Tag: Religiosidade

10 ago 2026

PONTO DE VISTA SOBRE A RELIGIÃO E A RELIGIOSIDADE

Resumo: Será mesmo necessário ter uma religião para ser um bom ser humano? Existe uma confusão, talvez, propositalmente estabelecida, entre os termos Religião e Religiosidade, que precisa ser esclarecida. No artigo discuto sobre essa questão que está cada vez mais acentuada no mundo e que tem produzido grande mal à humanidade.


“Antes de usar Deus indevidamente, talvez devêssemos apenas entender, como seres humanos, que apesar de nossas diferenças, somos todos da mesma espécie e deveríamos amar e respeitar mais os demais seres humanos e o planeta para continuarmos existindo e sobrevivendo em paz”. L.E.C. LIMA (27/07/2026)

INTRODUÇÃO

Se nos reportarmos às civilizações humanas mais primitivas, observaremos que a espécie humana possui, intrínseca e naturalmente em sua história, algo de transcendente e místico. Desde os primórdios, a relação homem-natureza, sempre envolveu muitas dúvidas, riscos e dificuldades. Além disso, conforme esta relação foi se estabelecendo, também foi gerando grande medo e respeito por possíveis divindades naturais e ainda pelas incertezas e as possibilidades depois da morte.

Os relatos, registros e documentos pré-históricos e históricos comprovam que essa situação foi se ampliado progressivamente e, talvez, a partir das dúvidas e medos, provenientes da ignorância humanas sobre os fenômenos naturais, é que tenham surgido as problemáticas de toda a complicada religiosidade da espécie humana e suas consequências. Assim, também começaram a aparecer as crenças, crendices e possíveis explicações místicas e o respeito aos fenômenos naturais e aos acontecimentos inexplicados e daí para frente vieram, mais recentemente, as diferentes religiões modernas.

Ainda que a religiosidade seja entendida por muitos apenas como a prática religiosa, ou seja, que ela consiste simplesmente do sequencial de preceitos e atitudes definidos por uma religião qualquer, que é seguida por mera determinação de certos indivíduos. Neste artigo, eu tomo a liberdade de pensar diferente. Aliás, na verdade, penso que a religiosidade seja muito mais que isso. A religiosidade deve ter sido absorvida e desenvolvida daquelas práticas antigas, que produziam a necessidade maior do ser humano de se manter gregário e sempre querer viver junto de outros humanos.

Essas práticas se aglutinaram e moldaram reações e sensações, que geraram grande diversidade de outras práticas, as quais também se diferenciaram mais. Assim, foram produzidas e desenvolvidas várias práticas múltiplas, que podem e devem ter criado inúmeros aspectos e respostas sensoriais e, desta maneira, também puderam produzir diferentes comportamentos, algumas vezes mais afetivos e outras vezes mais conflitantes.  

É provável que muitas das práticas resultantes, que se formaram dessa diversidade tenham originado os preceitos básicos que, em dado momento, determinaram as religiões primitivas. Obviamente, algumas dessas práticas foram mantidas nos costumes das diferentes comunidades humanas ao longo da história. Porém, a aculturação desses costumes também pode ter acontecido e se desenvolvido sem qualquer conotação obrigatoriamente ligada àquelas religiões primitivas.

Também imagino que as diferentes atitudes e características foram assumidas por aprendizados consequentes da vivência e da convivência entre os diferentes grupos de seres humanos, ao longo do tempo. Desta maneira, elas não trazem, em si mesmas, mais nenhum preceito obrigatório e estritamente ligado a qualquer religião antiga que possa ser diretamente aproveitado pelas religiões modernas. De qualquer maneira, quero reafirmar que no título deste artigo, eu indico que este é um “ponto de vista” e, por óbvio, como não sou “dono da verdade”, até posso estar errado.

A meu ver, as características e atitudes, são meras condições e ações repetidas por pura contingência e por costumes humanos que foram assumidas e mantidas naturalmente, sem qualquer vínculo ou implicação religiosa. Por óbvio, algumas dessas características foram consideradas, destacadas e mantidas pelas religiões modernas, talvez, até em consequência e como justificativa para alguns de seus dogmas específicos.

Porém, essas características não foram criadas e nem são exclusividade dessas religiões, porque são, antes de qualquer coisa, essas práticas comportamentais humanas fixadas e desenvolvidas naturalmente pela humanidade podem ter surgido por conta das aculturações ao longo da história, as quais podem ter várias causas primárias. Ou seja, embora essas características já existissem antes das religiões modernas aparecerem e se desenvolverem, elas podem ter inúmeras origens.

DISCUSSÃO

1 – Religião x Religiosidade

Alguns dirão que essa “ideia doida” é puro achismo meu e, eu assumo, é mesmo. Mas, às vezes o achismo de alguém também conduz às verdades para todos. Quantos palpites não viraram regras, depois de comentados e provados? Pois então, essas verdades só são estabelecidas, depois que se discute sobre as suas possibilidades e se comprova a sua real existência. A pretensão deste artigo é, apenas e tão somente, essa: expor e discutir um pouco sobre a questão proposta.

Deste modo, isto é, dentro da minha argumentação, devo dizer que é possível afirmar que a religiosidade é algo naturalmente desenvolvido na nossa espécie, mas a religião é uma consequência social, oriunda de vivência e do aprendizado com o medo do desconhecido e das adaptações decorrentes dessa vivência. Baseado nessa vivência, alguém julgou e escolheu, pessoalmente, a bel prazer, sobre a importância de alguns desses aspectos, para tentar demonstrar sua verve extranatural, dentro daquilo que interessava apenas a quem propunha o julgamento. A propósito, isso também é achismo, mas não fui eu quem propus e nem criei, no entanto, ele já está estabelecido por aí, nas várias religiões modernas.

Então, continuando meu pensamento, a religiosidade é oriunda da cultura acumulada pelas interrelações ao longo de várias gerações em diferentes locais. Por sua vez, a religião surge da necessidade de explicar aquilo que não era possível entender e assim acaba criando situações conflitantes à realidade, por conta da ignorância humana sobre o assunto. Deste modo, ela leva o ser humano a temer os perigos, além de empoderar e endeusar suas possíveis fontes geradoras, algumas vezes, até produzindo exageros, ocasional ou até mesmo, propositalmente.

Em outras palavras, entendo que a religiosidade é intrínseca da vida e das experiências passadas pela espécie humana e de sua vivência planetária natural. Em contrapartida, a religião foi adquirida e desenvolvida a partir da aculturação consequente das manifestações de subordinação produzidas pelos temores produzidos nas primitivas sociedades humanas pelos fenômenos naturais, haja vista que elas eram incapazes de entender e justificar a ocorrência desses fenômenos. Contudo, essa verdade pode não ter se dado obrigatoriamente como as religiões modernas afirmam.

A religiosidade é a tentativa de conexão com o não explicado e pretensamente sagrado, enquanto a religião é uma normatização que pretende explicar como se comunicar e se manter ligado a citada conexão. A religiosidade é livre de obrigações, já a religião é regrada e definida por preceitos, além de estabelecer regras e locais para manifestações específicas. Todavia, a conexão com o pretensamente sagrado não precisa, absolutamente, de regras e locais, haja vista que ela é sagrada e se desenvolve por percepção e sensibilidade individual e assim, não necessita e muito menos exige regras.

A religiosidade é naturalmente estabelecida ou não, dentro da mente humana e historicamente permite reconhecer o que é bom para os seres humanos, enquanto a religião (qualquer uma delas) é imposta por dogmas e ritos totalmente artificiais, definidos por determinados indivíduos humanos, que imaginam e propõem ideias próprias sobre aquilo que deveria ser pretensamente sagrado. Ora, isso, além de dogmático, também é achismo de alguém.

Alguns dirão, mas é isso mesmo, porque religião é um “ato de fé”, todavia eu questiono: fé em quem, na ideia, no imaginador da ideia, no seguidor da ideia ou fé generalizada? Quer dizer, só quem cria sabe o que criou e os outros, apenas, aceitam e passam a acreditar, ou não. Ora, isto é fé no homem e não tem nada de sobrenatural nessa condição.

A mente humana sempre se questionou bastante na expectativa de responder algumas questões, tais como. O que é vida? Por que se vive e se morre? O que acontece depois da morte? Quem criou o mundo? Existe mesmo um Deus ou um demiurgo, que teria criado tudo? Como acontecem alguns fenômenos naturais? De onde veio e para onde vai a humanidade? 

Historicamente, as respostas a essas questões naturais foram se estabelecendo, principalmente, de maneira artificial, subserviente e mística. Nesse rol de coisas, não, existe uma questão mais fácil ou mais difícil, porque todas sempre foram (algumas ainda são) bastante complicadas e impossíveis de serem respondidas.

A tentativa de responder a essas e outras questões, a partir das diferentes maneiras de pensar e de agir, fez com que linhas distintas de raciocínio se desenvolvessem e assim foram sendo criadas as distintas religiões e ainda estão surgindo outras, até hoje. Algumas delas, talvez, a grande a maioria, se basearam na ideia de que houve um criador (demiurgo) com superpoderes que trabalhou para produzir o mundo e todas as coisas nele existentes, inclusive o homem. Outras se basearam na ideia de que foram vários os criadores. Outras, ainda, se basearam em lendas passadas e histórias contadas que descrevem as mais diversas místicas da criação.

Por fim, outras surgiram da mescla de parte ou mesmo de todas essas possibilidades. Enfim, muitas delas são muitíssimo próximas nas suas maneiras de se autodefinir. Porém, nenhuma delas, pelo menos, até aqui, ainda não pode ser provada ou comprovada como verdadeira, embora todas se assumam como sendo a única verdade. Enfim, várias maneiras foram consideradas, desenvolvidas e tratadas, mas este não será o objeto de discussão deste ensaio.

Neste artigo, o que se pretende é tentar interpretar e compreender a religiosidade como sendo um compromisso natural do ser humano com os seus pares, independentemente das religiões, de suas maneiras de proceder e de seus diferentes efeitos sobre a vida humana. É bem possível que a religião possa auxiliar nesse compromisso, mas ela não é, de maneira nenhuma, preponderante para que ele se manifeste, porque ele já está naturalmente incutido na mente dos indivíduos da espécie humana.  A Teoria da Evolução por Seleção Natural parece que seja muito mais verdadeira que as demais propostas oriundas das religiões, mas, como eu disse acima, não quero e não vou discutir sobre essa questão, até porque, como biólogo e evolucionista, sou bastante suspeito nesta questão.

A religiosidade diz respeito à ligação com a transcendência humana na Terra, enquanto a religião é a tentativa de explicar essa ligação e descrever os mecanismos que permitem garantir benesses e vantagens para os seus respectivos seguidores, numa situação posterior à morte, para viver no “céu”. Uma religião, além de tentar ser uma maneira de explicação às perguntas, também pretende descrever um roteiro a ser seguido que dá direito a conquista de um “prêmio” garantido para todos aqueles que seguem os seus determinados princípios e procedimentos.

Que fique claro, toda e qualquer religião, de alguma maneira, fala nos criadores e nas suas transcendências como verdades absolutas, além de descrever mecanismos para garantir a “vida eterna”. Entretanto, é bom lembrar que todas essas afirmações são imaginações de alguém e não há como se comprovar a veracidade desses argumentos. Quer dizer, qualquer religião é realmente um “ato de fé” inexplicável.

Todavia, é necessário ressaltar, que nenhum dos criadores (deuses ou demiurgos) se manifestam pelas suas condições superiores diretamente e que todas as religiões foram definidas e escritas por seres humanos, como qualquer um de nós e que, sendo assim, nada possuem de superior ou de transcendental. Por outro lado, ainda cabe lembrar que o proselitismo, certamente, é a característica mais marcante de qualquer religião, que trabalha efetiva e prioritariamente para divulgar seus preceitos e aumentar o seu rebanho, mas é importante dizer que essa característica, por si só, não tem absolutamente nada a ver com religiosidade. Aliás, talvez tenha muito mais a ver com “marketing” promocional. Ou seja, é uma questão artificial que se preocupa puramente com o crescimento do número de adeptos.

Por sua vez, muitos dos seguidores, salvo raras exceções, geralmente não cumprem efetiva e especificamente tudo aquilo que as suas religiões lhes propõem. Desta maneira não é possível comprovar a veracidade, a nobreza e a eficácia de seus “poderosos ensinamentos”. As religiões até podem propor coisas boas, mas a prática dessas coisas é comprometida pelos maus exemplos de seus líderes e pelas consequentes atitudes desenvolvidas pelos seus demais seguidores. E o criador (Deus ou demiurgo) e as místicas religiosas como ficam nessa história?

Aqui já cabem alguns dos grandes senões. Se a religiosidade é natural, então, por que há necessidade de um criador. Se existe um criador, então por que tantas religiões? Se a religião e o criador são fundamentais, por que sempre existiram seres humanos sem religião (arreligiosos), descrentes e ateus? Por que, os arreligiosos não são necessariamente pessoas de má índole? Por outro lado, por que existem religiosos fervorosos que são pessoas de má índole?

Senhores leitores, a resposta a todas essas questões é única e muito simples: certamente porque, efetivamente, a religiosidade não tem nada a ver com e existência de um Deus e assim, ela tem muito menos a ver com qualquer religião. A religiosidade é uma maneira de bem viver. Digo mais, ela obviamente é a melhor maneira de bem viver, porque envolve fraternidade entre os seres humanos. A religiosidade pode ser um sinônimo moral e natural das atitudes humanitárias e da verdadeira humanidade. Amar e respeitar outros seres humanos, o planeta e toda a vida na Terra, antes de ser uma condição religiosa, obviamente, é uma necessidade moral natural e não há necessidade de um Deus para que se entenda essa verdade, basta apenas fraternidade, bom senso e coerência.

2 – Para que servem as Religiões?

Então, parece que muitos seres humanos se apegam mais as religiões, para que possam ter justificadas (perdoadas) todas as suas fugas das obrigações morais, que lhes são naturalmente impostas pela sua religiosidade, que é intrínseca e inata, mas que eles, costumeiramente, insistem em transgredir. Esses seres humanos se mascaram e falsamente, na dúvida da existência de um Deus ou de um demiurgo, se limitam a seguir (acompanhar) determinadas religiões, para pedir desculpas por suas condutas imorais e anti-humanistas. Através da religião, eles imaginam que Deus, se existir mesmo, possa perdoá-los, haja vista que Deus sabe que “a carne é fraca”, como a religião lhe ensina desde o início.

Certamente, seria bem melhor se, simplesmente, os seres humanos não cometessem os erros costumeiros contra outros seres humanos. Contudo, se o erro, por acaso, já tivesse sido cometido, então deveria ser assumido com todas as suas consequências e não encaminhado à vontade e ao perdão de Deus. Porém, quantos de nós, seres humanos, estamos realmente dispostos a assumir os nossos erros? Deste modo, já que a existem as religiões, com “representatividade legal divina”, é melhor continuar pedindo desculpas a Deus, através delas, e seguir a vida sem se importar muito com os nossos semelhantes, porque Deus perdoa sempre.

Desta maneira, o ser humano verdadeiro, sendo e agindo realmente como ser humano, não precisaria da existência de religiões. Entretanto, o ser humano falso de caráter se sente incomodado com sua religiosidade natural, porque, por mais que ele consiga fingir e mentir em público (na frente dos outros humanos), ele não consegue manter essa postura no seu íntimo. Isto é, ela não consegue fingir e nem mentir para si mesmo, embora muitos tentem conseguir essa façanha, mas um dia a casa acaba caindo e ele se denúncia.

Os seres humanos normais têm uma característica complicada que é denominada consciência. Essa é característica humana que não permite que a mentira seja eterna. Contudo, também existem os seres humanos anormais e os psicopatas que mentem sempre e descaradamente. Todavia, esses sujeitos fora da regra natural costumam ser minoria nas populações humanas.

A consciência é o pior tormento para os homens de má índole e de pouco caráter e assim, alguém, talvez algum deles, inventou um demiurgo bondoso que perdoa tudo, mas que requer muita fidelidade e obediência, principalmente para perdoar às falhas de caráter dos seres humanos e assim se criam, progressivamente, novas religiões e surgem mesmo novos representantes legais dos demiurgos. Esses homens devem ser incapazes de se olhar no espelho e acredito que também não conseguem dormir direito. Porém, infelizmente, eles existem e estão por aí.

Há alguns homens que não concordam com isso e têm dúvida, quanto a existência de um Deus ou um demiurgo, esses são os ateus e os agnósticos. Essa condição não garante de maneira nenhuma que eles sejam pessoas ruins. Quer dizer, com ou sem religião, sempre há necessidade de que existam boas pessoas, bons seres humanos, preocupados com as mazelas da humanidade. Esses sujeitos, embora sem religião professada, não são melhores ou piores que ninguém, mas são seres humanos que têm absoluta certeza de que, para ser bom, honesto, altruísta, amigo e companheiro, não há necessidade de que exista um Deus ou um demiurgo e muito menos, que seja necessário obedecer a qualquer preceito estabelecido por qualquer religião.

 Esse é o tipo de ser humano de boa índole, que não precisa da religião para viver bem, mas ele tem grande percepção de sua religiosidade natural. Sua prudência está na capacidade de servir, tolerar e sobretudo, respeitar e conviver bem com outros humanos, tendo atitudes altruístas e benéficas às comunidades e a sociedade como um todo. Por outro lado, tristemente, muitos homens, de religião assumida, são suscetíveis e possuem fortes tendências à vida perniciosa e degradadora e assim precisam de fugas para esconder as suas dificuldades morais, suas deficiências mentais e, muitas vezes, até mesmo, as suas más índoles naturais.

Senhores leitores, acho que já está claro o que eu pretendia dizer. Então, foi nesse contexto que surgiram, cresceram, se diversificaram e se multiplicaram as religiões, que continuam se multiplicando, até hoje, pelo mundo afora. As religiões, infelizmente, têm agido, apenas, como mecanismos de fuga à triste realidade que aflige muitos dos seres humanos, que estão presos à necessidade de demiurgos para justificar suas fraquezas de caráter.

Posso estar muito errado, mas realmente penso que, em certo sentido, as religiões modernas não têm absolutamente nada a ver com Deus ou com um demiurgo qualquer, embora falem, quase que exclusivamente, apenas e tão somente, sobre essas entidades, como modelo e exemplo a ser seguido por todos. Todavia, muitos dos que divulgam esses modelos de virtudes e decências, são os primeiros a não os seguir, mas essa é outra história que também não cabe nesse momento.

3 – Outras Verdades e Questões Oportunas que precisam ser ditas

Toda e qualquer religião é artificial porque foi criada por um ou mais homens, qualquer um deles idênticos aos demais seres humanos. Esses homens também sofrem todas as adversidades da vida e precisam esconder algumas coisas, além de terem que justificar outras. A maldade humana, em certo sentido, é natural, mas a possibilidade, maior ou menor, de assumir essa maldade é cultural. Ou seja, parte dessa maldade também é aprendida ao longo da vida humana.

As populações humanas, aqui e ali, têm tentado mascarar a verdade natural com as religiões, mas não têm conseguido atingir pleno êxito. Isso acontece porque ainda há grande quantidade de seres humanos que, efetivamente, não são capazes de assumir seus erros com a sociedade e suas transgressões com a verdadeira natureza humana. E por óbvio, também existem humanos que efetivamente acreditam e vivem seus preceitos religiosos.

Não há dúvida de que as religiões ajudam e auxiliam, de alguma forma, a quem faz uso delas, mormente seus líderes é claro. Entretanto, elas também costumam fazer muito bem aos seus fiéis seguidores, em particular, aqueles de boa índole. Porém, o tipo de necessidade premente no momento ou na situação é que acabam por definir as “vantagens” na escolha das religiões e assim elas se diversificam e se intensificam pelo planeta. As religiões, por si sós, não boas e nem ruins, mas, em certo sentido, todas acabam sendo totalmente desnecessárias. Pois então, é exatamente isso que tentei demonstrar no desenvolvimento de minha argumentação.

Mas, onde fica Deus nessa minha modesta história? Já estão perguntando aqueles seres humanos mais “crentes” e mais “religiosos”?

Deus, se existir e acredito que possa existir mesmo, apenas acompanha a situação sem manifestar sua opinião, haja vista que ele é Deus e não tem que interferir em questões menores sobre religiões boas ou não. Se, por outro lado, Deus não existir, também não há necessidade de perder tempo em discussões menores e com teologias infundadas. Contudo, como disse acima, eu até acredito que deva existir algo acima de nós, mas não é um ídolo para ser venerado, solicitado ou temido por conta de determinada regra imposta por uma religião.

Penso que Deus deva ser o exemplo de algo bom, uma entidade superior e sobretudo justa, que apenas deseja que trabalhemos para sermos felizes e que vivamos como verdadeiros seres humanos, mas nós ainda estamos muito longe de assumir essa condição. Longe porque falta muito entendimento e longe porque a maioria de nós, de fato, ainda não se importa muito com essa questão. A maioria dos seres humanos ainda entende que a vida humana é muito curta e que temos outras coisas, talvez, muito mais importantes, para nos preocuparmos.   

Ou seja, nós ainda vamos sofrer muito e talvez não haja tempo para que cheguemos a qualquer lugar, além da “jihad” (a chamada e incoerente “guerra santa”) que divide homens e que alguém nos coloca, em nome de Deus, como sendo uma opção para resolver as mazelas e as pendências da humanidade. O pior é que tem alguns “seres humanos” que, efetivamente, querem que isso aconteça.  Mas, esse lado da história parece que não interessa a maioria dos seres humanos, pois quase ninguém discute a questão. Como eu disse acima, para muitos, sempre há coisas mais importantes.

Alguns, simplesmente confessam, mas não professam mais suas religiões e sufocam suas religiosidades. Aliás, alguns não confessam absolutamente nada e vivem num ateísmo distante e pouco convincente, porque estão quase sempre invocando Deus nas suas diversas ações.  Esse tipo de ser humano segue sua vida como se nada de ruim estivesse acontecendo e não percebe que seu desleixo e sua passividade em relação aos seus semelhantes pode ser parte do estopim para deflagar a tal “guerra santa”. Talvez, seja exatamente por conta disso, que temos nos afastado cada vez mais da religiosidade natural que é necessária à nossa própria condição de seres humanos e assim temos sufocado a nossa necessidade vital de convivência benéfica e salutar com os demais seres humanos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E CONCLUSÕES

Enfim, nossa confusão entre os dois termos (religião e religiosidade), por conta de outros interesses, por ignorância ou por fuga simples da realidade, acaba nos condicionando a cometer erros grosseiros e produzir ações violentas e desnecessárias contra outros seres humanos.  Penso que esse tipo de coisa precisa ter fim. Fraternidade deve ser a palavra prioritária entre os seres humanos.

A humanidade não pode continuar sofrendo com essas atitudes de desprezo e aviltamento, em relação à própria humanidade como tem acontecido cotidianamente. O pior é que, muitas vezes, isso tem acontecido em nome de Deus, que, como eu disse acima, se Ele existir, não tem absolutamente nada a ver com isso.

Ainda que todo ser humano tenha o livre arbítrio de escolher e assumir ou não uma religião qualquer, nenhum ser humano tem o direito de impor qualquer preceito dogmático a outro ser humano. Contudo, as religiões agem assim e seus líderes entendem, ou querem entender, que isso seja correto. Porém, fica a pergunta: por que toda religião é proselitista, se a religiosidade não necessita estar vinculada a padrões? Acredito que a única maneira de entender essa questão é aceitando que, como já foi dito, a religiosidade não precisa da religião, seja ela qual for.  

É preciso entender, como também já foi dito acima, que amar ao próximo, antes de ser um mandamento de qualquer religião, é uma obrigação moral do ser humano com o seu semelhante, assim como, respeitar o local onde ele se encontra e o planeta em que ele habita. Não há necessidade de que se coloque um Deus nessas questões, até porque elas são questões estritamente humanas reais e nada têm de transcendental. Assim, todas as iniciativas para atender a essas questões, não guardam nenhuma relação com as religiões e devem ser empreendidas por qualquer o ser humano, por conta de sua respectiva religiosidade natural.

A humanidade é quem deve resolver as suas questões primárias: amar e respeitar os seres humanos e a Terra. Não precisamos de Deus para entender esse fato e necessitamos, menos ainda, de regras que nos ensinem a nos aproximar de Deus. Nossa religiosidade, maior ou menor, é apenas nossa e não precisa ser imposta por qualquer tipo de regra ou rito. Para acreditar e aceitar a existência de Deus, ninguém precisa professar uma religião qualquer, deve apenas deixar aflorar mais a sua religiosidade natural e fazer o bem, no sentido mais amplo da palavra.

Meus amigos, leitores, vocês são seres humanos como eu e como qualquer outro dos mais de 8,2 bilhões existentes no planeta atualmente e suas conversas com Deus ou com o pretensamente sagrado são só suas e de mais ninguém. Cada um de vocês pode e, talvez, até deva comentar essas conversas e suas crenças com alguém, se quiserem, porém, vocês não podem exigir que esse alguém pense e aja exatamente como vocês.  Por fim, quero encerrar dizendo que a humanidade tem que entender isso urgentemente para terminar, de uma vez por todas, com essas questões infundadas de certas religiões que levam seus adeptos ao fanatismo e que acabam propondo e gerando guerras absurdas, em nome de Deus.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (70) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista.

07 abr 2021
Religiosidade, Doutrinação, Proselitismo, Intolerância e Conflitos Religiosos

REFLEXÕES SOBRE CRENÇA, RELIGIOSIDADE, PROSELITISMO E DOUTRINAÇÃO

Resumo: Parece que está cada vez mais próximo um conflito entre certos grupos religiosos, mesmo aqui entre nós, por conta de questões ideológicas oriundas de aspectos e fontes religiosas. Essa situação é esdrúxula, perigosa, preocupante, absurda e precisamos estar atentos para que esse problema continue longe de nós, aqui no Brasil. 


A ideia do religioso e do sagrado sempre existiu naturalmente na grande maioria das várias civilizações humanas e na atualidade isso não é diferente. Assim, a maioria das pessoas possui algum tipo de crença. Essas crenças são as mais diversificadas possíveis e muitas delas crenças podem ser definidas dentro do conceito mais estrito de religiões. Entretanto, as maneiras como cada um desses grupos de pessoas veem (entendem ou assumem) uma ou mais situações determinadas de crenças é o que produz realmente as diferentes religiões.

Desta maneira, existem várias religiões definidas e várias seitas religiosas ainda não definidas ou identificadas sociologicamente como religiões de fato, mas em todas essas situações existem crenças, que devem ser respeitadas por todos. Assim, também existem diferentes formas do ser humano individual ou coletivamente se ligar ou se relacionar, ou não, com o sagrado e toda humanidade deve respeitar esse fato, concordando ou não com a ideia que ele apresenta.

Essa é uma realidade da humanidade que precisa ser entendida e legalmente garantida em todos os lugares, mas, infelizmente, não é isso que temos visto. Deste modo, a intolerância religiosa tem se intensificado progressivamente na humanidade e está ficando cada vez mais difícil que determinados grupos religiosos aceitem o direito à religiosidade de outros grupos. A partir disso, surge a intolerância e os conflitos por questões religiosas.

Na maioria dos países da Terra, os grupos sociais humanos sempre foram livres para escolherem entre o que consideram sagrado e o que consideram não sagrado à sua maneira e consequentemente assim definir a sua crença religiosa específica. Porém, dentro daquilo que se tem como sagrado, algumas religiões se assumiram no “direito” de entender que elas são as mais responsáveis diretamente por muitas dessas situações.

Isto é, tem religiões achando que só elas têm direito e razão. Ou seja, parecendo querer ser mais religião do que outras. Esse problema, se é que se pode chamar essa situação caótica, apenas de problema, é que muitas religiões em seus respectivos dogmatismos criaram líderes, que são seres humanos como quaisquer outros, mas que acreditam que são “seres superiores”, porque lideram grupos que acreditam ter os únicos princípios religiosos corretos.

Esses indivíduos que se assume pretensamente como “seres superiores” costumam ser carismáticos e em função disso, passam a ser muito mais proselitistas, preocupados em arrebanhar mais seguidores de sua causa e da sua vontade, do que propriamente religiosos e seguidores de sua pretensa fé naquilo que primitivamente idealiza sua religião. Assim, muitos deles terminam por esquecer os propósitos religiosos primitivos relacionados ao sagrado e enveredam por questões ideológicas pessoais ou de grupos de interesse próximos. O pior é que, essa condição cria muitos fanáticos que seguem esses líderes sem nenhuma contestação.

Nesse padrão, a “religiosidade do líder” termina por ver a si mesma como solução, quando, na verdade, ele deveria ser o caminho que poderia levar a solução verdadeiramente religiosa, que, para a grande maioria delas deveria ser Deus, Alá, Oxalá ou algum outro nome que identifique, o verdadeiro ser superior, ou uma entidade equivalente. Essa situação conflitante do sagrado com o pessoal, acaba criando conflitos sociais e ideológicos, os quais geram conflitos religiosos, a partir de líderes proselitistas mais radicais e se irradia por seus infelizes seguidores.

Historicamente muitos desses conflitos pessoais se transformaram em guerras sangrentas que ocorreram em vários momentos da humanidade. Mas, nós estamos no século XXI e não deveria mais ser possível que alguns de nós ainda quisessem guerrear por causa exclusiva de divergências religiosas. Entretanto, ainda não estamos livres dessas mazelas e muitas guerras ainda fluem pelo mundo afora, por conta exclusiva das religiões e principalmente de seus líderes.

Esses líderes proselitistas passam a se sentir como emissários de Deus ou de qualquer Ente Superior e se acham capazes de resolver as questões, simplesmente exterminando seus desafetos e suas causas, enquanto os seguidores acompanham piamente os líderes. Na verdade, Deus, o Ente Superior, seja lá que nome tenha, não entra nessa briga, porque as “Guerras Santas” ou “Jihads” não têm nenhum sentido religioso, são meras visões ideológicas de alguns indivíduos, que criam fanatismos em determinados grupos sociais.

Essa situação se acentua mais ainda, quando os proselitistas passam efetivamente também a ser tipos de doutrinadores. Isto é, aquele que disciplina e orienta o preceito “religioso”. Normalmente isso acontece, quando o líder já aumentou bastante o rebanho e agora assume a postura autoritária de obrigar o rebanho a fazer o que ele quer e da maneira que ele quer, mesmo contrariando preceitos da sua pretensa religião. Esse é o grande perigo dos líderes religiosos tendenciosos e de má índole. Esses sujeitos acham que seus respectivos pensamentos são os únicos pensamentos certos e assim não aceitam outras maneiras de pensar.

De qualquer maneira, um indivíduo acreditar que seu pensamento esteja correto é uma coisa que até pode ser salutar, boa e obviamente natural, mas querer que o outro obrigatoriamente pense exatamente como ele é que consiste numa arbitrariedade e num autoritarismo. As “guerras santas” derivam principalmente desse fato, até porque muitas vezes elas acontecem dentro de religiões que possuem a mesma base e o mesmo fundamento religioso. Se os líderes entram em conflito e os seguidores também acabam entrando.

Pois então, talvez por isso, apesar do proselitismo, as religiões têm perdido valor e adeptos valorosos exatamente nesse ponto, porque o sagrado e verdadeiramente religioso acaba desaparecendo no meio da confusão ideológica e dos interesses escusos de seus líderes. A questão toma novos rumos e acaba se perdendo nas mais diversas teias ideológicas, gerando alguns conflitos insanos e intermináveis, onde a culpa é sempre do outro que pensa diferente e que não aceita aquilo que se quer impor a ele.

A noção teológica, sagrada ou religiosa fica de lado, sendo relegada a segundo ou terceiro plano e a essência da religião acaba se desintegrando totalmente. Muitas vezes, a própria religiosidade do grupo se perde nesse contexto e o culto vira uma espécie de “teatro do absurdo”, sem nenhuma conexão com o sagrado, passando a ser uma simples dramatização da vida a serviço de alguém, sem nenhuma conotação religiosa.

Mas aí vem a pergunta; existe solução para essa questão? Obviamente, eu acredito que sim. Tem que existir. Entretanto a solução quase sempre dependerá do aparecimento de novas lideranças que possuam novas ideias sobre as questões e que se proponham a discuti-las. Mas, ainda assim, dificilmente um líder concordará integralmente com o outro. Mas, essa concordância parcial, se existir, até poderá criar outra seita, com uma nova maneira de pensar, o que, poderá resolver os problemas, mas também poderá trazer novos conflitos para o futuro.

Em suma, é bastante difícil estabelecer condições que propiciem respeito mútuo entre os grupos religiosos, não por culpa das religiões, nem mesmo pelos cultos religiosos em si, mas pelas pessoas que delas fazem parte, principalmente os líderes. Desta maneira, é preciso que as diferentes religiões, coloquem um pouco mais de humildade em seus preceitos, de humanidade em suas práticas e um pouco mais de sanidade na indicação e escolha de seus líderes, para evitar situações de confronto, tanto efetivamente religioso, quanto pessoalmente ideológico. Se o sagrado visa o bem, por que criar conflitos por religiões, já que, a priori, todas elas são boas e preocupadas com o bem?

A vida humana não pode ser menosprezada e muito menos posta em risco, por conta da irresponsabilidade de alguns líderes e seguidores religiosos preconceituosos, inescrupulosos e fanáticos que se sobrepõem ao credo que dizem praticar e defender. Qualquer preceito religioso deve, antes de qualquer coisa, partir da premissa do respeito ao seu semelhante, pois caso contrário as pessoas de religiões diferentes serão sempre consideradas como adversárias e algumas vezes até mesmo como inimigas e, por isso mesmo, deverão ser excluídas de alguma maneira do ambiente próximo.

O proselitismo religioso, ainda que necessário ao crescimento das religiões, tem que ser contido e a doutrinação religiosa não pode ir além da escolha pessoal de cada indivíduo. Inclusive, também tem que ser claramente preservado o direito daqueles que não querem professar ou aderir a nenhum credo religioso. Religião é objeto de escolha e aceitação e não de imposição de quem quer que seja. O ser humano é livre para optar entre ser religioso ou não da forma como melhor lhe convier e essa é uma questão de foro íntimo, que não pode ser questionada e nem combatida por nenhum outro ser humano ou grupo social.

Pois então, meus amigos, esse assunto para muitos dos senhores deve ter soado como algo longe da maioria de nós aqui no Brasil. Entretanto, é preciso que fiquemos mais ligados aos nossos atos comuns, muitos dos quais são hábitos originários de nossa religiosidade, para evitarmos situações de intolerância. Essas situações já estão mais próxima de nós do que somos capazes de perceber e começam a existir problemas e preconceitos mais contundentes em determinados locais, que vez por outra alardeiam a mídia nacional.

A sociedade necessita estar atenta ao fato de que quaisquer das religiões existentes, a priori, devem atuar e se envolver na busca maior do bem comum e não na priorização efetiva de um determinado grupo religioso, principalmente do próprio grupo. Pensem nisso, porque estamos vendo cada vez mais, que, a exemplo de outros tipos de preconceitos, o preconceito religioso também está se exacerbando e já está deixando máculas perigosas ao convívio social e esses fatos não podem continuar prosperando.

Temos o mal hábito de comentar sobre o fanatismo religioso dos outros, mas precisamos olhar um pouco mais para dentro de nós mesmos, quando nos referimos às condutas humanas relacionadas com as religiões. A História nos mostra que conflitos religiosos sempre existiram, mas quero crer, que hoje e doravante, com o grau de informação e conhecimento que a humanidade alcançou, eles não podem mais ser justificados de maneira nenhuma. Hoje sabemos que qualquer forma forçada de doutrinação, além de não garantir nada religiosamente, também não oferece vantagem e muito menos segurança a quem quer que seja.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (65)