigo é um resumo da história do Rio Paraíba do Sul, que dá nome e vida à nossa região, destacando sua luta para chegar ao mar e a obrigação que temos de cuidar de suas águas.


Era uma vez um rio. Aliás, um rio como outro qualquer, mas muito especial como será visto à frente. Diz a crendice popular que:” todo rio caminha para o mar”, mas graças a Deus isso é só mais uma crendice e, no caso específico desse rio, ele ousou seguir para o mar de uma maneira diferente, ou Deus, por algum motivo, fez com que esse rio se desenvolvesse assim. Bem, eu vou contar essa história.

Se traçarmos uma linha reta, esse rio nasce a menos de 100 quilômetros do Oceano Atlântico, ou seja, bem próximo do mar. Mas, ele nasce na vertente Oeste e o mar está na vertente Leste da montanha e ele não pode ultrapassá-la, por conta da gravidade e assim o rio se desenvolve seguindo na vertente Oeste, porque, obviamente, a água não sobe morro, apenas desce. Assim, o rio que deveria caminhar para o mar, não consegue chegar nele imediatamente.

Todavia, ele segue margeando o mar pelo lado Oeste da montanha, seguindo no sentido Sudoeste, por vários quilômetros. De repente ele começa a se afastar progressivamente do mar e segue mais para Oeste, indo cada vez mais longe do mar. Até que, em dado momento, como dizia Carlos Drumond de Andrade: “no meio do caminho tinha uma pedra”. Nesse caso, uma pedreira intransponível, a Soleira de Arujá, e assim, o rio não consegue ultrapassá-la.

A partir de então, ele muda totalmente o seu percurso e faz uma volta de 180 graus, o “Cotovelo de Guararema” e o rio, que seguia em direção Sudoeste, agora passa a seguir na direção Nordeste e num traçado, relativamente, mais afastado do mar. Nesse caminho, o rio vai criando um imenso vale, que tem terras pertencentes a três estados da União, sempre margeando a vertente Oeste da montanha, que vai ficando gradativamente mais baixa.

As terras por onde ele passa, são enriquecidas com os nutrientes que ele carrega e abastecida com suas águas e ele continua sempre seguindo na direção Nordeste. Somente depois de percorrer mais de 1.130 quilômetros, desde sua origem, ele finalmente encontra o mar, ou melhor, o Oceano Atlântico, na Praia de Atafona, no município de São João da Barra/RJ.

Se não fosse esse rio “maluco” e “complicado”, muitos dos locais ao longo desse grande percurso e principalmente, alguns locais fora dele, não teriam água. Esse rio é muito “burro” mesmo, ou Deus é muito maior do que se imagina. O Rio nasce a menos de 100 quilômetros do Oceano Atlântico e, mesmo não querendo, vai se afastando cada vez mais dele. Assim, o rio tem que fazer uma volta imensa, percorrendo mais de 1000 quilômetros, para encontrar o mesmo Oceano Atlântico e no caminho, vai distribuindo água, nutrientes e gerando vida, direta ou indiretamente para 184 cidades dos 3 estados brasileiros mais importantes do Brasil.

Sim, esse rio tem nome, chama-se Rio Paraíba do Sul. O “do Sul’ é apenas para ficar diferente do seu xará, mas modesto no tamanho e talvez, menos importante, lá do estado da Paraíba, o Rio Paraíba do Norte. Graças a “loucura” ou “burrice” do Rio Paraíba do Sul de querer conhecer o mar, confirmando a crença, ele foi obrigado, por Deus. a andar muito para chegar no seu objetivo, que era o mar. Deste modo, suas benesses vão sendo distribuídas por mais de 1100 quilômetros. Graças a Deus, isso aconteceu aqui e somos imensamente gratos pela “burrice” do rio e pela infinita bondade divina. Tem um ditado que diz: “Deus escreve certo através de linhas tortas”. Sem dúvida nenhuma, o caso do Rio Paraíba do Sul é uma prova efetiva de que essa é uma grande verdade.

Cabe ressaltar que, sem o Rio Paraíba do Sul e suas “águas sagradas”, muitos de nós, certamente, não existiríamos, simplesmente porque não haveria água e sem água não é possível viver. Os meus conterrâneos de nascimento, lá na cidade do Rio de Janeiro, região já fora da área de abrangência da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, nascidos, principalmente, nos últimos 73 anos, em sua grande maioria, na qual eu me incluo, nem teriam nascido, porque só existe água “doce” naquela cidade, por causa da transposição das águas do Rio Paraíba do Sul. 

Se Heródoto chamou o Rio Nilo de “a dádiva do Egito”, porque a civilização egípcia só existe e se desenvolveu por conta dele. Aqui, modestamente, nós também podemos dizer que o Rio Paraíba do Sul é “a dádiva do Rio de Janeiro”, que só continuou crescendo, depois de 1953, por conta, quase que exclusiva, de suas águas mágicas. Mais recentemente, o Rio Paraíba do Sul também passou a ser “a dádiva de grande parte da cidade de São Paulo”, depois da transposição feita em 2015. 

A “burrice” do Rio Paraíba do Sul, tentando chegar ao mar, mostra, por outro lado, a bondade de Deus com os homens valeparaíbano, carioca e paulistano. Se o Rio Paraíba do Sul tivesse seguido o caminho Sudoeste, como fez “seu primo”, o Rio Tietê, atravessando o Estado de São Paulo e se afastando definitivamente do mar, o Vale do Paraíba não existiria, pelo menos por aqui. Contudo, o Rio Paraíba do Sul queria conhecer o oceano, mas não podia transpor a montanha e assim, resolveu contorna-la num “longo passeio” e criando aqui um grande vale, o nosso Vale do Rio Paraíba do Sul.

Se o Rio Paraíba do Sul tivesse seguido a direção de “seu primo”, o Vale do Paraíba do Sul, como conhecemos, não existiria, tampouco a cidade do Rio de Janeiro de hoje e ainda grande parte da cidade de São Paulo, pois não teriam água. Cabe lembrar que São Paulo e Rio de Janeiro são as duas maiores cidades desse país continental. Imaginem a cidade do Rio de Janeiro totalmente sem água há 73 anos e grande parte de São Paulo, nos últimos 11 anos.

Realmente, o Rio Paraíba do Sul é uma benção de Deus e talvez por isso Nossa Senhora tenha sido encontrada exatamente aqui, nas suas “águas sagradas e milagrosas”. Entretanto, nós, os seres humanos que vivemos por aqui no seu Vale, além dos cariocas e paulistanos, que dependemos diretamente ou indiretamente do Rio Paraíba do Sul para tudo que fazemos, aparentemente, AINDA NÃO ENTENDEMOS ESSA NECESSIDADE DIREITO.

O nosso rio “burro”, mas, certamente, abençoado espera que nós não sejamos “burros” e que também devolvamos para ele, a mesma bondade que ele sempre nos outorgou. Essa nossa gratidão obrigatoriamente tem que ser demonstrada. Temos que procurar manter o Rio Paraíba do Sul e suas águas nas melhores condições possíveis, para que as gerações futuras possam entender sua importância natural, social e o quanto nós devemos ao Rio Paraíba do Sul pela nossa existência. Além disso, as novas gerações, também deverão continuar trabalhando para garantir que suas águas continuem correndo e nos alimentando.

Engraçado, mas o nativo indígena que atribuiu o nome de Paraíba (“Rio Ruim”), por conta da dificuldade de navegar no Paraíba do Sul, parece que já estava, naquela época, tentando nos passar uma mensagem, porque o rio é bom e ruins somos nós, os seres humanos, que estamos dando as costas, que repudiamos e judiamos do nosso “bondoso” Rio Paraíba do Sul. Precisamos mudar esse quadro e demonstrar mais a nossa gratidão.

Talvez, até nós, devêssemos “trocar o nome do rio”, para nos atentarmos mais a sua missão conosco. Quem sabe, doravante poderíamos passar a ser chama-lo de “Rio Paracatu” (“Rio Bom”), pois ainda que suas águas sejam difíceis de navegar, elas têm sido maravilhosas e mágicas para desenvolver, manter e multiplicar a vida. Todavia, cabe lembrar que embora a bondade divina seja infinita, o Rio Paraíba do Sul é finito, como tudo na Terra e, por óbvio, milagres não acontecem eternamente.

Meus amigos, esse texto poderia ser um conto, porém não é. Essa é a mais pura verdade. Hoje, dos mais de 30 milhões que dependem diretamente do Rio Paraíba do Sul, apenas cerca de 20% sabem dessa história e se importam com o a condição da Bacia do Rio Paraíba do Sul. Os outros 80%, irresponsavelmente, apenas vivem, usando e abusando do direito de utilizar sua água e se esquecem do rio que a conduz e distribui e, principalmente de sua história. Deixemos de ser burros e lembremos que nossa continuidade depende da continuidade do Rio Paraíba do Sul.

Muito obrigado pela atenção.

Lorena, 21 de março de 2026.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (70) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.