Tag: Vivência Humana

01 dez 2025
O Atalho e o Caminho Correto

O Atalho e o Caminho Correto

Resumo: O texto traz uma reflexão filosófica sobre a necessidade de crescer a qualquer preço que é imposta a humanidade pela mídia e procura demonstrar que essa certamente não é a melhor maneira de crescer, porque essa situação nos coloca contra os interesses da humanidade e nos expõe a interesses puramente comerciais.


Vivemos numa época veloz e todo mundo sempre quer chegar mais rápido a algum lugar ou a lugar nenhum, para, também, rapidamente, decidir aonde vai realmente chegar, se é que quer mesmo chegar em lugar algum. Complicado, não é? Mas, é isso mesmo que está escrito.  Ou seja, há muita dúvida sobre o porquê, o onde e o como chegar a qualquer lugar, porque geralmente não há um plano de viagem estabelecido, apenas se quer chegar de maneira mais rápida.

 Pois então, meus amigos, o nome desse caminho mais rápido, todos sabem é atalho. Assim, muita gente vive, simplesmente, buscando atalhos. Contudo, o que muitos não sabem e alguns não querem saber é que o atalho nem sempre é o melhor caminho. Além disso, na maioria das vezes, o atalho acaba mesmo sendo o caminho errado. Atalho é uma necessidade de vida, mas não pode ser uma prática cotidiana dessa mesma vida. Atalhos ocasionais podem ser importantes, mas atalhos diuturnos costumam ser tentativas de fugir da verdade ou de tirar vantagens sempre, ou seja, são falcatruas, que grande parte das vezes dão errado.

Às vezes o caminho correto, além de longínquo, também é muito complicado e difícil, deste modo, um jeitinho aqui, uma mentirinha ali e uma embustice acolá, acabam resolvendo certas situações momentâneas. No entanto, essas situações tendem a se prolongar e ficar mais compridas ou, como se diz na linguagem popular, “deixam rabo”. Normalmente o rabo cresce, cresce e quando quebra, geralmente quebra do lado mais fraco. O que a maioria das pessoas não sabe exatamente é o seguinte: qual o lado mais fraco. Senhores, o lado mais fraco é sempre aquele que procura encontrar a facilidade a qualquer custo, o atalho, e eu vou tentar esclarecer porque isso acontece.

Quem segue o procedimento normal tem a imagem verdadeira da questão, porque conhece o todo do processo. Se não conhece, pode voltar ao longo da própria história ou situação e assim, pode identificar e aprender com as nuances do próprio processo. Já quem toma o atalho, pula momentos e etapas e assim sua história nunca está completa e sempre vão faltar detalhes a serem esclarecidos no contexto de toda a história. Pois é, a corda sempre estoura do lado mais fraco, e o lado mais fraco é sempre aquele que menos conhece toda corda (história).

As pessoas que procuram atalhos para ganhar vantagens (“Lei de Gérson”), sobretudo, tempo, acabam sendo pessoas atabalhoadas, desorientadas e pagam muito carpo pelo tempo que economizam. Essas pessoas confundem as coisas porque são apressadas, inexperientes e incompletamente formadas. Dizem que a pressa é inimiga da perfeição, mas isso, por óbvio, não é necessariamente uma verdade e se for, não é obrigatória. Existem coisas em que a pressa até pode ajudar, desde que quem se utiliza da pressa conheça exatamente aquilo que está fazendo. O que não se pode é querer que tudo se desenvolva sempre apressadamente.

Aprendemos desde cedo que a menor distância entre dois pontos é uma reta e por conta disso tentamos tornar tudo que nos envolve em linhas retas, contudo o mundo e sobretudo, as relações humanas são tortuosas e muitas vezes precisamos vivê-las para sermos capaz de entende-las. É preciso compreender que o menor caminho, o das retas, nem sempre é o melhor caminho e que, muitas vezes, pode ser o pior. De vez enquanto é bom passar dificuldades para que se possa aprender mais sobre a vida e sobre os nossos próprios limites. Infelizmente, nossa vida é uma “caixa preta” que será analisada por outros depois da nossa morte. É exatamente isso, meu amigo, nós vamos morrer e consequentemente ficaremos sem saber quase nada a nosso respeito.

Pois então, isso só não poderá acontecer, se nos dispusermos a aprender mais sobre nos mesmos e isso necessariamente passa por viver e superar as nossas dificuldades. Os atalhos nos levam a fugir das dificuldades e isso nos afasta de nossa verdadeira condição humana. Eu só me conheço mais, quando aprendo mais alguma coisa sobre mim. Isso implica em encarar problemas, combater infortúnios e perder ou vencer lutas. Os atalhos nos distanciam da realidade que teríamos que conhecer, principalmente, sobre nós mesmos.

Conscientemente nós nunca saberemos exatamente como será nossa vida, mas temos que estar dispostos e preparados para tentar nos conhecermos melhor. Ousar é algo perigoso, mas é interessante e nos permite compreender melhor as coisas. Atalhos geralmente impedem que ousemos e que desafiemos os nossos pretensos limites. Atalhos normalmente facilitam as coisas, mas certamente dificultam aprendizado sobre a vida. Podem ter certeza de que estamos aqui para aprender e evoluir, ou será que nascemos apenas para morrer? Ora, se nascemos apenas para morrer, então para que viver? 

O problema é que as pessoas que costumeiramente usam os atalhos, normalmente não tem conhecimento suficiente de quase nada, muito menos de si próprias, porque acumularam atalhos e perderam a noção do todo, tanto exterior, quanto interior. Assim, sempre vai ficar uma ou mais pendências (uns rabos) e isso, muitas vezes, é o suficiente para inviabilizar a situação ou viabilizar de maneira equivocada ou pouco convincente e assim gerar dúvidas no processo, além de comprometer o resultado. Situações dúbias e duvidosas, bem ou mal-intencionadas, frequentemente derivam de tomada de atalhos indevidos.

Atalhos podem ser benéficos? Sim, eles podem. Entretanto, não costumam ser e a grande maioria das pessoas, certamente, já sabe disso. Então, porque, mesmo sabendo disso, algumas pessoas insistem em procurar atalhos, investindo cada vez mais na busca da rapidez e cada vez menos na eficiência? Essa é a pergunta, cuja resposta certa, vale US$ 1.000.000 (um milhão de dólares). Vou me atrever e me esforçar para tentar respondê-la, ainda que não consiga ganhar absolutamente nada com isso.

A propaganda, a mídia, o “marketing” e o mundo moderno fictício vivem enganando as pessoas, dizendo para elas que elas precisam ser aquilo que não são e ter aquilo que não necessitam. Eles mostram a imagem de que tudo é fácil e que todo mundo pode fazer o que quiser e assim ficar muito rico, porque tudo é muito fácil e esse é o “grande objetivo” do ser humano. Entretanto, obviamente, isso não é verdade. Aliás, a verdade costuma ser totalmente antagônica a isso, até porque o objetivo real é ser feliz!

Todavia, quem pode afirmar que seguramente é preciso ser rico para ser feliz? E mais, quem disse que não existem pobres felizes ou ricos infelizes?  Meus amigos, as pessoas que normalmente dão certo e são felizes, geralmente trabalham muito, pensam muito e seguem caminhos muito longos, difíceis e geralmente sem atalhos. E cabe ressaltar, elas não são e nem querem ser ricas, querem apenas viver bem. É bom esclarecer que a palavra bem não envolve a necessidade de nenhum cifrão!

Faz muito tempo que, saímos do “tempo da carochinha”, mas, graças a propaganda, vivemos num faz de contas muito maior do que naquele tempo. Acreditamos piamente na mídia, na Televisão, no Google, na Internet e, mais recentemente, na Inteligência Artificial. Somos seguidores e veneradores do “deus propaganda” e rezamos na sua cartilha, descaradamente, sem nenhuma vergonha. Esse “deus propaganda”, serve ao seu primo, “o deus comércio”, que é irmão do ‘deus dinheiro” e ambos são filhos da mesma “deusa economia”. Essa família de falsos deuses são o engodo que tem destruído progressivamente a humanidade. É incrível, mas parece que a humanidade não quer mais ser feliz!

Pois então, essa corja de falsos deuses, colocam um monte de bobagem na cabeça das pessoas a desta maneira, acabam as convencendo de que ao vida é curta e o tempo urge e que eu preciso estar encima e com dinheiro suficiente para realizar todos os meus prazeres. Por isso, pernas para que te quero? Assim, vamos passar sebo nas canelas e sigamos em frente o mais rápido possível, mesmo que tenha que mentir e passar por cima de outras pessoas.

Algumas dessas pessoas que, muitas vezes, passamos por cima, são parentes próximos e amigos que deveriam ser amados, prezados e respeitados. Pais, enganam filhos, os filhos enganam os seus irmãos e todo mundo engana todo mundo para chegar mais rápido à “glória” (ficar rico). Mas, que glória é esta, que não tem sensibilidade, nem escrúpulos e muito menos vergonha. O pior de tudo é que ninguém mais quer ser feliz.

Durante mais de vinte anos nas minhas aulas inaugurais que ministrei para alunos que ainda não me conheciam e u sempre fiz a seguinte pergunta: o que é que todo mundo quer? E, pasmem Senhores, quase sempre, 100% dos alunos respondiam, dinheiro. Eu insistia e alguém respondia, ter uma casa, ter um carro do tipo “x” e assim, apenas coisas materiais. Ninguém queria ter uma família ou ver o fim das guerras, ou sei lá, qualquer besteira. O pessoal aprendeu, por conta da mídia, que fundamental é ter dinheiro e ninguém mais quer, simplesmente, ser feliz ou ter felicidade.

Ser rico é o que importa, ser feliz, não é prioridade de ninguém. Trocamos a felicidade, a família e os amigos pelo interesse do “deus dinheiro”, em função dos fortes e promissores apelos produzidos pelos seguidores e marqueteiros do “deus propaganda”.  Assim, enfiamos os pés pelas mãos. Os atalhos nos levam a ser cada vez mais gananciosos, mais egocêntricos e nos tiram a sensibilidade e o respeito com as demais pessoas. Passamos a ser indivíduos insensíveis, que nos preocupamos, apenas e tão somente, com o nosso sucesso econômico-financeiro e que deverá acontecer a qualquer preço.

Nessas alturas, já estamos literalmente viciados em procurar atalhos para ganhar vantagens sobre os “otários” que aparecem no nosso caminho. Essa prática cotidiana de ter que levar vantagem em tudo, parece que está ficando mais eficiente e nós nos iludimos, cada vez mais, com essa aparência. Alguns de nós até conseguem algumas coisas, mas a maioria, além de não conseguir nada, ainda perde muito mais, porque fica doente do corpo e do espírito. Aí surgem as drogas, os roubos e outras atitudes incoerentes e os rabos começam a aparecer. Com isso, o hedonismo passa a ser uma necessidade e uma obrigação, enquanto os “gurus” e os “pseudoanalistas de plantão” passam a trazer as novas verdades estabelecidas e a “vida” vai seguindo com o seu sonho do sucesso, que nunca chega.

É nesse momento que um ou mais daqueles rabos, deixados ao longo da história, passa a ser conhecido e aí o sujeito, dos atalhos que iam dar certo, cai na lama social, na fofoca e a realmente fazer parte da mídia, como sempre quis, mas de maneira diferente daquela que ele havia pensado em estar, pois ele passa a ser apenas mais um na estatística dos degradados. Nesse instante ele começa a pensar em morrer, alguns tentam mesmo o suicídio e muitos até conseguem. Porém alguns, são tão pouco eficientes que não conseguem nem completar o suicídio e continuam “vivos” ou quase isso, esperando a hora que Deus vai lembrar deles e vai levá-los para o outro mundo.

Esse é o problema maior dos atalhos, geralmente eles também são atalhos para a vida. As coisas rápidas em vida, também costumam levar a morte rápida. Pensem nisso e vivam um dia de cada vez. Estudem e aprendam sempre e sem pressa. As coisas têm que acontecer, ou não, dentro dos parâmetros corretos, legais e de modos temporariamente estabelecidos pela prudência. Atalhos, até podem existir, mas apenas para resolver questões esporádicas e momentâneas. Os atalhos não devem ser modelos de procedimentos e, principalmente, não podem ser meios efetivos de vida vantajosa, como pensam e insistem alguns.

Não invista sua vida em atalhos e siga os caminhos naturais e reais, que efetivamente são mais longos, mas nos ensinam mais e nos ajudam mais a resolver as questões que decorrem deles próprios. Mas, é claro que, se houver necessidade, em dado momento, um ou outro atalho até pode ser útil, mas não se esqueça que ele é uma forma momentânea de resolução problemática e não pode ser solução para tudo.

Ninguém consegue viver somente através dos atalhos. De qualquer maneira, a escolha sempre será sua. Portanto, procure escolher o caminho certo e se houver necessidade efetiva do atalho, esteja certo de que você escolherá sempre o melhor atalho, no melhor momento, mas jamais tente fazer disso uma prática cotidiana de vida. Se der certo, menos mal, mas se der errado, não insista e mude a estratégia.

Percebeu a diferença, não existe atalho certo, embora, momentaneamente, possa até existir um atalho devido. Mas, lembre-se que, por melhor que o atalho seja, ele sempre será um atalho, que poderá ser melhor ou pior. Desta forma, faça sempre um julgamento de valor e não se anime muito com aquele atalho que até deu bom resultado, porque outros atalhos poderão produzir efeitos bastante desagradáveis

Assim, entenda que o caminho correto, sem atalhos, é o caminho mais seguro e este deve ser o caminho seguido. Se você conseguir andar sempre no caminho correto, você perceberá que gradativa e progressivamente não haverá mais necessidade de tomar atalhos. Deste modo, seja realmente esperto, siga em frente e esqueça os atalhos. Lá no futuro, quando você olhar para trás, certamente você perceberá, que o aparente sacrifício maior de usar o caminho correto terá valido a pena.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (69) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Escritor, Revisor e Ambientalista